Messianismo no Ceará – Caldeirão do Beato Lourenço

Compartilhe
Cleber Roberto Silva de Carvalho
Especialista em História do Brasil - Faculdade Montenegro

O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, também conhecido como Caldeirão do Beato Lourenço, foi um movimento popular que ocorreu no Crato, Ceará, na década de 1920.

Como tudo começou…

Natural da Paraíba, José Lourenço Gomes da Silva, chegou em Juazeiro do Norte, onde conseguiu a simpatia de Padre Cícero. O Beato Lourenço se instalou no sítio Baixa Dantas, onde, juntamente com vários romeiros, lavravam a terra, conseguindo obter produção de vários produtos alimentícios.

Padre Cícero passou a encaminhar os retirantes que chegavam a Juazeiro do Norte para o local, muitos fugindo dos castigos da seca e da exploração dos coronéis/latifundiários.

José Lourenço e a Santa Cruz do Deserto (foto O Nordeste)

Em 1921 Padre Cícero entregou um boi, chamado Mansinho, que foi um presente de Delmiro Gouveia, para ser cuidado por José Lourenço. Os inimigo de José Lourenço aproveitaram isso para espalhar o boato que o beato Lourenço estava incentivando a adoração ao boi, como um santo.

Com o intuito de “evitar o fanatismo religioso”, a mando de coronel Floro Bartolomeu, José Lourenço é preso, o boi Mansinho foi morto e em 1926 as terras da comunidade foram vendidas e todas as famílias expulsas do local.

Padre Cícero resolveu alojar as pessoas na fazenda chamada de Caldeirão dos Jesuítas, na cidade do Crato. O local cresceu, chegando a ter 18 mil habitantes, muitos  retirantes viam o local como um refúgio do flagelo da seca de 1932. Os flagelados preferiam aquela fazenda aos “currais humanos” montados pelo governo, que serviam como campos de concentração. Os poderosos ficaram, novamente, intimidados.

Grupos políticos da região passaram a acusar José Lourenço de ser comunista. Após a Intentona Comunista de 1935, onde houve levante em Natal (Rio Grande do Norte), a impressa local passou a anunciar o Caldeirão como um foco da resistência comunista, que deveria ser reprimido.

A repressão contra o Movimento

Sem o apoio de Padre Cícero, morto em 1934, a comunidade passou a viver o risco de represália. Que ocorreu no final de 1936.

Forças do governo atacaram a comunidade, expulsando os habitantes do local e incendiando as casas. Contudo José Lourenço conseguiu fugir. Na busca por José Lourenço e “seus fanáticos”, um grupo de policiais sofreu uma emboscada, e na luta que se seguiu cinco policiais e três seguidores do beato Lourenço morreram.

A repressão contra o movimento foi rápida. Enquanto as forças do governo avançavam por terra, três aviões bombardeavam e metralhavam o “reduto dos fanáticos”, pondo fim ao movimento.

Não há um número exato de mortos durante toda a repressão, os números oficiais dão conta que 400 pessoas morreram, mas há estimativas que cerca de mil pessoas foram mortas. O beato José Lourenço sobreviveu, vindo a falecer de peste bubônica, em 1946, numa fazenda em Exu, Pernambuco. Seus seguidores levaram o caixão, a pé, até Juazeiro do Norte, onde foi enterrado no cemitério do Socorro.

Seguidores do beato José Lourenço no sítio Caldeirão (quadro do acervo do Museu do Ceará)

Muitos sobreviventes do Caldeirão do Beato Lourenço fugiram para Bahia, e na região de Casa Nova deram início a outra comunidade, que também foi reprimida, chamada Pau-de-Colher.