A vacina contra varíola no Brasil de João VI

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

A ordem real para vacinação contra a varíola partiu de um príncipe regente entristecido após as mortes de seus irmãos e filho.

O início dessa história, como em quase tudo na História do Brasil, tem a ver com a escravização e exploração do povo preto: sete crianças negras foram trancafiadas e enviadas a Lisboa. Sem a companhia de suas mães, elas faziam parte de uma iniciativa do Marquês de Barbacena, Felisberto Caldeira Brant Pontes Oliveira e Horta, que objetivava trazer a recém descoberta vacina, um miraculoso medicamento que podia controlar a epidemia de varíola.

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Naquele momento, 1804, o armazenamento e transporte de uma vacina tinha o corpo humano como embalagem. Explico: era preciso injetar o pus contaminado das feridas, com o vírus enfraquecido, em uma pessoa, e assim repetir o procedimento para a próxima, e assim sucessivamente. Deste modo, era preciso trazer as crianças ainda doentes (com a versão mais branda da varíola) até o Brasil, para daí então poder transmitir aos demais a vacina.

Por 40 dias de navegação, o médico que havia dominado a técnica de aplicação de braço em braço (uma novidade à época) inoculou repetidas vezes o método imunizante nos pequenos, para que não se perdesse a substância.

Antes da vacina, o processo utilizado contra a varíola era conhecido como variolação. Praticada por chineses, árabes e, posteriormente, europeus, a variolação consistia em retirar as crostas das feridas de pessoas com varíola, raspá-las até que tudo virasse pó e fosse colocado no fogo. O processo desativava o vírus, e o pó era soprado nas narinas do paciente que seria imunizado. Essa prática foi desenvolvida em larga escala até o fim do século XVIII, quando a vacina foi descoberta.

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A descoberta da vacina, inclusive, foi interessante: Edward Jenner em 1796 reparou que as mulheres que retiravam o leite das vacas não pegavam varíola e descobriu que a sua imunidade devia-se à infecção não perigosa com “varíola das vacas”, ou “vaccinia”, da palavra em Latim para esse animal, “vacca”.

Ele então desenvolveu a prática de inocular a “vaccinia” antes de a pessoa contrair varíola de humanos, descobrindo a vacina contra a varíola, a primeira criada. Esse método de imunização ainda se denomina hoje vacina devido ao vírus da “vaccinia”.

Em 1805, os capitães-mores das províncias queriam que a vacinação se tornasse obrigatória e rapidamente aplicada à população. Mas foi em 1811, já com D. João em terras brasileiras, que o projeto de vacinação virou ação de Estado. Foi criada, neste ano, a Junta Vacínica da Corte para implantar a vacinação no país.

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Desta maneira, a vacina antivariólica ganhou maior impulso pois o monarca, sensível em relação à varíola por ter perdido dois irmãos e um filho acometidos pela doença, subordinou a Junta Vacínica à Fisicatura, órgão de fiscalização do Reino, vinculando-a também à Intendência Geral de Polícia. A partir daí, as províncias passaram a organizar seus núcleos de ação para vacinação.

Sugestão de pesquisa e leitura:
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)