A cor dos egípcios: etnia e raça nos estudos de Cheikh Anta Diop

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Por séculos, a negritude egípcia foi negligenciada e apagada dos estudos históricos, baseados em um colonialismo branco racista.

As representações de Hollywood são interessantes. Do clássico filme “Os dez mandamentos”, estrelado por Charlton Herston em 1954, ao blockbuster “Êxodo: Deuses e Reis”, que foi estrelado por Christian Bale, Joel Edgerton em 2014 (e que trazia a bela Sigourney Weaver como Tuiu, esposa de Seth), vemos um fato fundamental que une passado e presente do cinema norte-americano: os egípcios são representados por atores brancos.

Se não forem todos, ao menos os personagens principais, a realeza e os altos funcionários são brancos. A excessão vamos encontrar justamente ja criadagem. Negros, de diferentes matizes, ocupam papéis subalternos.

De longe, esse não é o nosso principal problema, observando em um ponto de vista historiográfico. O processo de embranquecimento egípcio tem a ver com os principais nomes da egiptologia do século XIX, e pode remontar ainda aos principais pesquisadores europeus que, a partir das descobertas proporcionadas pela Pedra de Roseta, um fragmento de uma estela de granodiorito erigida no Egito Ptolemaico, cujo texto foi crucial para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios, passaram a traduzir os escritos egípcios e conhecer seus principais mistérios.

A decodificação que o artefato proporcionou abriu um universo de pesquisas em História, Filosofia, Arqueologia, Antropologia, Geologia, dentre outras várias áreas. Obviamente que diversas pesquisas já haviam sido empreendidas no Egito, mas o conhecimento que os escritos antigos forneciam mostravam, por exemplo, um profundo conhecimento egípcio sobre Medicina, Filosofia, Astronomia, Matemática, Geometria, Educação… uma infinidade de saberes milenares que em muito influenciaram as gerações e povos futuros, como os gregos!

E aí está algo que pude ouvir do professor Yoporeka Somet, professor da Universidade de Strasbourg e da Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar, em uma entrevista que fiz com ele para a Revista Historien:

Muitos modernos filósofos europeus reivindicam uma origem grega para a filosofia, matemática, geometria, astronomia e assim por diante. Eles até se atreveram a chamá-la de um “milagre” grego em ciência e filosofia. Mas tal noção (um milagre) é desconhecido para os gregos. Thales, Pitágoras, Platão, Aristóteles nunca falaram de um “milagre grego”. Mas todos eles se referem a antigos egípcios como os homens mais cultos e mulheres a quem devia o seu conhecimento. Thales, Pitágoras e Platão, que viajaram para o Egito, onde permaneceram e estudaram por tanto tempo quanto 13 a 22 anos. Quando eles voltaram para seu país de origem, construíram escolas como as que participaram no Antigo Egito: este é o caso de Pitágoras, Platão e Aristóteles, por exemplo.

H i s t o r i e n – R e v i s t a d e H i s t ó r i a [ 7 ] P e t r o l i n a , jun./nov 2 0 1 2, p. 304

Para o professor Somet, a tradição iluminista trabalhou no silenciamento da herança egípcia na formação do pensamento filosófico, pois “não se poderia imaginar uma civilização mais criativa ou mais educada do que os gregos ou a civilização europeia”. A ideia supremacista europeia silenciaria por décadas, séculos, a herança que a civilização egípica representava.

Mas isso se aperfeiçoou a tal ponto que, não somente sua herança, mas até mesmo a composição étnica egípcia seria alvo desse assalto histórico. Seria inconcebível, para os pesquisadores europeus, que uma civilização com tal grau de complexidade e com tanta profundidade intelectual, filosófica e científica não fosse branca.

Sobre um Egito negro

Cheikh Anta Diop (1923 – 1986), historiador, filósofo, antropólogo e político senegalês, foi o principal responsável por trazer a discussão da origem da raça e da civilização egípcias.

Seu trabalho é fundamental para compreendermos, a partir da perspectiva de um autor negro e africano, a composição étnica egípcia baseada em fontes dessa civilização, além de referências de diversos textos antigos (de autores bíblicos a documentos gregos) e análises cruzadas sobre temas como totemismo, circuncisão, realeza, cosmogonia, organização social, matriarcado – cada item em um capítulo do seu livro Nations nègres et culture: De l’antiquité nègre égyptienne aux problèmes culturels de l’Afrique Noire d’aujourd’hui (Nações negras e cultura: Da antiguidade negra egípcia aos problemas culturais da África negra de hoje, em tradução livre) publicado em 1954.

Com base nas descobertas mais atuais da antropologia física nos anos 1950, o autor argumenta:

“Portanto, se a humanidade teve origem nos trópicos, em tomo da latitude dos Grandes Lagos, ela certamente apresentava, no início, pigmentação escura, e foi pela diferenciação em outros climas que a matriz original se dividiu, mais tarde, em diferentes raças;  havia apenas duas rotas através das quais esses primeiros homens poderiam se deslocar, indo povoar os outros continentes: o Saara e o vale do Nilo.”

O estabelecimento das primeiras comunidades humanas ao redor do Vale do Nilo, numa origem monogenética, nos conduz a compreender este espaço como berço de uma civilização negra na África.

Em seus estudos, Cheikh conclui que, diante das evidencias materiais retiradas das análises artísticas, monumentais, além dos escritos antigos e das referências dos cronistas do período sobre o povo egípcio, apesar de algumas poucas divergências sobre datas e localizações, a população egípcia do período pré-dinástico era negra.

Na sequência, um líbio, um núbio, um sírio e um egípcio. Tumba de Seti I

Por pré-dinástico compreenda o princípio da formação dos aglomerados humanos em torno do Rio Nilo, muito antes de o Egito Antigo se tornar a potência do mundo antigo.

Grafton Elliot Smith, egiptologista austro-britânico, teria categorizado a raça mediterrânica egípcia como “morena”, um eufemismo para a cor de pele negra, baseada na corruptela da palavra “mouro”, como eram chamados os muçulmanos do norte da África pelos ibéricos (portugueses e espanhóis).

O componente branco egípcio é tardio, e pode remontar ao período protodinástico, momento em que a unificaçao do Egito está em seu período de consolidação.

Desse modo, Cheikh defende a negritude genética do povo egípcio. Seus argumentos passam por análises e testes de dosagem de melanina feitos em algumas múmias nas quais foram encontrados tecidos de pele; medidas osteológicas; grupos sanguíneos e se estendem por mais de 200 páginas

Contudo, por mais que seus estudos apontassem uma civilização majoritariamente negra, o pesquisador senegalês aponta a diversidade cultural egípcia, com influências mesopotâmicas e de demais reinos e povos da África.

Sobre os relatos do período sobre os egípcios, Cheikh reune alguns, e reproduzimos 3 abaixo:

“Aqueles que são muito negros são covardes, como, por exemplo, os egípcios e os etíopes. Mas os excessivamente brancos também são covardes, como podemos ver pelo exemplo das mulheres; a coloração da coragem está entre o negro e o branco”

Arítóteles, Fisionomia – Livro VI

“Egito conquistou o país dos homens de pés negros e chamou‑o Egito, a partir de seu próprio nome.”

Apolodoro, século I antes da Era Cristã, Livro II, A família de Ínacos.

“Os etíopes dizem que os egípcios são uma de suas colônias, que foi levada para o Egito por Osíris. Eles afirmam que, no começo do mundo, o Egito era apenas um mar, mas que o Nilo, transportando em suas enchentes grandes quantidades de limo da Etiópia, terminou por colmatá-lo e tornou-o parte do continente (…). Acrescentam que os egípcios receberam deles como de seus autores e ancestrais a maior parte de suas leis”

Diodoro, História Universal. Livro III

Sobre o nome KEMET

Há uma teoria clássica, construída por pesquisadores brancos europeus, de que a palavra KMT, KEMET, que dava nome ao Egito Antigo, significaria terra negra, em referência ao solo fértil à beira do Rio Nilo, em oposição ao termo DSRT, DESERET, que significaria terra vermelha.

Contudo, o pesquisador Cheikh Anta Diop empreendeu um sofisticado estudo linguístico, do qual o conceito KMT foi o centro dos esforços interpretativos. Nos escritos faraônicos, um único termo definia os egípcios, que era o KMT. A palavra está no plural, significando “os negros”. O sentido é literal, uma vez que esse termo é repetidamente utilizado para definir a cor preta.

Mulheres em banquete, maquiadas com rímel e outros cosméticos, em pintura mural de sepultura egípcia

“Assim, é escrito com um hieróglifo representando um pedaço de madeira com a ponta carbonizada, e não com escamas de crocodilo. Essa palavra é a origem etimológica da conhecida raiz kamit, que proliferou na moderna literatura antropológica. Dela deriva, provavelmente, a raiz bíblica kam”

A origem dos antigos egípcios, Cheikh Anta Diop

Na língua egípcia, o plural das palavras é definido com a introdução de uma última palavra feminina no singular. Assim, KMT, do adjetivo = km = preto, significa precisamente “negros”, ou, pelo menos, “homens pretos”. O termo representaria o grupo de pessoas que viviam no Egito Faraônico.

Eurocentrismo e racismo

O filósofo congolês Théophile Obenga afirmava que as pesquisas sobre a civilização egípcia se localizavam numa base de pesquisas eurocêntricas.

Para ele, assim como para Cheikh Anta Diop, a civilização egípcia precisava ser compreendida como um reino e um povo negro-africano, “pela variedade biológica dos seus habitantes, os seus modos de pensar, a sua escrita, as suas cosmogonias, as suas concepções da realeza, a sua percepção da vida, da sociedade, do universo” (trecho do livro O sentido da luta contra o africanismo eurocentrista).

Ao longo de séculos, brancos europeus construíram uma narrativa racista e colonial sobre os povos africanos. O ponto mais fulcral disso era o de uma civilização egípcia não-africana, mais aproximada do Mediterrâneo, associada ao Oriente Próximo.