A Pedra dos Sacrifícios no Sertão

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Cleber Roberto Silva de Carvalho
Especialista em História do Brasil - Faculdade Montenegro

No século XIX a província de Pernambuco foi agitada por diversos levantes. A Conspiração dos Suassunas, em 1801, a Revolução Pernambucana de 1817, pela Confederação do Equador, em 1824 e a Cabanada, que se estendeu de 1832 à 1835.

Em 1836 parecia que se iniciaria um período pacifico na província pernambucana, mesmo com o constante temor de uma seca prolongada e com a concentração de capital nas mãos dos latifundiários.

Numa região empobrecida, “esquecida” por padre e membros da Igreja Católica, andarilhos e beatos pregavam, com a linguagem do povo, a redenção da alma e o paraíso celestial.

Neste mesmo ano de 1836 começou uma das mais sangrentas epopeias no sertão. A história do Reino Encantado, na Serra do Catolé, região que pertence atualmente a São José do Belmonte.

Aguardando a volta do Encantado…

João Antônio dos Santos, morador do Sítio Pedra Bonita, pregava para as pessoas na região, utilizando duas pedras, muito belas, que o mesmo dizia serem brilhantes, e se encontravam nas margens de uma lagoa, e neste local havia um reino, preso por um encantamento.

A Pedra do Reino na Serra do Catolé, Pernambuco

João Antônio afirmava que o local lhe foi revelado pelo rei Dom Sebastião.

Neste local haviam duas pedras de aproximadamente trinta e três metros de altura cada. A mais alta, coberta de minério de malacacheta, e brilhava ao sol, na outra havia uma entrada que dava à uma “sala”, chamada pelos populares de Santuário.

Dom Sebastião I de Portugal. Rei de Portugal (1557-1578) desapareceu na África gerando o mito do Sebastianismo, uma espécie de crença messiânica que acreditava no seu retorno ao país.

João Antônio afirmava que “Quando João se casasse com Maria, aquele reino se desencantaria”, e as suas pregações começaram a atrair muitas pessoas.

O padre Francisco Correia, missionário muito prestigiado na região foi ao local e conseguiu dissuadir João Antônio, que parou com suas pregações e saiu de Pernambuco para outra província.

Mas a saída de seu líder não extinguiu o movimento…

O “Reino Encantado” tem um novo líder

Em 1838 o cunhado de João Antônio, João Ferreira dos Santos, se autoproclamou “rei” daquela comunidade e, além de assumir o comando do Reino Encantado, tomou para si sete esposas.

 A comunidade se reunia no Santuário para realizar várias celebrações religiosas, como casórios, que eram celebrados pelo leigo Manoel Vieira, chamado de frei Simão.

Estas celebrações eram acompanhadas do chamado “vinho encantado”, uma mistura feita com frutos de jurema e manacá, que tinha efeito narcótico.

No caso dos casamentos, o “rei” João Ferreira praticava a “primae noctis”,  que era o suposto direito de senhor feudal em desvirginar uma noiva na sua noite de núpcias, durante a Idade Média.

Mas a comunidade não se limitava as celebrações no Santuário.

João Ferreira dizia que para “desencantar” e libertar o reino e o próprio Dom Sebastião, seria necessário regar as pedras e campos com o sangue de homens, mulheres, crianças e cães, a partir de uma rampa próxima as grandes pedras, a chamada “Pedra dos Sacrifícios”.

O “rei” João Ferreira dizia que todas as pessoas sacrificadas retornariam belas, ricas e imortais, os negros retornariam brancos (livres) e os cães retornariam como dragões, que protegeriam o reino.

 Certo dia o “rei” João Ferreira, do alto do chamado “Trono”, afirmou que Dom Sebastião estava descontente com a fraqueza e a falta de fé dos fiéis e era necessário realizar os sacrifícios para quebrar o encantamento.

Começam os Sacrifícios no “Reino Encantado”

Este anuncio deu início ao massacre, que se iniciou no dia 14 de maio de 1838. Durante três dias, doze homens, onze mulheres e trinta crianças foram sacrificadas.

No princípio as pessoas eram voluntárias para o sacrifício, mas depois o “rei” teve que escolher os carrascos para “imolar” as pessoas que se recusassem a degola. Entre os imolados estavam uma das mulheres do “rei” João Ferreira, Isabel, e o seu próprio pai, José Maria.

No dia 17, Pedro Antônio dos Santos, irmão do primeiro “rei”, João Antônio, que teve duas irmãos sacrificadas, dirigiu-se à comunidade, dizendo que esteve com Dom Sebastião, e o mesmo disse que para quebrar o encantamento, seria necessário o sacrifício do “rei” João Ferreira.

Mesmo com os protestos de João Ferreira, o mesmo foi sacrificado.

A notícia do massacre chegou à Manoel Pereira da Silva, proprietário da Fazenda Belém e comissário de polícia da cidade de Serra Talhada, através do vaqueiro José Gomes, que estivera na comunidade do “Reino Encantado” no início dos sacrifícios e do seu compadre, Manoel Ledo de Lima, que enviara um bilhete descrevendo matança.

Diante daquela situação, Manoel Pereira organizou um grupo armado e marchou contra os sebastianistas. Esta formação armada se deparou com um séquito, liderado pelo novo “rei” Pedro Antônio, e estes estavam armados com facões e paus.

Na escaramuça que se seguiu muitos sebastianistas foram mortos, entre eles Pedro Antônio. Outro grupo sebastianista enfrentou um força comandada por Simplício Pereira da Silva, proprietário da Fazenda Cachoeira, irmão do comissário Manoel Pereira.

No final os sobreviventes foram mandados para prisão, as mulheres foram soltas e as crianças foram entregues a famílias que as quisessem criar.

Mesmo com a destruição do Reino Encantado, a tranquilidade só voltaria à região com a prisão de João Antônio, o primeiro líder da comunidade sebastianista.

O mesmo foi localizado na província de Minas Gerais, onde vivia com a família. Na viagem para Serra Talhada João Antônio é morto e para comprovar seu assassinato, sua orelhas foram decepadas e entregues a polícia de Pernambuco.