O fotógrafo de Mauthausen

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

O horror de um campo de concentração sob o olhar de um prisioneiro espanhol

Os campos de concentração nazistas foram, entre as décadas de 1930 e 1940, a expressão máxima da crueldade humana. Eles não foram os inventores deste tipo de empreendimento macabro. Entre os séculos XIX e XX, Alemanha (pré-nazista), França, Estados Unidos, China e Espanha (para citar alguns exemplos) organizaram suas próprias versões, com maior ou menor ligação ao modelo praticado pelos nazistas.

Podemos indentificar um paralelo bastante aproximado ao modelo nazista nos campos criados na Guerra dos Bôeres, no século XX, que continuaram a ser usados na África do Sul e na Índia, para aquelas pessoas consideradas indesejáveis.

Contudo, é no sistema desenvolvido pelos alemães durante o domínio de Adolf Hitler que encontramos uma espécie de fábrica da morte sistematizada. Nos campos e concentração, trabalhos forçados eram a base para empreendimentos de guerra; nos campos de extermínio, indivíduos eram selecionados para a morte em massa nas câmaras de gás, seus corpos e seus pertences utilizados ao bel prazer dos nazistas e seus nomes apagados para sempre.

Não raro, campos que uniam as duas funcionalidades também existiam.

Na Alemanha, eram os “[…] criminosos, os políticos, os elementos antissociais, os infratores religiosos e os judeus, cada um com sua insígnia diferente” (ARENDT, 1989, p. 500). Essa divisão, inclusive, criava hierarquias dentro dos próprios campos, a partir de triângulos de cores diferentes:

▼ Triângulo amarelo:
Judeus: dois triângulos sobrepostos, para formar a Estrela de Davi, com a palavra “Jude” (judeu em alemão) inscrita; 
Mischlings: aqueles que eram considerados apenas parcialmente judeus, muitas vezes usavam apenas um triângulo amarelo.

▼ Triângulo vermelho:
Dissidentes políticos: incluindo comunistas, sociais-democratas, liberais, anarquistas e maçons.

▼ Triângulo verde:
Criminosos de ascendência ariana recebiam frequentemente privilégios especiais nos campos e poder sobre outros prisioneiros.

▼ Triângulo roxo/púrpura:
Basicamente aplicava-se a todos os objectores de consciência por motivos religiosos, por exemplo, as Testemunhas de Jeová, que negavam-se a participar dos empenhos militares da Alemanha nazista e a renegar sua fé assinando um termo declarando que serviriam a Adolf Hitler.

▼ Triângulo azul:
Foram usados, por exemplo, pelos prisioneiros Espanhóis que se exilaram em França a seguir à derrota na revolução Espanhola, e que mais tarde foram deportados para a Alemanha Nazista considerados como apátridas.

▼ Triângulo castanho:
Ciganos e sinti.

▼ Triângulo preto:
Lésbicas e mulheres “associais” (anti-socialis, alcoólatras, grevistas, feministas, deficientes e mesmo anarquistas);
Arianos casados com judeus recebiam um triângulo preto sobre um amarelo.

▼ Triângulo rosa:
Homens homossexuais

Segundo Michel Foucault, a constituição da prisão, da fábrica e do manicômio está, em síntese, no campo de concentração. O poder disciplinar afirma-se, neste caso, em suas características: um tipo de organização do espaço, um controle do tempo, a vigilância como instrumento básico de controle e o registro contínuo do conhecimento.

É a filósofa Hannah Arendt que explica em Origens do Totalitarismo (1989), que uma das características fundamentais e predominantes do governo totalitário é a instituição de campos de concentração, nos quais ocorre a degradação total da identidade humana.

Um fotógrafo em Mauthausen

Em Mauthausen, na Áustria, não era diferente. Situado a cerca de 20 km da cidade de Linz, ele foi inicialmente apenas um pequeno campo, transformando-se posteriormente num dos maiores complexos de trabalho escravo da Europa fora da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Ele foi criado cinco meses depois de Hitler ter anexado a Áustria ao Terceiro Reich.

No campo austríaco, cerca de metade dos 200.000 prisioneiros encarcerados em 8 de agosto de 1938 foi exterminada.

Na Espanha, uma guerra civil tinha acontecido, entre 1936 e 1939. Foi um conflito armado entre forças nacionalistas fascistas, como a Falange Española e a Confederación Española de Derechas Autónomas (Ceda); contra os partidos da Frente Popular, os Aliados da Frente Popular (anarcossindicalistas e anarquistas) e os bascos, que lutavam pela emancipação política. Liderados pelo general Francisco Franco, os nacionalistas deram um golpe contra a Segunda República.

Com a vitória das forças fascistas e a instauração da ditadura franquista, milhares de espanhóis republicanos antifascistas foram perseguidos no país. Vários deles fugiram para a França. Em 1940, depois de a Alemanha ter conquistado a França, cerca de 30.000 foram enviados para campos de concentração devido à sua filiação política anti-fascista ou comunista. Eram chamados os “espanhóis vermelhos” e tratados como apátridas, usando o triângulo azul.

Francisco Boix, o fotógrafo espanhol, foi um desses fugitivos. Ele entrou em Mauthausen em 1941.

O fotógrafo de Mauthausen

Na imagem, vemos Francisco com uma câmera, apropriada dos nazistas, e uma braçadeira que o identifica como repórter da guerra espanhola, pouco depois da libertação do campo de Mauthausen a 5 de maio de 1945.

Ele trabalhou no setor de fotografia do campo, auxiliando no registro dos principais momentos e eventos do campo. Ao saber da vitória dos soviéticos em Stalingrado, em 1943, Francisco passou trabalhar num plano de rapto do material feito. Uma prova inconteste das atrocidades cometidas em Mauthausen.

Abaixo, algumas dessas fotos:

Um grupo de presos espanhóis arrastam carrinhos de terra
Prisioneiros retratados pelo Serviço de Identificação que trabalhou com o fotógrafo Francisco Boix
Um prisioneiro morto, preso nas cercas elétrificadas do complexo nazista

Francisco morreu em 1951 em Paris, na sequência do seu cativeiro. Sua história foi contada pelo historiador Benito Bermejo no livro “O fotógrafo do horror”.

Sugestões de leitura

Livro "Triângulo rosa: Um homossexual no 
campo de concentração", de Rudolf Brazda 
e Jean-Luc Schwab https://amzn.to/2PdFvna

Livro "O fotógrado do horror",
de Benito Bermejo https://amzn.to/3lXLAQs

Livro "As Judias do Campo de Concentração 
de Ravensbrück", de Rochelle G. Saidel 
https://amzn.to/2O1gFGB

Artigo "Campos de concentração como organização 
burocrática: notas para estudo" de Milan Wohland
(clique aqui)

Artigo "As análises de Hannah Arendt acerca
dos campos de concentração e suas relações 
com o 'holocausto brasileiro'"
de Jéssica Tatiane Felizardo e 
José Luiz de Oliveira
(clique aqui)