Machado de Assis e o carnaval de 1894

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Em 1894, a Revolta da Armada não permitiu que o carnaval acontecesse. Machado, cronista do jornal A Semana, manifestou sua tristeza com o cancelamento da “folia de momo”.

Quando eu li que este ano não pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. É crença minha, que no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba.

Trecho da coluna do Bruxo do Cosme Velho, em 4 de fevereiro de 1984

Machado de Assis pode ser colocado, sem dúvida, como o principal escritor brasileiro do século XIX. Possivelmente, o mais fundamental de toda a história da literatura brasileira. Como ele, poucos puderam compreender tão bem a sociedade brasileira. Como ele, poucos conseguiram imprimir uma acidez crítica nas linhas de uma crônica, romance ou texto noticioso.

Contudo, o autor de Quincas Borba e Dom Casmurro não era afeito às festas carnavalescas. Machado era tímido e discreto, com uma saúde frágil que não o permitia participar das agitações momescas. Seu cotidiano baseava-se em ir e vir entre trabalho e casa, onde sua mulher Carolina, portuguesa, o aguardava. Um discreto funcionário público que tinha na escrita uma maneira de canalizar o universo que habitava em sua mente.

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Em recente coluna na Folha de São Paulo, Álvaro Costa e Silva ressalta o comportamento discreto e quase “dom casmurro” de Machado. Um raro clique fotográfico do jornal Fon Fon! o flagaria, em 1907, naquilo que seria “a hora do aperitivo dos intelectuais”, na confeitaria Castellões, na antiga rua S. Pedro. Com ele, José Veríssimo e Euclides da Cunha proseavam, algo que dificilmente passaria pelo desfile dos blocos nas ruas do Rio de Janeiro.

Na mesa, ao centro da imagem, é possível ver Machado, de óculos e barba branca.
Foto captada para a revista Fon Fon! em 1907.

Machado de Assis carnavalesco

No entanto, por mais que não fosse um folião e não participasse de desfiles, Machado era um observador da sociedade carioca, e também ele um carioca. Dessa forma, conhecia muito da cultura popular e entendia de povo como ninguém. Muito por isso, ele estivesse conectado com o sentimento de tristeza diante da necessidade de cancelamento do carnaval em 1894.

Rir não é só le propre de l’homme, é ainda uma necessidade dele. E só há riso, e grande riso, quando é público, universal, inextinguível, à maneira deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.

Trecho da coluna do Bruxo do Cosme Velho, em 4 de fevereiro de 1984

Citando uma máxima aristotélica (a de que o homem é o único animal que ri) e clamando o poeta da antiguidade grega Homero (928-898 a.C.), Machado ressalta uma necessidade e, ao mesmo tempo, uma característica própria do ser humano: o riso. O riso dos deuses, o riso inextinguível, universal e público, presente no Carnaval e nas folias momescas de toda sorte que, naquele ano, estariam suspensas.

Portanto, não se trata de um Machado de Assis carnavalesco, mas podemos falar de um Machado de Assis sensível à folia do povo.

Mas, qual o motivo dessa proibição?

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A Revolta da Armada

Os conflitos políticos irrompiam na recém proclamada República. Deodoro da Fonseca, o conhecido proclamador do novo regime e primeiro presidente eleito, havia instituído uma ditadura, que conhecemos como República das espadas (1889 – 1894). Diante de uma crise institucional e econômica, Deodoro fechou o Congresso e estabeleceu o primeiro regime ditatorial no Brasil.

No entanto, a reação veio: unidades da Armada na baía de Guanabara, sob a liderança do almirante Custódio de Melo, sublevaram-se e ameaçaram bombardear a cidade do Rio de Janeiro, então capital da República. Para evitar uma guerra civil, o marechal Deodoro renunciou à Presidência da República em 23 de novembro de 1891.

Baía da Guanabara, no momento dos bombardeios

Porém, outro levante aconteceria, por que nova crise institucional seria provocada. O sucessor de Deodoro foi Floriano Peixoto, seu vice. Contudo, a Constituição de 1891 dizia que, se a presidência ou a vice-presidência ficassem vagas antes de se completarem dois anos de mandato, deveria ocorrer uma nova eleição, o que fez com que a oposição começasse a acusar Floriano por manter-se ilegalmente no poder.

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Em março de 1892,  treze generais enviaram uma Carta-Manifesto ao Presidente da República, exigindo que eleições presidenciais fossem convocadas, respeitando a constituição. Floriano, como resposta, reprimiu violentamente os revoltosos, prendendo seus líderes.

Em 6 de setembro de 1893, um grupo de altos oficiais da Marinha exigiu a imediata convocação dos eleitores para a escolha dos governantes. Entre os revoltosos estavam os almirantes Saldanha da Gama, Eduardo Wandenkolk e Custódio de Melo, ex-ministro da Marinha e candidato declarado à sucessão de Floriano.

O conflito durou até março de 1894, ano em que as tensões atingiram seu ápice e os conflitos tumulturaram a paz da cidade do Rio de Janeiro. Tiros foram trocados entre os Fortes do exército e a artilharia pesada dos navios da Armada. Batalhas sangrentas, como a da Ponta da Armação, em Niterói, provocaram a mudança da capital do Rio (então Niterói) para Petrópolis.

Tropa legalista demonstra manuseio de canhão – 1893 – Marc Ferrez. Coleção Gilberto Ferrez/Instituto Moreira Sales

Os revoltosos, diante das dificuldades da batalha, fugiram para a cidade de Nossa Senhora do Desterro, onde buscaram apoio dos sulistas numa reação contra Floriano. Mas, o presidente deu uma cartada final: trouxe dos Estados Unidos, por meio do empresário e banqueiro Charles Ranlett Flint, alguns navios de guerra, a chamada “frota de papel”.

Essa frota, adquirida nos Estados Unidos, foi também denominada pelos governistas como “Esquadra Flint” e viajou do porto de Nova York até a baía de Guanabara tripulada por mercenários estadunidenses. De acordo com Joaquim Nabuco, as tropas contratadas para auxiliar o governo federal eram “a pior escória de filibusteiros americanos“.

Em Desterro, Floriano reprimiu violentamente os revoltosos, fazendo execuções sumárias e mudando o nome da cidade para Florianópolis.

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No meio disso tudo, o carnaval

Portanto, o cancelamento do carnaval era algo necessário num contexto tão complicado. Porém, lamentar era algo inevitável, principalmente para o povo carioca, que pouco se mobilizou diante da Revolta da Armada, que apenas queria gozar a folia de momo em paz.

Machado captou isso em sua crônica para o jornal A Semana.

Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho

No texto, Machado faz uma brincadeira hipotética sobre passado, presente e futuro dos carnavais, suas modas e fantasias. Citando o Eclesiastes, Machado diz que “o que é, foi, e o que foi, é o que há de vir”. Entre suas observações sobre costureiras e alfaiates e sua permanência (ou não) na cultura estilística do futuro, ele registra as mortes daquele momento no conflito, ao mesmo tempo em que lembra que também morre-se de insolação.

Machado lamenta, e ressalta que “vingue-se a vida guardando a memória dos que merecem”. Parece que mesmo o grande autor já não tinha paciência com a revolta que ocorria naquele momento.

Mas isto é lúgubre, e a primeira das condições do meu ofício é deitar fora as melancolias, mormente em dia de carnaval. Tornemos ao carnaval, e liguemos assim o princípio e o fim da crônica. A razão de o não termos este ano, é justa; seria até melhor que a proibição não fosse precisa, e viesse do próprio ânimo dos foliões. Mas não se pode pensar em tudo.

Trecho da coluna do Bruxo do Cosme Velho, em 4 de fevereiro de 1984