As tecnologias e seus impactos: uma observação filosófica.

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Crianças conectadas ao mundo digital são a ponta final de um processo mais profundo.

Com certeza você já participou de um conflito geracional. “No meu tempo era melhor”, “hoje é tudo errado”, “na minha época é que prestava”. Conservamos um sentimento de nostalgia sobre o passado, em especial nossa infância: brincar na rua com os amigos do bairro, empinar pipa nos fins de semana, jogar pião e bola, arrancar um pedaço do dedão do pé (meu caso) ou arranhar o joelho em uma dessas muitas aventuras. A tal da “infância raiz” que tantos dizem.

Contudo, o advento da conectividade chegou, e em diversas áreas da sociedade. Praticamente a grande maioria de nossas atividades são feitas por aplicativos móveis. As gerações mais jovens, claro, são as que melhor se apropriaram disso.

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Precisamos, porém, entender isso como um processo longo, onde as necessidades da sociedade impulsionaram as pesquisas e os avanços tecnológicos e, a partir daí, essa tecnologia propiciou uma transformação na sociedade. Estamos diante, então, de um processo dialético.

A Persistência da Memória, pintura do artista surrealista Salvador Dalí de 1931.

Como medir os impactos da conectividade na sociedade contemporânea? Essa pergunta pode ter várias respostas e nenhuma. Ainda vivemos esse processo de transformação, que está longe de um fim.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman oferece uma perspectiva: a conectividade construiria um mundo de sentimentos efêmeros, passageiros, de coisificação e transformação do humano em produto a ser consumido. É o mundo líquido.

Zygmunt Bauman

Nessa concepção, as próprias identidades seriam fluídas, inconstantes. O indivíduo estaria exposto a uma infinidade de referências e influências por meio dos aplicativos e da conectividade, que suas escolhas e a construção de sua identidade não teriam fim. No jogo do amor, compreenderíamos as relações como meios para atingir o prazer e a satisfação pessoal.

Mas, vamos equilibrar o debate: Pierre Levy, filósofo da Cibercultura, vê esse momento com uma perspectiva positiva. Por meio dos aplicativos, sites e demais dispositivos, a humanidade construiria uma inteligência coletiva, onde todos contribuiriam com conteúdo e também aprenderiam com o material dos outros.

Pierre Levy

Se até então o acesso à informação e comunicação era controlado por grandes conglomerados, a Internet viria quebrar essa lógica, democratizando a informação e permitindo que cada um pudesse contribuir com o conteúdo presente na Internet. Assim, utilizamos a Internet para aprender e para ensinar, naquilo que ele chama de inteligência coletiva.

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Uma terceira opinião: Manuel Castells, sociólogo espanhol, observa um aprofundamento das relações desiguais presentes na sociedade. A Internet não quebraria, por exemplo, a lógica exploradora das relações de trabalho. Pelo contrário: a conectividade amplificaria essa exploração. O controle dos grandes conglomerados e do Estado sobre as pessoas seria intensificado. Uma tecnocracia, organização baseada na dominação de indivíduos que detem e monopolizam o conhecimento tecnológico, seria a base das desigualdades digitais.

Manuel Castells

Escrevo esse texto a partir de uma perspectiva de uma pessoa que nasceu em 1988 e faz parte dos millenials (geração Y). Cresci convivendo com avanços tecnológicos e digitais, que se tornaram comuns pra mim.

A geração seguinte à minha, a Z, os chamados nativos digitais, já nasceram no mundo conectado. O analógico para eles é algo distante que eles pesquisam na Wikipedia pros trabalhos escolares.

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Eles passam horas diante da tela do smartphone, interagem em jogos coletivos, assistem vídeos, séries… e eu também! Seria possível dizer que, de certo modo, ensinamos a eles essa relação com os dispositivos móveis?

Pião, pipa, bola… quantos de vocês ainda sabem usá-los e quando apresentaram suas brincadeiras de infância aos mais novos?

Charge do Toni Dagostinho

Há uma infinidade de explicações para a hipnose diante da tela dos dispositivos. Tédio, vergonha, certo medo de interações sociais e, principalmente, ansiedade, um dos males do século XXI.

Um conselho de um professor de Filosofia para uma pessoa da mesma geração: não espere que os nativos digitais ajam como você na sua infância. Eles têm a deles. Mas, que tal, um dia, você apresentar a eles como foi a sua?