O tempo e a temporalidade

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Como citar este artigo:
MAGALHÃES, Pablo Michel C. A. O tempo e a temporalidade (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 15 de Abril de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/04/15/o-tempo-e-a-temporalidade/. ISSN: 2317-9929.

Quanto tempo tem o tempo? Enquanto as horas e os minutos passam em seu relógio, e as nuvens cruzam os céus num dia comum, quanto tempo o seu tempo teve? Por entre as aflições cotidianas, o ir e vir dos carros e das pessoas nas ruas da cidade; em meio aos sons e cheiros de um dia caótico (ou tranquilo); desempenhando suas atividades no trabalho (ou em casa); quanto tempo o seu tempo teve?

Obviamente que a resposta pode variar infinitamente, a depender de quem a responde. Somos todos sujeitos inseridos em um contexto em que cada minuto, contado milimetricamente, possui a necessidade (ou obrigatoriedade) de um preenchimento com algo. Se isso não acontece, esse tempo foi perdido, jogado fora. Trancados em nossas salas, diante das telas dos celulates, dos tablets, das TVs, costumamos não sentir o quanto a volatilidade desse tempo causa em nós efeitos profundos.

E é essa mesma volatilidade que gera a urgência em ser, em viver, em fazer algo. Hoje a ansiedade (o medo do que está por vir) é um dos males mais comuns da humanidade. Queremos antecipar o presente, numa busca incessante por um futuro que logo será presente, repetindo-se a mesma busca. Viciados nesse futuro/presente, não tomamos conta da nossa própria temporalidade.

A temporalidade é evidentemente uma estrutura organizada, e esses três pretensos “elementos” do tempo, passado, presente , futuro, não devem ser considerados como uma colecção de “dados” cuja soma deve ser feita – por exemplo, como uma série infinita de “agora”, alguns dos quais ainda não são, outros que não são mais -, mas como momentos estruturados de uma síntese original. Senão encontraremos, em primeiro lugar, este paradoxo: o passado não é mais, o futuro ainda não é, quanto ao presente instantâneo, todos sabem que ele não é tudo, é o limite de uma divisão infinita, como o ponto sem dimensão.

Jean-Paul Sartre, in ‘O Ser e o Nada’

Se o tempo é aquele marcado pelo relógio, temporalidade é aquilo que foge a esse tempo e está relacionada à nossa própria existência. Essa existência está baseada na expectativa de ser, que é o que dá sentido a esta mesma existência.

Sartre alerta para que nós não compreendamos passado, presente e futuro como uma mera coleção de dados. O tempo, assim, não é uma soma desses “agoras”. Mas, se o futuro ainda não é, e o passado não é mais, onde podemo situar o presente?

Este ponto sem divisão, que não é tudo, é o momento que “está para ser”. É o instante em que a expectativa dá sentido à existência.

Eu finjo ter paciêcia

Nas Odes, o poeta romano Horácio (65 a.C. – 8 a.C.) escreveu uma de suas citações mais rememoradas até hoje: Carpe Diem (aproveite o dia), expressão sussurrada por Robbin Williams, interpretando o professor John Keating, no filme Sociedade dos poetas mortos (1989).

O trecho completo diz o seguinte:

Tu não questiones — é crime saber — o fim que para mim, que para tios deuses terão dado, ó Leucônoe, nem mesmo consultes os números babilônicos. Quão melhor, o que quer que será, ser suportado! Quer Júpiter te haja concedido muitos invernos, quer seja o último o que agora quebra as tirrenas ondas contra as pedras, sejas sábia, diluas os vinhos e, por ser breve a vida, limites a longa esperança. Enquanto falamos, foge invejoso o tempo: aproveita o dia, minimamente crédula no amanhã.

Odes I, 11, de Horácio

Por ser breve a vida, o poeta pede que os vinhos sejam servidos para que possam aproveitar o dia, uma vez que o tempo foge e o amanhã é incerto. Não se trata de um convite a viver alegre e despreocupado, mas aproveitar aquilo que está no presente.

É interessante como podemos identificar uma correlação aqui entre o paradoxo filosófico sobre o tempo, a poética da antiguidade romana de Horácio e a música Paciência, escrita por Lenine e Dudu Falcão.

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para

Há momentos em que precisamos de calma e alma (podemos aqui compreendê-la como virtude, resiliência, perseverança). Contudo, a vida não para, independente de nossos desejos e anseios. Ela não espera que tenhamos a tão necessária e esperada calma. É o tempo do relógio que corre, contra a nossa temporalidade (nossa existência que anseia ser).

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara

Então o eu-lírico mostra como ele lida com isso: por mais que esse tempo acelere, peça que ele se apresse, ele contraria a ordem e faz hora, se recusa porque a vida é tão rara. Vai inclusive na valsa (uma dança lenta, suave, tranquila).

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

Há aqui uma crítica à ansiedade em encontrar a cura dos males que afetam a humanidade. Há algo de insano nessa busca incessante, infinita, algo que beira à loucura que normaliza isso. Enquanto acontece, o eu-lírico finge ter paciência, talvez antevendo ser essa uma busca vazia, sem sentido ou sem um fim.

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

E nesse meio, segue o mundo girando cada vez mais veloz, sem esperar pela temporalidade de cada um. O tempo do relógio, aquele ao qual damos mais valor, nos cobra velocidade para acompanhá-lo. Contudo, o eu-lírico acredita que a paciência continua sendo algo esperado, por nós e por esse mundo que gira rapidamente.

Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara

Há tempo a perder, ou é preciso ter tempo para compreender todos esses dilemas? Fechar a janela do computador, abrir a janela da alma, ou mesmo a janela da sala, e sentir o tempo que passa, e compreender a temporalidade da sua existência. Tudo isso pode ser feito, deve ser feito. E Lenine não quer perder tempo, porque diz “E quem quer saber? A vida é tão rara. Tão rara.” É como se dissesse: “olha, quer saber de uma? Eu que não vou perder tempo nisso. A vida é rara demais!”.

Sugestão de leituras:

Filme Sociedade dos poetas mortos (1989)
Diretor: Peter Weir https://amzn.to/32gsgFh

Livro O ser e o nada, de Jean-Paul Sartre
https://amzn.to/3v0axON

Artigo A TEMPORALIDADE EM “L’ÊTRE ET LE NÉANT”,
de Gustavo Fujiwara (Clique aqui)

Artigo A temporalidade a partir da perspectiva existencial,
de Fabíola Pozuto Josgrilberg (Clique aqui)