Massacre de Eldorado dos Carajás.

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Joyce Oliveira Pereira
Mestre em História - UEMA

Como citar este artigo:
PEREIRA, Joyce Oliveira. Massacre de Eldorado dos Carajás (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 18 de Abril de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/04/17/massacre-de-eldorado-dos-carajas/. ISSN: 2317-9929.

25 anos de um dia que nunca acabou.

O historiador fala daquilo que a sociedade quer esquecer, já disse Peter Burke, talvez por isso haja ódio e desvalorização do ofício. Hoje, 17/04/2021 faz 25 anos do Massacre Eldorado do Carajás, que vitimou 21 trabalhadores rurais, deixou muitos com sequelas físicas e a todos com feridas psicológicas.

Esse é um dos eventos que marca a luta pela terra no Brasil, que remonta à invasão europeia no século XVI, pois, foi a partir desse momento que os povos originários passaram a sofrer genocídio em nome de um modelo exploratório da natureza e espoliador de vidas humanas. A lógica capitalista enxerga o território muito longe de visão simbólica, ligada ao tempo vivido e as construções sociais feitas a partir dele. Só o enxerga como dominação econômica e, por isso a terra é apenas um “recurso natural”.

A história do Brasil é permeada por sucessivos massacres de terra, estudamos isso por exemplo na Guerra do Contestado, na Guerra de Canudos, mas dificilmente problematiza-se as sesmarias e a plantation da cana-de-açúcar, ou se fala das Lei de Terras de 1850 que dificultou cada vez mais a vida de pequenos proprietários, pois essa normativa previa que estava proibida a aquisição de terras devolutas sem compra formal, facilitando assim para os grandes proprietários e a violência que deles emana: esse fenômeno hoje é conhecido como pistolagem.

Mulheres e crianças famintas, parte dos canadenses que ainda resistiam diante do massacre em 1897 (Flávio de Barros/Acervo Museu da República).

A questão agrária é uma das bases da desigualdade social no Brasil, pois, o pequeno produtor é atrelado ao ‘atraso’ a ‘técnicas rudimentares’, enquanto o “agro é tec” e as grandes indústrias levariam ao ‘progresso’ com seus maquinários. Porém o que não se fala é como a agricultura familiar produz alimentos livres de transgênicos e consegue manter a preservação do território. Isso é o “tempo vivido”, uma dimensão sociocultural da propriedade, enquanto o grande capital é responsável pelos desmatamentos, queima de florestas e a grilagem de terra.

A manutenção de privilégios, exploração da força humana e a expansão da fronteira agrícola até hoje tornam o campo brasileiro um lugar perigoso, onde o que impera é o estado de exceção. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra entre 2010 a 2019 o número de conflitos no campo passou de 1.186 para 1.833 em que nesse último ano existiam 859.023 pessoas envolvidas. Pode-se elencar aqui que podem ser conflitos por terra, por água, causas trabalhistas e outros.

No dia do Massacre o que acontecia era uma marcha pela desapropriação da fazenda Macaxeira pela rodovia PA 150. Em um certo ponto foi acenado para negociar e logo os camponeses viram-se cercado por um contingente de policiais que desciam de ônibus que provinham de Marabá e Parauapebas.

(Imagem/reprodução: internet)

O conhecimento das atrocidades cometidas em Eldorado do Carajás só foi possível devido à uma equipe de filmagem da Tv Liberal que estava presente no local na hora da ação. São cenas fortes e está disponível no Youtube, não recomendo a quem não tem estômago. Desde o início o que se ouve são uma chuva de tiros, gritos de mulheres e crianças, choro, rezas para Nossa Senhora, homens caídos ao chão, homens que correm com paus e foices para uma coluna de policiais armados. A Globo à época colocou que sem-terra tinha atacados os policiais, entretanto, um deles, Amâncio, tinha ido negociar conforme foi assinalado, mas por algum fato, estava caído no chão e os outros homens tentaram resgatá-lo. Ele foi um dos que morreram.

As vítimas acentuam que em média foram 40 a 50 minutos de disparos sem interrupção e que eles não tinham onde se esconder a não ser deitar no chão ou numa cabana que havia na curva S. À noite eram 500 desaparecidos, entre elas 300 crianças, os mortos em sua maioria homens e todos afrodescendentes ou de origem ameríndia. Havia relatos de cooptação de cadáveres que foram jogados em rios da região, o que devia ser prática comum tendo em vista a militarização da questão agrária no período da Ditadura empresarial-civil-militar e a atuação da União Democrática dos Ruralistas, a UDR. 

O evento aconteceu seis anos depois da Constituição Cidadã, o que apontava para sujeitos ainda imersos em práticas autoritárias com a permissividade legal do Estado em que as manifestações eram/são lidas como desordem e os manifestantes como inimigos. Em países como a Suécia, a principal estratégia nessas ocasiões é a comunicação, saber do que se trata, a facilitação, ou seja, ajudar no desenvolvimento da manifestação e a diferenciação que é diferenciar quem está no momento para protestar e quem que vandalizar. Em último caso, usa-se a repressão. De 96 para cá não mudou muita coisa e apesar de o Brasil ser democrático, protestos são vistos como um não direito, baderna, vandalismo, perigo.

Uma informação importante é que a região entre Marabá e a Parauabepas era/é bastante disputada pelos projetos mineralógicos que ainda existem na região, e todo esse corredor de produção e escoamento entre o Pará e Maranhão geraram vários conflitos ao longo das estradas e ferrovia.

Em um país onde a maioria das pessoas não sabem que onde vem, o que tem na sua comida e quem fez, pode-se naturalizar o medo, a dor a morte do outro. A linguagem que impera no Brasil é a violência que desumaniza e mata. Não por isso, Euclides da Cunha em “Os sertões” descreveu que no fim Canudos haviam quatro defensores “um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados” e dia no massacre a repórter precisou gritar insistentemente: “ Para, Para!!! Só tem mulher e criança aí dentro”.  

É sempre tragédia, nunca farsa.