A crueldade pela autoridade: uma análise filosófica sobre o BBB

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filsofia - UCAM

Ao vivo e em cores, o simulacro dos reality shows, como o BBB, espetaculariza a crueldade em cadeia nacional

Reality shows são tema fértil para discussões nas mídias sociais. Dos que acham a atração uma futilidade aos que não perdem um segundo diante da TV; dos que fazem “textões” criticando a alienação dos espectadores aos que fazem do Twitter um espaço de debates e torcida para os participantes. O BBB, fenômeno mais recente, aparece em trending topics diariamente e mobiliza diversos usuários.

Da redação do Historiante, o que podemos fazer são reflexões históricas, filosóficas e sociológicas e deixar a discussão para os algoritmos. De longe, os realities são os últimos entretenimentos recorridos pelo autor deste texto.

Partindo dessa ideia, é importante ressaltar como os reality shows expõem fragilidades e potencialidades dos indivíduos que se submetem ao jogo. Principalmente porque, confinados, eles têm sua saúde mental testada ao extremo, trancafiados com desconhecidos e tendo de lidar com suas incoerências.

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Simulação e simulacro

Cena do capítulo da 1a temporada de Black Mirror: Fifteen Million Merits

O BBB, a Fazenda ou qualquer outro reality, são parte do que o filósofo Baudrillard chama de hiper-realidade, que é o real espetacularizado. Sua função é oferecer ao espectador um simulacro da vida, uma experiência quase real. Isso esvaziaria inclusive aquilo que é real, substituindo-o pelo simulacro.

Na sociedade contemporânea, a realidade, para Baudrillard, teria deixado de existir, e assim nós teríamos passado a viver a representação dessa realidade, difundida, na sociedade pós-moderna, pela mídia.

Há ironia, mas há fundamento, quando ele defende a teoria de que vivemos em uma era cujos símbolos têm mais peso e mais força do que a própria realidade. Desse fenômeno surgem os “simulacros”, simulações malfeitas do real que, contraditoriamente, são mais atraentes ao espectador do que o próprio objeto reproduzido.

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E não apenas o jogo é esse simulacro. Os próprios indivíduos são também simulacros. Na fronteira do real e do inventado, os bbb’s são atores que cumprem um papel sem entrar completamente no personagem. Ao mesmo tempo em que os próprios espectadores desempenham seu papel.

Crueldade vigiada

Carol Conká, rapper, no BBB21

Em especial a edição 21 do BBB vêm se mostrando mais complexa do que nos anos anteriores. É possível observar, com todas as repercussões possíveis, como um determinado grupo, seguindo uma autoridade exercida pela cantora Karol Conká, exercitou práticas cruéis com o já ex-bbb Lucas Penteado.

Da exclusão da mesa de jantar à exigência de seu silêncio, Conká impôs um comportamento agressivo repetido por demais participantes e nunca repreendido por ninguém, por mais que fosse moralmente reprovável e cruel. A explicação para isso estaria na pretensa liderança exercida pela rapper, apontada como a manipuladora do jogo.

Há nisso algo de terror psicológico que lembra a experiência de Milgram.

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Ela foi uma experimento científico desenvolvido pelo psicólogo Stanley Milgram. O pesquisador tinha como objetivo responder à questão de como os participantes do estudo tendiam a obedecer às autoridades, mesmo que as suas ordens contradissessem o bom-senso individual. 

A experiência de Milgram

Na experiência, pessoas comuns tinham a missão de repetir uma sequência de nomes para um suposto aluno. De acordo com os erros, a pessoa recebia a ordem de dar um choque no aprendiz, como repreensão, até o limite de 450 volts.

Os choques eram falsos, e o aluno também. Um dos pesquisadores estava fingindo gritos de dor do outro lado da câmara durante a aplicação da punição. Mas a pessoa comum que participava do experimento não sabia disso, e esse era o ponto central do caso.

Cerca de vinte experimentos foram realizados envolvendo centenas de indivíduos, pessoas comuns, presumivelmente afeitas aos valores ocidentais e sensíveis à causa científica. Tais indivíduos, de forma consistente, demonstraram um alto índice de submissão à autoridade do pesquisador ao obedecerem à ordem de provocar choques elétricos, com a voltagem máxima, em indivíduos inocentes.

A pergunta que levantamos é: como seria possível trair o senso moral, os valores humanitários, em favor de uma submissão cega a uma suposta autoridade?

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A banalidade do mal

Charge de Latuff

É preciso ter em mente a premissa básica que a filósofa Hanna Arendt já havia preconizado sobre a banalidade do mal: qualquer um, mesmo aquela pessoa mais comum, que ama animais e brinca com crianças, pode cometer o mal.

É possível que essa pessoa não assuma a imoralidade ou crueldade de seus atos, atribuindo a causas abstratas a sua maldade. De todo modo, e a própria Arendt o diz, não há obediência em questões morais. Há um acordo entre os agentes em praticar o mal. Ou seja: por mais que alguém possa dizer que apenas seguia ordens, ela é responsável pelas ações más que cometeu.

Assim, há responsabilidade de todos (Karol Conká, os que hostilizaram e os que se omitiram diante da crueldade) no caso posto. De quem pratique a ação à quem reproduza, nessa perspectiva, não há inocentes diante de atos maus. Há sujeitos éticos e morais que escolheram a prática do mal, contra seus próprios valores, ou em função de uma narrativa que os privilegie.

Sugestão de leitura:
Artigo "Da obediência ao consentimento: reflexões sobre o experimento de Milgram à luz das instituições modernas", da socióloga Sandra Leal de Melo Dahia.

Artigo "Hiper-realidade versus sedução: o paradoxo do Big Brother Brasil", do professor Felipe da Silva Polydoro.

Livro "Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal", da socióloga Hannah Arendt.

Livro "Simulação e simulacro", do filósofo Jean Baudrillard

Dica de filme:
Experimentos
Data de lançamento: 16 de outubro de 2015 (EUA)
Diretor e roteirista: Michael Almereyda