E se pudéssemos viajar no tempo?

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Joyce Oliveira Pereira
Mestre em História - UEMA 

Como citar este artigo:
PEREIRA, Joyce Oliveira. E se pudéssemos viajar no tempo? (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 13 de Abril de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/04/13/e-se-pudessemos-viajar-no-tempo/. ISSN: 2317-9929.

De forma bem simples, podemos dizer que o tempo é fundamental para a História, pois, é a partir dele que os historiadores analisam as experiências humanam em suas continuidades e rupturas.

Tive uma turma de 6º ano que frequentemente me interrogava sobre a possibilidade de criar uma máquina no tempo e retornar ao passado, podendo alterá-lo. Eu, como docente, sempre os alertava que a mudança do passado poderia incorrer com a nossa não existência no futuro, dessa forma, o que Martin McFly pode trazer para nossas aulas?

O enredo de “Back to the Future” ou “De volta para o futuro”, como conhecemos no Brasil, suscita questões sobre as durações ou como elaboramos a noção de tempo histórico nas nossas leituras e análises. O tempo existe, e isso é fato. Seja ele natural, dos dias e das noites, as estações do ano. Já a elaboração de uma nomenclatura e o conjunto de idéias que concebemos sobre eles são construídos socialmente. Por exemplo, nas aulas de geografia, aprendemos que no Maranhão o inverno é seco e o verão chuvoso, mas no senso comum o que impera é que no inverno é que chove e no verão é seco.

Imagem/reprodução: filme Back to the Future 3

A apreensão do tempo pelos seres humanos ocorreu para que os sujeitos conseguissem se referenciar no espaço e construir a si mesmos. Por isso, Mc Fly se desespera com a possibilidade de não voltar à 1985. O que seria de nós sem as experiências do tempo que constroem nossas memórias individuais e coletivas? O que seria de nós vivendo em um passado em que as violações de direitos são legalizadas? É por isso que o historiador francês Marc Bloch colocou que parecemos mais com o nosso tempo do que com o do nossos pais.

Para alguns historiadores, como Jörn Rüsen, a construção da consciência histórica é primordial na formação social e crítica dos sujeitos. Daí a necessidade de apreender as diferentes experiências humanas no tempo. No caso, é preciso pontuar quais são, pois existe uma infinidade de passados que não conhecemos, não temos e talvez nunca teremos acesso. Nas últimas décadas, com o aumento da visibilidade de outros grupos sociais que estavam excluídos dos bancos universitários, ocorreu uma explosão de outras histórias ou outras narrativas que se contrapõem a visões cristalizadas da história do Brasil.

Pintura Dressing for the Carnival, de Winslow Homer. Este pintor retratou afro-americanos, evitando completamente os estereótipos com os quais sua imagem coletiva foi inundada durante o período da Reconstrução após a Guerra Civil Americana (século XIX).

O Dock ou Dr. Emment Brown alerta ao longo do filme todo sobre os perigos da mudança no tempo a Mc Fly. Mas, ao longo da trilogia, é perceptível que o que impera é a vontade dos dois em alterar o seu passado em busca de futuro mais confortável. Estamos falando de uma obra de ficção, mas o que pode acontecer quando um grupo ou alguns sujeitos detém o monopólio da narrativa? Através disso, produzem-se manipulações de memória histórica que incidem diretamente sobre o conhecimento histórico que temos acesso e isso pode desumanizar e matar a curto ou médio prazo outros sujeitos.

A história é sempre conflito, pois é feita de relações humanas. Então, não há como construir narrativas “corretas, brancas, suaves, muito limpas, muito leves”, pois se há vários passados que dos quais não temos acesso, por que não se pode falar sobre eles? O tempo é construído socialmente e o tempo dos historiadores observa o tempo social e o divide, categoriza, analisa e o narra.

Então, não parece algo simples voltar no tempo e mudar o passado, ou o é? Até onde o individual e o coletivo são determinantes na construção do que foi o futuro e que é o nosso passado? Uma coisa é fato: o mundo só é como o conhecemos hoje porque houve um consenso coletivo sobre o que é permitido, legal, lícito em contrapartida ao que não o é, através da socialização, educação, ou experiências trágicas como a escravidão.

Assim, voltar ao passado é uma das melhores maneiras de construir os agoras ou o futuro, na imensidão de horizontes de expectativas possíveis. Então, Dock e McFly, os historiadores não precisam da sua máquina tempo, pois, já temos algumas!

Dica de leitura:

"Jörn Rüsen e o ensino de história"
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Autor: Jörn Rüsen 
Organizadores:
Maria Auxiliadora Schmidt
Isabel Barca
Estevão de Rezende Martins


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Autor: Caseen Gaines