Os bizarros cigarros de chocolate

Compartilhe
Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Famosos e saborosos, os cigarrinhos de chocolate permearam a infância das crianças dos anos 1980 e 1990. Hoje, seriam considerados bizarros.

A imagem que abre esse artigo ilustra uma cena que, hoje, pode ser colocada no roll das bizarrices cotidianas: uma criança segurando um cigarro de chocolate, simulando o ato de fumar.

Na década de 1980, era comum encontrar em estabelecimentos como mercearias, mercadinhos e padarias os famosos “Cigarrinhos de chocolate ao leite” da fábrica Pan ou Garoto. Na embalagem, sempre uma criança sorrindo e segurando, entre os dedos, o desejado produto.

Na verdade, pensar nos anos 1980 e 1990 me faz recordar uma série de exemplos no mínimo estranhos nessa mesma esteira de produtos para crianças. Eu mesmo já cheguei a brincar com armas de brinquedo que, a tirar o peso, eram identicas aos revólveres de verdade.

É preciso refletir, nesse contexto, sobre como as práticas adultas são imitadas e reproduzidas pelas crianças.

O poder da imitação

Ainda que alguns possam dizer que era apenas uma brincadeira e que, na prática, aqueles cigarrinhos de chocolate não causassem qualquer malefício para as crianças e adolescentes que os consumiam, é preciso compreender esse caso a partir de uma análise simbólica.

David Le Breton (2007) diria em seu livro “A sociologia do corpo” que:

“O corpo é o vetor semântico pelo qual a evidência da relação com o mundo é construída”

Deste modo, podemos compreender o nosso corpo como um transmissor de informações. Para além disso, como um reprodutor das lógicas e dinâmicas sociais típicas de determinada cultura.

É preciso lembrar que justamente nas décadas citadas aqui, o uso do cigarro era um distintivo social que significava poder, liberdade e certo grau de sofisticação. As propagandas das principais marcas, nesse período, ressaltavam essas características, sempre de um modo tentador em suas peças visuais.

Como não lembrar, por exemplo, das propagandas da Marlboro, que mostravam o famoso cowboy cavalgando pelas vastas terras de sua propriedade, num visual cinematográfico, fumando ao final seu cigarro. O curioso é que o principal modelo da marca, o fazendeiro Robert Norris, assumiu o posto após seus antecessores morrerem de câncer no pulmão. O próprio Norris jamais teria fumado, como revelou em matéria da Revista Quem.

Peças protagonizadas por Robert Norris, o famoso cowboy que nunca fumou

Outra característica atribuída ao cigarro estava ligada aos recursos sexuais. O argumento utilizado era o de que o cigarro deixava a pessoa mais bonita, mais atraente. O cinema largamente utilizou de representações icônicas do cigarro como um atrativo sexual, como no filme Instinto Selvagem (1992), na icônica interpretação de uma jovem Sharon Stone que fuma enquanto seduz os policiais com a memorável cruzada de pernas.

Podemos citar, no âmbito da publicidade, a propaganda de 1978 da marca Chanceller 100, que traz um título chamativo e provocante: “O único fino que satisfaz”. Nem é preciso ressaltar o teor sexual do slogan. O texto seguinte também é interessante:

“As pessoas de muito bom gosto fumam Chanceller porque ele é extremamente fino, elegante, bonito, moderno. Mas o importante é que Chanceller tem gosto, tem sabor, satisfaz, você sente quando fuma. Com Chanceller, você fica um pouco mais bonito e muito mais satisfeito”

Duas mulheres e um homem ilustram o estereótipo padrão dos fumantes da marca: brancos, belos, sofisticados e saudáveis. É paradoxal, mas interessante notar, como o padrão de beleza e saúde eram largamente utilizados pelas marcas de cigarro.

Ainda seguindo Le Breton, podemos refletir sobre o seguinte:

“Os usos físicos do homem dependem de um conjunto de sistemas simbólicos. Do corpo nascem e se propagam as significações que fundamentam a existência individual e coletiva; ele é o eixo da relação com o mundo, o lugar e o tempo nos quais a existência toma forma através da fisionomia singular de um ator”

Não somente a representação simbólica das propagandas, mas a própria prática dos adultos nos anos 1980 e 1990 reforçava o uso do cigarro dentro de uma lógica asssociada à vida adulta, independente e livre.

Crianças e jovens, deste modo, reproduzem o gestual dos adultos (o famoso mimetismo que David Le Breton também aborda em seu livro), desde as ações repetitivas comuns do dia-a-dia (rir, chorar, caminhar, correr, brincar, brigar) aos componentes mais elaborados e simbólicos (a expressão da emoções, as práticas de recreação, e mesmo o uso de determinados objetos, como o cigarro).

De volta aos cigarrinhos

Textos importantes vieram à tona, no ordenamento jurídico pátrio, resguardando, ainda mais, a criança e o adolescente: a Constituição da República de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069/1990, para citar dois de grande importância. Crescia e tomava forma, assim, uma legislação que protegia os jovens e resguardava a infância.

No meio dos anos 90, o Ministério da Saúde resolveu vetar a imagem do produto da Pan e Garoto em um tom de bom sensor realmente necessário. Com o veto à imagem nociva, a Pan reestilizou sua embalagem e até hoje é veiculado como “rolinhos de chocolate”. A Garoto, por sua vez, descontinuou o produto.

SUGESTÃO DE LEITURA

LE BRETON, David. A sociologia do corpo. Petrópolis/RJ: Vozes, 2007.

ASSAD, Thathyana Weinfurter. Cigarros de chocolate: o que eles têm a ver com o direito penal aduaneiro?. Disponível em: https://canalcienciascriminais.jusbrasil.com.br/artigos/308559367/cigarros-de-chocolate-o-que-eles-tem-a-ver-com-o-direito-penal-aduaneiro