Furar fila e vacinação: o caso do Brasil

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Joyce Oliveira Pereira
Mestre em História - UEMA
Licenciada em História - UFMA

Os privilégios históricos de alguns sujeitos vão alterarar as prioridades do SUS na maior pandemia dos últimos 100 anos? Se depender deles, sim!

Na última semana foi iniciada a vacinação contra o Coronavírus em alguns estados brasileiros, o que causou uma alegria e comoção coletiva. Entretanto, também nos últimos dias começaram a surgir denúncias sobre pessoas que furam a fila da vacina, desrespeitando os planos de vacinação estabelecidos. Ao contrário do que se pode acionar, o velho discurso sobre “jeitinho brasileiro”, “o Brasil é um país corrupto historicamente”.

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Isso tem sido tão escandaloso que os Ministério Público nas esferas federal, estadual e municipal tem cobrado das instituições responsáveis a lista dos vacinados e já investiga aqueles em que foram constatados o privilégio que infringe os direitos humanos da coletividade.

Diversos relatos sobre ‘fura-filas’ durante a vacinação se tornaram alvos de investigações pelo país (imagem/reprodução: Reuteurs)

O que gostaria de apontar aqui para além da discussão do movimento antivacina que está espalhado pelo país, de forma a desencorajar e reforçar o negacionismo científico que está crescendo de forma absurda no Brasil é que a “elite do atraso”, mais uma vez está agindo em prol de si mesma.

Tal análise baseia-se no trabalho de Jessé Sousa que analisa como se construiu uma visão distorcida sobre quem é o responsável pela subserviência do Brasil em muitos aspectos, principalmente o econômico e tecnológico. Não cabe a mim destrinchar a obra, por isso recomendo a leitura para se ter uma noção do todo, porém irei apresentar alguns argumentos para o debate feito aqui.

Jesse Souza, autor do livro “A elite do atraso”

O mercado defende seus interesses historicamente apontando a corrupção como mal único do Estado, o famigerado discurso sobre patrimonialismo que enraíza a corrupção ao estado português…, o que corrobora como o “homem cordial” de Sérgio Buarque: o brasileiro como personalista, emotivo e corrupto.

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Ora, e quem está então furando essa fila? Não é o Seu João que joga dominó toda tarde na esquina e nem Dona Maria. Citando alguns casos temos no Amapá o Secretário municipal de Saúde da cidade de Pedra Branca do Amapari, no Amazonas as irmãs Lins, na Bahia o prefeito de Candibas, no Ceará há suspeitas de irregularidades e, por aí vai.  Para saber quais são os casos é só fazer uma busca rápida na internet.

O que tem se visto mais um vez é que apenas certos sujeitos, de posses, é que estão conseguindo furar a fila da vacinação apontando para os sujeitos que possuem privilégios instituídos historicamente, ao contrário da idéia de um “homem cordial” genérico, sem passado e sem classe.

É essa mesma elite do atraso que constantemente abocanha do Estado e sustenta-se dele através de cargos públicos ou contratos empresariais, que quer acabar com o SUS que está furando a vila da vacinação contra a Covid-19. Não é à toa que as eleições no Brasil são sempre marcadas por tensão, violência e retaliações. É o recurso público que está em jogo, no caso para o possível bolso de alguém.

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Essa é a “corrupção real” que acaba sendo invisibilizada pelo discurso moralista que a elite econômica sustenta para instaurar políticas neoliberais e acabar com os direitos dos trabalhadores e direitos sociais que aliada à grande mídia coloniza a mente do povo brasileiro.

Charge de Jota Camelo

Então antes de falar que o brasileiro possui um “jeitinho” pense no que o mercado nos deu desde 2016: Reforma trabalhista, 14 milhões de desempregados, inflação e agora quer levar sua vacina também. Agora pense que comanda o mercado: a “elite do atraso”.

Ouça nosso episódio especial do podcast com a participação de Jessé Souza: