Quem matou Júlio César?

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Prof. Pablo Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Ele conquistou toda a glória do mundo romano; tornou-se ditador com plenos poderes; e morreu em uma das mais conhecidas traições do mundo antigo.

O primeiro a apunhalá-lo foi Publius Servilius Casca. César tentou resistir, mas outros senadores se revezaram no ataque. Ele foi ferido nas mãos, nos braços, na cabeça e, especialmente, no peito e nas costas, num total de 23 punhaladas.

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Um dos líderes da conspiração foi Marco Júnio Bruto, um amigo próximo. Mas a frase “Até tu, Brutus?” foi invenção de William Shakespeare, na peça Júlio César.

Pintura do assassinato de Júlio César, por Karl von Piloty

Júlio César conquistou o poder em Roma em 46 a.C, e saiu da vida pra entrar pra história em 44 a.C., numa das mais famosas traições da história antiga. Até chegarmos neste ponto crucial para a República romana, uma série de eventos políticos culminaram em uma guerra civil.

A instabilidade política no século I era grande, e a instituição máxima, o Senado, já não conseguia apaziguar os ânimos. No campo ideológico, enfrentavam-se políticos que, de um lado, defendiam o conservadorismo e a oligarquia (Optimates) e, de outro lado, defendiam medidas para o povo, como a reforma agrária (Populares).

Do embate desses dois partidos, teríamos uma série de conflitos no século I: da Guerra Civil entre Mário e Sila (anos 80 a.C.), passando pela Guerra Sertoriana (83 a 72 a.C.), até a rebelião de Lépido (77 a.C.). Esses eventos enfraqueceram a República e polarizaram a relação entre os partidos, fazendo com que o regime ficasse instável.

Nesse meio tempo, Crasso e Pompeu, eleitos cônsules contra a constituição de Sila, formaram com Júlio César uma aliança conhecida como triunvirato.

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O Triunvirato

Pompeu era um famoso herói de guerra, vencedor da batalha contra os rebeldes na Hispânia; Crasso deu cabo a Espártaco e seu grupo de gladiadores rebeldes que disseminavam o terror na península itálica; regressaram ambos no mesmo dia e montaram campanha, cada um com seu exército, nos portões de Roma. Cada um exigia ter um triunphus, um desfile militar em sua homenagem e, claro, ansiavam pelo consulado. Como apenas um poderia ser eleito, ambos exigiam uma decisão do Senado.

Naquele momento, um general que tivesse um exército fiel a si poderia exercer um grande poder. Isso significa que o poderio militar era condicionante para a ascensão política. E o Senado, que não tinha exércitos e dependia desses generais, precisava costurar acordos e oferecer cargos.

Não deu outra: revogada a Constituição do ditador Sila, Pompeu e Crasso foram nomeados cônsules. Ou seja: Roma passaria a ter duas cabeças, e um Senado frágil para controlá-las.

Seja como for, foi César quem cresceu no meio dos três. Protegido de Crasso, ele começou a crescer na política e empreender suas primeiras campanhas. Na Gália ele saiu vitorioso, o que lhe rendeu prestígio e fama entre os populares.

Júlio César conquista a Gália. Cena da série Roma da HBO.

Crasso, por outro lado, foi se apagando em face aos outros membros do triunvirato. Rico homem romano, ficou tempo demais em Roma, num momento em que o prestígio e a glória da guerra creditavam ao general um poder político enorme. A ironia é que, quando foi para o campo de batalha, na Batalha de Carras, foi derrotado e morto.

Sozinhos, Pompeu e César viram a aliança enfraquecer. Nesse meio tempo, após a morte de Júlia (filha de Júlio César e esposa de Pompeu), o caldo azedou e uma guerra civil foi instaurada.

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Pior pra Pompeu: seus exércitos estavam longe de Roma, na Hispânia; ele preferira ir até reis conhecidos e formar alianças contra César. O primeiro foi o rei Mitridates, na Grécia. O segundo foi Ptolomeu, no Egito. Mas, sua viagem à terra dos faraós mostraria ser um erro fatal: Ptolomeu, temendo o conflito, escolheu o lado de César e assassinou Pompeu.

César no poder

Contudo, Cesar não apenas chegou ao poder. Ele não queria cometer erros nem permitir que seus adversários fizessem oposição. O modelo republicano não lhe interessava. Por isso, exigiu ser investido nos poderes de ditador. Em 44 a.C. foi nomeado ditador perpétuo (dictator perpetuus). Ou seja: na contramão da tradição romana republicana.

Sua sede por poder não foi bem vista pelo senado, que decidiu eliminá-lo. Nesse ínterim, César planejava deixar Roma em 18 de março de 44 a.C., para uma campanha militar. Mas, três dias antes, ao chegar para um encontro com o senado, foi abordado por Tílio Cimbro, que apresentou uma petição para trazer o irmão de volta do exílio. No entanto, este era apenas um pretexto.

O assassinato provocou uma perigosa instabilidade social. Em outras palavras: as 23 punhaladas atiçaram a população romana.

A morte de Julio César (c.1804-1805) de Vincenzo Camuccini (1771- 1844).

Como resultado, os conspiradores fugiram da cidade e o restante do senado teve de acalmar o povo, exaltado com o crime. Com o tempo, as coisas se normalizaram, mas a república não durou muito, afetada por disputas internas pelo poder. Otaviano, sobrinho-neto e filho adotivo de César, caçou os assassinos de seu pai e, em 29 a.C., tornou-se o primeiro imperador de Roma.

Em síntese, a morte de César foi realizada não por uma pessoa, mas por dezenas. Ou seja, seu assassinato foi organizado para parecer uma revolta coletiva, e não apenas de um ou outro senador descontente.