O que Bolsonaro tem de bom

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  • Teresa Leonel
    Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas (UFPB)
    Professora no curso de Jornalismo em Multimeios (UNEB/Juazeiro-BA)

Se o título dessa coluna chamou sua atenção, a curiosidade pode ser explicada quando imaginamos que o ser humano deve ter, ainda que no mais profundo e bizarro local da essência humana, algo de bom para mostrar em público e no privado.

O austríaco, político e ditador, Adolf Hitler (1889-1945), que governou a Alemanha de 1933 a 1945, era um artista/pintor frustrado. Sua obsessão pela perfeição exigia dele um traço único diante das telas. Ainda assim, para Hitler, a pintura, a escultura e a musica cabiam uma perfeição inimaginável e, que apenas alguns poucos arianos ou honrosas exceções, poderiam retratar a obra aos olhos e ouvidos dos demais mortais.

No final da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), oficiais do Terceiro Exército norte-americano encontraram em galerias subterrâneas, numa mina de sal na pequena cidade de Altaussee (Alpes austríacos), diversas esculturas antigas de mármore branco, posicionadas como se estivessem numa reunião. O ditador, com resquícios de humanidade duvidosa, escondeu em lugares insonháveis várias obras de artes, esculturas e peças de adornos com o objetivo de construir um gigantesco museu pra chamar de seu.

É assustador imaginar que Hitler, responsável pela morte de mais de 6 milhões de judeus, se deleitasse ao som das músicas clássicas dos gênios Johann Sebastian Bach (1685-1750),  Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), Ludwig van Beethoven (1770-1827), entre outros. É mesmo um horror! E não combina.

Música, arte e fotografia também eram apreciadas pelo então ditador  Muammar Mohammed Abu Minyar al-Gaddafi (1942-2011), mais conhecido por Muammar Kadafi. O “monstro do deserto”, como era chamado pelas centenas de meninas que foram raptadas, estupradas, espancadas, forçadas a consumir álcool e cocaína e depois integradas às tropas das “amazonas” de Kadafi, governou a Líbia entre 1969 e 2011[1].

Kadafi era elegante diante das câmaras de TV, fazia o jogo do bom governante com uma bandeira de feminismo e “direitos” da mulher a partir da formação do seu exército só de mulheres. As “amazonas” de Kadafi estampavam para o mundo uma (in)verdade absoluta de um desenvolvimento inexistente na Líbia, com acesso aos bens e serviços de toda a população e um amor incondicional do grande herói, Kadafi, pelo seu povo.

Fotografias, filmes e esculturas faraônicas eram expostos nas mansões que o ditador morava nas quais, em diversas ocasiões, o general chegou a receber autoridades de vários países para apresentar as obras e o seu modo de “ser humano”.

Todo esse acervo, considerado por ele uma paixão, ocultava o apetite sexual feroz e violento do ditador que escolhia meninas, a partir de 12 anos, para satisfazer suas necessidades animalescas, a homens e mulheres que eram obrigados/as a dividir orgias sexuais com a mais extrema violência e depreciação que um protótipo humano pode fazer.

Parece que não é “privilégio” de alguns monstros da nossa humanidade o gosto apurado pelas artes, musica, teatro e fotografia. Mas o questionamento básico está no limiar do entendimento: até que ponto uma pessoa apenas pelo fato de se deleitar diante dessas obras pode estar na categoria de ser humano?

Entrando na reta de quase 350 mil mortes por Covid-19 e aproximadamente 13 milhões de casos[2] confirmados, o Brasil é mesmo uma referencia no meado do século XXI em termos de vidas perdidas. Obviamente, essa referencia tem nome, sobrenome e história: Jair Messias Bolsonaro (ex-PSL, atualmente sem partido).

Longe de querer colocar no colo da presidência a totalidade de mortes pela Covid-19, atribui-se, porém, a ausência de empatia, afeto, cuidado e administração diante da maior pandemia no BR e no mundo, deste a Gripe Espanhola (1918 – 1920).

Assim, mesmo que se tenha vinculado em algumas bolhas a narrativa de ser ele o “messias” salvador da pátria, baluarte da verdade e o “exemplo” de honestidade contra corrupção, o então presidente da República, eleito em 2018, no 2º turno, com 55,13% dos votos, ainda acredita ser a alternativa eleitoral em 2022.

Dono de um estilo nada elegante, falas desconexas e nenhum modo cortês, o presidente vai construindo o seu legado, inimaginável para uma democracia nova como a do Brasil, e registrando suas frases temperadas ao calor das plateias empilhadas no ‘cercadinho’ (saída do Palácio das Alvoradas, em Brasília), ou nas lives reverberadas no canal do Youtube.

Vale registrar algumas falas do presidente sobre a pandemia da Covid-19 que serão perpetuadas na história: “É apenas uma gripezinha”. “E daí? Quer que eu faça o quê?” “Não sou coveiro”. “Brasileiro pula em esgoto e não acontece nada. “…pessoas da direita usam a cloroquina, enquanto os de esquerda devem tomar tubaína“.“Se tomar vacina e virar jacaré não tenho nada a ver com isso”. E por aí segue.

Os professores de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (2018), alertam que as democracias tradicionais estão em colapso[3]. Assustadoramente, os pesquisadores ressaltam que a democracia pode ser subvertida pelas mãos de líderes e atores de tendências autoritárias que através de medidas aparentemente cheias de boas intenções – combate à corrupção ou segurança nacional, patriotismo exacerbado e atos de justiça enviesados – acobertam uma trama para obtenção de poder, sem necessariamente precisar utilizar das forças armadas ou de um golpe de Estado clássico.

Associado a esse processo, os líderes travam uma guerra de narrativas através das mídias sociais para intimidar a imprensa livre, ameaçar resultado de eleições e estimular o descredito nas instituições estabelecidas.

Pensado nesse contexto, parece que a bondade da natureza de alguns líderes está na criação de uma falsa ideia de humanidade e a representação dela, visando atrair para si mesmo o exemplo de supremacia e de uma absoluta perfeição.

Se existe bondade em algumas dessas lideranças, citadas nesse texto, deve estar guardada a Sete Palmos de Terra e um Caixão[4]

Como citar este artigo:

LEONEL, Teresa. O que Bolsonaro tem de bom (Coluna). IN: O Historiante. Publicado em 07 de Abril de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/04/07/o-que-bolsonaro-tem-de-bom/ . ISSN: 2317-9929.

Sobre a colunista

Teresa Leonel é doutoranda em Comunicação no PPGCOM da UFPE. Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas pela UFPB. Jornalista e cientista social. Professora no curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro. Autora do livro Blog do Noblat: estilo e autoria em jornalismo (Appris: 2015). Área de pesquisa: jornalismo, mídias sociais, narrativas noticiosas em WhatsApp, Teoria Ator-Rede.

NOTAS


[1] Conheça a história horrorizante através do livro-reportagem da jornalista Annick Cojean. O harém de Kadafi: A história real de uma das jovens presas do ditador da Líbia. Ed. Verus, 2013.

[2] Dados registrados em 04/04/2021: 331.433 mortes e 12.984.956 casos confirmados. Fonte: Ministério da Saúde. Disponível em: https://covid.saude.gov.br/. Acesso, 05 de abril de 2021.

[3] LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

[4] Alusão ao livro de Josué de Castro. Editora Brasiliense, 1965.