Haile Selassie I, o homem do ano em 1936

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Joyce Oliveira Pereira 
Mestre em História - UEMA 

Mais conhecido popularmente como Jah, Tarafi Makonnen foi o último imperador da Etiópia tendo nascido em 23 de julho 1892, na povoação de Ejersa Goro localizada na província de Harar. Era filho de Ras (rei/ princípe) Makonnen Woldemikael Gudessa e sua mãe chamava-se Woyzero (lady) Yeshimebet Ali Abajifar. O pequeno Tarafi provinha de uma linhagem real pela sua avó a paterna, a princesa Tehagnework, tia do imperador Menelik II (1844-1913), dinastia Salomônica que descende segundo o Kebra Nagaste, livro sagrado da Igreja Ortodoxa Etíope e do Rastafarianismo, da raihna de Makeda de Sabá e do Rei Salomão.

Bastante erudito Tafari Makonnen falava amárico, francês e teve uma educação ocidental, pois seu pai acreditava que o futuro da Etiópia dependia do contato com os conhecimentos europeus. Após a morte de Menelik II, título de seu pai, em 1905 houveram conflitos entre a família até quem em 02 de novembro de 1930, Tafari foi coroado imperador da Etiópia depois de vencer seu último inimigo.

O Ras (rei) Tafari foi coroado na cidade de Adis Abeba,sob os títulos Negusa Negast (Rei dos Reis), Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judá, Eleito de Deus e Ducentésimo Vigésimo Quinto Imperador da Dinastia Salomônica e seu nome real foi Haile Selassie I. Esse episódio teve grande importância para os que acreditavam na ideia de Marcus Garvey que um imperador negro subiria ao trono e tiraria todos os sofrimentos do povo negro na América e os levaria de volta à África.

Os rastafarianistas que foram influenciados pelo Garveysmo viram na coroação de Haile Selassie I a figura tão esperada de Jah. Por isso ele é sempre referenciado no reggae, ritmo jamaicano que em sua maioria é composto por rastarafarianistas. É só observar as expressões “rastaman” e em letras como a do cantor Alborosie:

“Love you King Selassie/ Promise you I’ll keep your crown/ Love you King selassie/ No man will bring me down

(Amo você Rei Selassie/ Prometo que vou manter sua coroa/ Amo você Rei Selassie/ Ninguém vai me derrubar).

Durante seu governo na Etiópia, Haile Selassei I promoveu a modernização do país através de ações como a proclamação da Primeira Constituição Escrita em 16 de junho de 1831, criou um sistema de ensino de primeiros e segundo graus para que a população rural e analfabeta pudesse ter acesso, reformou o sistema público e o sistema fundiário, além de construir estradas. No entanto, ao longo de seus 40 anos de governo foi também considerado um governante autocrata.

Em 1934, a Itália que já ocupava a Somália e a Eritéria lançou suas tropas sobre a Etiópia de forma brutal e desigual com o uso de aviões e armas química. O próprio Haile Selassei I foi à campo defender seu país, mas não conseguiu sendo derrotado em 1935. Ele e sua família exilaram-se na Europa e deixou seu primo Ras Imru Haile Selassie como regente. Enquanto isso Mussolini fazia da Etiópia uma colônia em que Vitor Emanuel III foi nomeado imperador.

Haile Selassie I procurou ajuda na Liga das Nações Unidas para acabar com a invasão italiana em 1936 e, por isso esteve em Genebra em uma sessão do grupo onde ele era o único chefe de Estado em 30 de junho desse mesmo ano. Ao contrário do que podia imaginar foi recebido pelos repórteres italianos com vaias, gritaria e batidas de pé no chão ao ser anunciado como “Sua Majestade Imperial, o Imperador da Etiópia”.

Ras Tafari, imperador da Etiópia

Ras Tafari, um homem de 1,60 m com os olhos escuros, perguntou ao Secretário Geral “se os animais nãos e calariam pelo bem da civilização? ”. As galerias foram evacuadas para que ele proferisse seu discurso, no qual optou pela língua materna, o amárico, mantendo seu patriotismo, ao invés do francês que dominava bem. Sua fala apontou o racismo científico, o eurocentrismo da casa que basilavam a ações imperialistas:

“Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada, enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação, enquanto a cor da pele de uma pessoa não for mais importante que a cor dos seus olhos, enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar a raça, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida, mas nunca alcançada. E igualmente, enquanto os regimes infelizes e ignóbeis que suprimem os nossos irmãos, em condições subumanas, em Angola, Moçambique e na África do Sul, não forem superados e destruídos, enquanto o fanatismo, os preconceitos, a malícia e os interesses desumanos não forem substituídos pela compreensão, tolerância e boa-vontade, enquanto todos os africanos não se levantarem e falarem como seres livres, iguais aos olhos de todos os homens como são no Céu, até esse dia, o Continente Africano não conhecerá a paz. Nós africanos iremos lutar, se necessário e sabemos que iremos vencer, pois somos confiantes na vitória do bem sobre o mal”.

Ele também apontou e falta de interesse da Liga das Nações no tocante às questões fascistas e o perigo disso para a ordem mundial:

“Segurança Coletiva: eis o principal motivo de existência da Liga das Nações. É a confiança que cada Estado coloca em tratados internacionais. É o valor das promessas feitas a pequenos Estados de que sua integridade e independência serão respeitadas e asseguradas. É o princípio de igualdade por um lado, ou por outro lado, a obrigação imposta a pequenos poderes a aceitar os grilhões da vassalagem. Em uma palavra, é a moral internacional que está em jogo. As assinaturas anexadas a um Tratado valem somente até onde os Poderes assinantes têm um interesse pessoal, direto e imediato envolvido? […] Exceto o Reino do Senhor não há nesta terra alguma nação superior à outra. Poderia ocorrer que um governo forte achar que ele pode com impunidade destruir um povo fraco, então a hora urge para o povo fraco apelar à Liga das Nações para dar seu julgamento em total liberdade. Deus e a História se lembrarão de seu julgamento”.

Haile Selassie I não conseguiu o apoio que tanto procurou, mas aumentou seu prestigio e, por isso a Time de 1936 o elegeu o homem do ano. O pequeno Ras Tafari dominou a capa de uma das principais revistas estadunidenses e deu certeza aos rastafarianistas que ele era Jah, que aquele homem negro lutava pelo bem dos seus. Os ventos pós-colonialistas começavam a soprar da África para mudar o que conhecemos como o Ocidente.

Esse discurso de Selassie ficou imortalizado na música “War”, de Bob Marley:

“ Until the philosophy/ Which hold one race superior/ And another/ Inferior/Is finally/ And permanently/ Discredited/ And abandoned/ Everywhere is war/ Me say war

(Até que a filosofia/ Que entende uma raça como superior/ E outra/ Inferior/ Seja final/ E permanentemente/ Desacreditada/ E abandonada/ Em todo lugar haverá guerra/ Eu disse guerra) ”,

Assim o Ras Tafari vive na memória coletiva mundial.