A Ku Klux Klan: terrorismo e racismo nos EUA

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Na foto, vemos uma reunião da Ku Klux Klan nos Estados Unidos, no ano de 1989. Em destaque, uma menina bem pequena, já iniciada no culto que tem como premissa os ideais eugenistas e racistas.

Se durante muito tempo, a supremacia branca encontrou respaldo no discurso religioso colonialista, a partir do século XIX foi a Ciência (ou a pseudo-ciência, ou, se preferir, os usos desonestos das descobertas da biologia) que forneceu o esteio para os argumentos racistas de grupos brancos em boa parte do mundo, mas especialmente nos Estados Unidos da América.

E, no seio desse pensamento, brotou a erva-daninha mais horrenda e desprezível de todas: a Ku Klux Klan.

Adeptos da Klan em reunião do grupo

Chocaram o ovo da serpente: o nascimento da Klan

A Ku Klux Klan é uma organização racista e terrorista do século XIX, nascida após a Guerra Civil norte-americana e que tinha como objetivo perseguir, torturar e matar afro-descendentes e suas famílias, bem como os defensores de seus direitos. Seu auge foi na década de 1920, quando o grupo atingiu a expressiva marca de 4 milhões de adeptos. Ainda hoje, esse grupo supremacista existe. Contudo, sua força já não é a mesma.

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A lista dos seus atos violentos é extensa. Espancamentos, perseguições, torturas, queima de casas de negros e de defensores dos direitos dos afro-americanos, execuções sumárias em público. A Klan, como alguns de seus adeptos chamam essa organização, tinha sua composição baseada em homens brancos protestantes, num ideal puritano de superioridade racial, xenofobia e racismo.

No centro da atuação da Klan estão os direitos dos afro-americanos no período conhecido como Reconstrução, que se inicia em 1865, no final da Guerra Civil, e vai até 1877. Durante o conflito, os unionistas (defensores da união dos Estados em torno do presidente Abraham Lincoln) enfrentaram os confederados (defensores de uma confederação de Estados com maior autonomia e contra a eleição de Abraham Lincoln), sendo os confederados, oriundos dos Estados do sul, escravagistas.

Atuando principalmente nos estados do sul, historicamente mais racistas e últimos a abolir a escravidão, o grupo adotou o termo grego Kyklos, que significa círculo, como premissa de união contra todos aqueles que ameaçavam a “pureza” de sua branquitude.

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A queima de cruzes e o filme Birth of a Nation

Membros da Ku Klux Klan em ritual de queima de cruzes

Um dos símbolos mais atribuídos à Klan é a cruz, um dos signos mais importantes da história do Cristianismo. Contudo, precisamos contextualizar sua utilização. Com profundas raízes numa visão deturpada do cristianismo, seus membros passariam a adotar a cruz em seus emblemas a partir de 1915, naquilo que conhecemos como segunda fase deste movimento terrorista. Antes disto, porém, não há registros de usos da cruz dentro da simbologia da Klan.

Sua introdução pode ser atribuída a uma obra cinematográfica. O filme O nascimento de uma nação (em inglês, The Birth of a nation, 1915), produzido, escrito e dirigido por David Llewelyn Wark Griffith, ou apenas D. W. Griffith, foi o primeiro blockbuster da história de Hollywood e seu enredo baseia-se na glorificação da Ku Klux Klan. Com um roteiro adaptado do livro The Clansman, de Thomas Dixon Jr., Griffith reproduziu uma narrativa sobre a Guerra Civil a partir da ótica dos fundadores da Klan, apresentados como heróis prontos para salvar a sociedade branca norte-americana.

Capa do filme Birth of a Nations (1915)

Todos os personagens negros do filme foram interpretados por brancos “fantasiados”, usando e abusando do black face, em atuações caricaturadas. Principalmente os homens negros retratados são associados ao mal que a Klan deveria combater. Uma das cenas principais dá conta de uma perseguição de um homem negro a uma mulher branca, salva pelos cavaleiros da esperança vestidos e encapuzados de branco, que executam o assediador, sendo assim justificada a ação da Klan.

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É em O nascimento de uma nação que encontramos o macabro ritual da queima da cruz. A cena icônica, que reafirmava o caráter cristão do movimento, marcou uma geração de espectadores na década de 1910.

O sucesso do filme provocou um reavivamento do grupo supremacista, que voltou a crescer e, consequentemente, também as perseguições e execuções voltaram a aterrorizar o dia a dia da população negra nos EUA.

As fases da Klan

Podemos identificar três momentos ou fases da atuação da Ku Klux Klan na história dos Estados Unidos da América.

A primeira fase se dá na formação do grupo, em 1865, por seis fundadores, ex-oficiais do exército confederado (Frank McCord, John Kennedy, Richard Reed, Calvin Jones, John Lester e James Crowe) e se estende até 1871, momento em que é editada uma lei contra a Klan, conhecida como Klan Act.

A segunda fase começa justamente em 1915, com o lançamento do Birth of a nation e a adoção da cruz em chamas como símbolo do grupo, e vai até 1940. É nesse momento que a Klan atinge seu auge e seu poderio político, com parlamentares eleitos declaradamente racistas e xenófobos. A atuação terrorista, historicamente voltada para a perseguição de afro-americanos, passou a englobar também judeus e católicos.

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A terceira fase principiou em meados da década de 1950, em formato de reação ao movimento pelos direitos humanos e civis nos Estados Unidos. O crescimento da representatividade negra, com ícones históricos como Martin Luther King Jr e Malcom X, provocaram uma forte mobilização das forças ultra conservadoras e da extrema direita estadunidense. Essa terceira fase, inclusive, dura até hoje.


A base do GOP, o atual partido neoconfederado

Nos últimos anos, a conjuntura política norte-americana forneceu novo fôlego à Klan e aos supremacistas brancos. A onda conservadora, na qual surfou o ex-presidente Donald Trump e que culminou com a invasão do Capitólio, propiciou o retorno de ideais que habitavam no subsolo do pensamento estadunidense.

Numa sociedade marcadamente racista até hoje, em que boa parte da população carcerária é negra e que pratica uma nova modalidade de escravidão destes mesmos indivíduos (vide a 13a emenda da constituição desse país), Trump, Klan e demais supremacistas brancos são apenas o resultado final de uma construção histórica muito mais profunda e com raízes podres.