A Primeira Guerra Mundial: As Batalhas de 1917

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Cleber Roberto Silva de Carvalho
Especialista em História do Brasil - Faculdade Montenegro

No ano de 1916 ocorreram algumas das mais devastadoras batalhas da Primeira Guerra Mundial. Batalhas como Somme, Verdun, Ofensiva Brusilov exauriam as forças beligerantes naquele conflito. Mas não resultaram no fim da Grande Guerra.

O impasse ainda se mantinha. E no ano de 1917 as potências em guerra mantiveram as hostilidades, e muitas vezes, aumentando o uso de tropas coloniais, como a Grã-Bretanha, que, por exemplo, utilizou, em várias batalhas, forças do seu vasto império.

A Batalha de Arras

E um dos combates que podemos destacar em 1917 foi a Batalha de Arras, uma ofensiva britânica que ocorreu de 9 de Abril a 16 de Maio.

Um grupo armado com uma arma de 18 libras, em acção durante o avanço perto de Athies durante a Batalha de Arras

Diferentemente das batalhas de Verdun (ofensiva alemã) e do Somme (ofensiva anglo-francesa), as forças britânicas em Arras utilizaram a artilharia em uma frente mais estreita, conseguindo concentrar grande poder de fogo. Nesta ofensiva os britânicos contaram com reforços de forças do Canadá, Austrália, Nova Zelândia.

Ocorreram uma série de combates aéreos naquela região, e em sua maioria terminavam com a derrota dos britânicos, que enfrentavam a Jagdgeschwader 1, também conhecida como “Circo Voador”, a esquadrilha de Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho. Entre 4 e 8 de Abril, o Royal Flying Corps perdeu 75 aviões em combate.

Em terra, as tropas do Império Britânico conseguiram avançar no terreno, mas não tinham rompidos as linhas de defesas alemãs. No final, que teve um resultado indefinido, ocorreram cerca de 158 mil baixas nas forças britânicas e 130 mil baixas entre os alemães.

Desastre Francês na Ofensiva Nivelle

A Ofensiva Nivelle (também conhecida como Batalha do Caminho das Damas) foi um ataque realizado pelos Aliados na Frente Ocidental, entre 16 de abril e 9 de maio, os franceses tinham apoio de britânicos e russos naquela ofensiva. O objetivo dos franceses, que comandavam a ofensiva, era conseguir uma vitória decisiva, quebrando as linhas de defesa alemã ao longo do Rio Aisne. O general francês Robert Nivelle previu que a ofensiva iria durar 48 horas e o número de baixas sofridas não excederia 10 mil.

Ilustração representando a Batalha do Caminho das Damas

O que os Aliados não sabiam era que a inteligência do exército alemão estava ciente que uma grande ofensiva seria lançada, e o general Erich Ludendorff passou meses construindo um novo sistema de defesa.

E na Ofensiva diversos ataques franco-britânicos foram repelidos pelos alemães. Ocorreram alguns sucessos táticos franco-britânicos, mas a vitória estratégica não ocorreu, pelo contrário,  ocorreu, na verdade, um elevadíssimo número de baixas para ambos os lados: Os franceses tiveram 187 mil baixas, britânicos 160 mil baixas e russos 5 mil, os alemães tiveram cerca de 160 mil baixas.

O fracasso no campo de batalha, as devastadoras perdas de soldados, que já se somavam com as grandes perdas da Batalha de Verdun, em 1916, associado a deterioração das condições de vida dos soldados no front, levou milhares de soldados franceses a se amotinarem, no que foram conhecidos como “Motins do Exército Francês de 1917”. O general Nivelle foi dispensado do comando do 2º Exército Francês, substituído pelo general Philippe Pétain.

A Destruição e Morte na Lama de Ypres

Em 1917, os britânicos, também, tentaram uma ofensiva para romper a linha alemã, resultando na Terceira Batalha de Ypres, também conhecida como Batalha de Passchendaele. Foi uma batalha travada entre os britânicos, juntamente com forças do seu império (canadenses, sul-africanos e as unidades ANZAC, abreviação de Australia and New Zealand Army Corps), contra a Alemanha.

Ypres – Terra arrasada – Reprodução – Imperial War Museum

A fase inicial da operação foi extremamente bem sucedida para os britânicos, que tomaram a iniciativa, no dia 7 de junho. As tropas britânicas tomaram a vila de Messines, de onde poderiam controlar quilômetros de território ocupado pelos alemães.

A segunda fase da ofensiva (entre 31 de julho e 10 de novembro) foi, pelo contrário, um desastre. As pesadas chuvas e os bombardeios de artilharia, realizados pelos próprios britânicos, transformaram o campo de batalha num imenso pantanal. Os alemães, operando de redutos fortificados, causaram pesadas baixas nas tropas inimigas. Após meses de duros confrontos no meio da lama, a infantaria canadense capturou a destruída vila de Passchendaele.

O comando aliado, então, decidiu parar a ofensiva. Como balanço final, verificou-se que as tropas aliadas fizeram os alemães recuar em apenas de oito quilômetros. No final na batalha o número de baixas foi devastador para ambos os lados. As forças britânicas e de seu império sofreram mais de 448 mil baixas (entre mortos, feridos e desaparecidos) e os alemães mais de 410 mil baixas (entre mortos, feridos e desaparecidos).

A Guerra Continua na África

Em 1917 a Grande Guerra continuava na África, onde ocorreu a Batalha de Ngomano, travada entre forças coloniais da Alemanha contra as forças de Portugal, em 25 de novembro, durante a Campanha da África Oriental (na região de Moçambique). Uma força de alemães e Askaris, comandada por Paul Emil von Lettow-Vorbeck, tinha obtido uma difícil vitória contra os britânicos na Batalha de Mahiwa, e se encontrava sem provisões. Para solucionar este problema, os alemães invadiram a África Oriental Portuguesa.

Uma força portuguesa, como cerca de 900 homens, sob o comando do major João Teixeira Pinto foi enviada para barrar o avanço de Lettow-Vorbeck, que possuía cerca de 1500 homens.

As tropas portuguesas que estavam acampadas em Ngomano, foram cercada e atacada pelas tropas de Lettow-Vorbeck. A batalha resultou na destruição da força portuguesa e na morte do major Teixeira Pinto. Os alemães tomaram uma grande quantidade de provisões, permitindo que Lettow-Vorbeck continuasse com suas operações na África Oriental. Lembrando que o coronel Lettow-Vorbeck só se rendeu em 1918, quando a guerra no front ocidental já havia terminado.

A Inovação no Campo de Batalha de Cambrai

O ano de 1917 caminhava para seu fim, e as forças britânicas tentaram inovar em uma ofensiva, fato que ocorreu na Batalha de Cambrai, travada entre 20 de Novembro a 7 de Dezembro.

Esta batalha teve um fato inovador, pois foi uma das primeiras batalha a se usar os tanques em conjunto com as outras forças bélicas.

Apesar do sucesso inicial dos tanques britânicos Mark IV, a artilharia e a infantaria alemãs, mostraram as fragilidades dos tanques, e muitos veículos foram postos fora de combate no primeiro dia.

Soldado alemão caminha entre tanques ingleses abandonados após a Batalha de Cambrai

A batalha acabou sendo entre artilharia e infantaria. O ataque britânico demonstrou que a Linha Hindenburg poderia ser rompida e mostrou a importância dos novos métodos de ataque, como a detecção das forças inimigas pela análise do som dos disparos e táticas de infiltração, que mais tarde teriam um papel vital durante a Ofensiva dos Cem Dias, em 1918.

No final, a Batalha de Cambrai teve mais de 55 mil baixas entre franceses e britânicos, além de 179 tanques destruídos, e 45 mil baixas alemãs.

Os impasses nas batalhas de 1917 demonstravam que o sacrifício dos soldados iria continuar. E resultaram nas devastadoras ofensivas de 1918, o ano final da Grande Guerra.