Mídia Social: o palco da discórdia

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Não é nenhuma novidade que as pessoas participam de forma colaborativa junto aos meios de comunicação como TV, Rádio, impresso, sites, blogs, mídias sociais, outros. O fazer jornalístico sempre esteve imbricado com a relação social e a produção do conteúdo.


Teresa Leonel
Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas (UFPB)
Professora no curso de Jornalismo em Multimeios (UNEB/Juazeiro-BA)


A partir do século XVIII, as acentuadas trocas de correspondência postal, associadas a maior facilidade na realização de viagens e ao melhor funcionamento dos correios, permitiram maiores fluxos na comunicação entre os cidadãos (DA SILVA, 2009)[1]. Com a massificação do jornalismo no século XIX até meados do século XX, as cartas ganharam destaques de estrelas. O estreitamento do elo entre a imprensa e o leitor de jornal ou revista aguçou a relação participativa com o veículo de comunicação, instigou a percepção do publico sobre as temáticas corriqueiras da sociedade, o tratamento do texto e as narrativas dos fatos construídos pela imprensa.

As pessoas se comunicavam com os veículos impressos na área de Cartas do Leitor, com indicações e apontamentos sobre determinadas matérias veiculadas, o conteúdo e as fontes referenciadas. As cartas também faziam (e com algumas exceções ainda fazem) parte de um ato comunicacional entre audiência/recepção e o veículo de comunicação.

No entanto, a mensagem encaminhada às editorias sempre, em todas as circunstâncias, era construída de forma cordial, respeitosa e elegante, ainda que o fato enveredasse pelo caminho de processos judiciais contra o jornal. Esse era o caso, por exemplo, do leitor ou personagem da matéria não concordar com a construção da narrativa e o periódico, por sua vez, não trazer na edição seguinte uma errata ou a íntegra da carta, desfazendo a abordagem do conteúdo publicado.

Daí, o século XXI entrou rompendo essas cordialidades com a possibilidade da exposição do internauta, blogauta[2] ou usuário (como as TICs, Tecnologias da Informação e Comunicação, gostam de chamar) e escancara o comportamento rancoroso e animalesco entre as pessoas. O sociólogo Thompson (1999)[3] sempre defendeu que o jornal, como meio de comunicação e de informação, é o local de produção e de difusão de formas simbólicas. Essas formas se apresentam em qualquer que seja o espaço.

Os jornais migram para web, vão se reformulando em poucos anos numa metamorfose virtual (e não ambulante) e absorvem o que há de melhor e pior da internet, da materialidade tecnológica ao comportamento humano. É o ser humano sendo ser humano na mais abstrata virtualização, já que pode fazer uso de artifícios como perfis falsos, robôs, redes de intrigas, compartilhamento de mensagens criadas para bolhas que pensam iguais, ampliando a desinformação e a manipulação de dados. Uma formação de algoritmos com paisagem de bom Samaritano (alusão à Parábola do Bom Samaritano do Novo Testamento que aparece em Lucas 10: 25-37).

E assim navegam os radicais ou baluartes de uma verdade absoluta que está centrada na radicalização de narrativas com efeitos multiplicadores. Ufa! Parece um cenário apocalíptico, mas não é. Ou é?

Os bolsões de criaturas arrogantes, sem e com conteúdo, vão arrotando o seu pensar sobre qualquer tema/assunto e despejam suas frustações, horrores, irracionalidades e desprezo pelo outro de modo a construir um lugar pra chamar de seu. Esse embate se propaga nas mídias sociais, sejam elas Twitter, Instagram, Facebook, WhatsApp, outros. Nessa esfera pública, falar de forma elegante ou cordial, raramente é uma prática.

O palco da discórdia é também um tribunal legitimado pelos internautas. Não é apenas discordar, mas confrontar. Não é apenas confrontar com ideias ou críticas construtivas, mas também usar termos chulos, agressivos, pornográficos e até mesmo associações de vernáculos difamatórios, que agridem o moral, o estado de espírito das pessoas. Ética? Essa palavra pouco ou quase nunca circula nesses espaços.

Nesse campo de batalha quase não existem cordialidade, afeto e comportamento respeitoso. Essas qualidades que deveriam fazer parte da natureza humana para o convívio em sociedade, na coletividade, são deletadas dos caracteres que formam o texto. Agredir e ridicularizar o outro, construindo narrativas que escancaram os instintos mais selvagens do humano, serve para contribuir com as mazelas digitais que navegam virtualmente nas redes de amigos e curtidores visando aniquilar qualquer pessoa que pensa diferente do clã. E assim caminham as plataformas digitais.

Qualquer semelhança desses internautas com o comportamento da plateia que gritava “mata, mata” para os gladiadores escravos da Roma Antiga (70 a.C/ 80 a. C), não é uma mera coincidência. Treinado para lutar e matar pessoas ou animais, os gladiadores, cuja luta se dava numa arena (a exemplo do Coliseu, ponto turístico de Roma) apresentavam um espetáculo sanguinário para um público ávido pelo “entretenimento” da morte.

O que separa essa plateia de boa parte dos internautas das mídias sociais de hoje é a temporalidade e a inovação do campo de batalha. A esfera pública é a internet e a luta se se caracteriza por uma guerra de narrativas que podem aniquilar a vida privada de qualquer pessoa. Assim desejam os gladiadores digitais.

Quem diria que a revolução tecnológica distanciasse tanto as pessoas a ponto de construir muros e não pontes, aprofundar desigualdades ao invés de equidades, escancarar o racismo, a misoginia, o preconceito e o machismo. Quando Levy e Lemos (2010)[4] abriram o prefácio do livro O futuro da internet em direção a uma ciberdemocracia planetária, o entusiasmo e a confiança dos pesquisadores apontavam para uma dimensão política da sociedade em direção à “liberação” da palavra.

Os autores foram enfáticos em defender que essa liberação, viabilizada pela tecnologia, veio contribuir com o surgimento de funções comunicacionais e sociais que permitem qualquer pessoa e não apenas as empresas de comunicação “produzir, consumir e distribuir informação”.

O resultado desse movimento nós conhecemos: as mídias de massa perdem o monopólio na formação da opinião pública e da circulação de informação. E ao mesmo tempo nasce um campo minado de bombas ideológicas, políticas e conservadoras que desenham outros modos comunicacionais que aumentam a desigualdade de classes sociais e estabelecem uma nova ordem de convivência: uma bolha pra chamar de minha. Um tribunal que julga conforme a conivências de alguns e a exclusão de outros.

Levy e Lemos imaginavam (bem no passado mesmo) que quanto mais o exercício da produção, distribuição e compartilhamento da informação, mais a sociedade se tornaria inteligente e politicamente consciente. O encantamento dos pesquisadores foi por água abaixo.

Durante vários anos, termos como “cultura da participação”, “sabedoria das multidões” e “inteligência coletiva” foram amplamente usados para se compreender um conjunto de práticas e inovações que prometiam “democratizar”, “horizontalizar” ou “descentralizar” as relações interpessoais, a política, a economia. (D’ANDRÉA, 2015)[5].  

Isso tudo está mesmo acontecendo? Participar de uma rede social virtual colabora no processo de pertencimento de um lugar pra chamar de seu? Um lugar que você é aceita/o como você é e se apresenta?  Parece que temos mais perguntas do que respostas. O comportamento humano nas relações, até o momento, aponta para uma não evolução da equidade, da justiça, do acesso aos bens e serviços, do pensar coletivo e de forma interativa na relação humano/máquina/sociedade.

Ainda assim, existe uma luta: por uma mídia social cuja discórdia sirva apenas para aprimorar o conhecimento e a igualdade.

Como citar este artigo:
LEONEL, Teresa. Mídia Social: o palco da discórdia (Coluna). IN: O Historiante. Publicado em 18 de março de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/03/18/midia-social-o-palco-da-discordia/. ISSN: 2317-9929.

Sobre a colunista

Teresa Leonel é doutoranda em Comunicação no PPGCOM da UFPE. Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas pela UFPB. Jornalista e cientista social. Professora no curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro. Autora do livro Blog do Noblat: estilo e autoria em jornalismo (Appris: 2015). Área de pesquisa: jornalismo, mídias sociais, narrativas noticiosas em WhatsApp, Teoria Ator-Rede.

NOTAS


[1] DA SILVA, M. As cartas dos leitores na imprensa portuguesa: uma forma de comunicação e debate do público. Tese de doutoramento, Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2009.

[2] Neologismo de internauta + blogueiro. LEONEL, Teresa: Blog do Noblat: estilo e autoria em jornalismo. Curitiba: Appris, 2015.

[3] THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade. Petrópolis: Vozes, 1999.

[4] LEMOS, André, LÉVY, Pierre. O futuro da Internet: em direção a uma ciberdemocracia planetária. São Paulo: Paulus, 2010, p. 25.

[5] D’ANDRÉA, C. Colaboração por pares em rede: conceitos, modelos, desafios. In: RIBEIRO, J. C.; BRAGA, V.; SOUSA, P. V. (org.). Performances interacionais e mediações sociotécnicas. Salvador: Edufba, 2015. p. 283-304.