A fabricação de consenso, ferramenta ideológica de dominação

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Como citar este artigo:
MAGALHÃES, Pablo M. C. A. A fabricação de consenso, ferramenta ideológica de dominação (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 30 de Abril de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/04/30/a-fabricacao-de-consenso-ferramenta-ideologica-de-dominacao/. ISSN: 2317-9929.

Sob as asas da águia norte-americana, os países “aliados” devem dançar conforme a música.

Diversas vezes assistimos a vídeos veiculados pelas mídias sociais em que o atual presidente eleito do país (que não mencionaremos o nome por respeito às 400 mil vítimas da pandemia no Brasil) bate continência à bandeira norte-americana ou dá declarações de submissão aos interesses estadunidenses.

Longe de fomentar sentimentos anti-americanistas, precisamos colocar esse tipo de atitude dentro de um processo histórico de construção ideológica. Muito antes do presidente brasileiro acreditar que o mundo gira em torno de Washington e da casa branca, um processo de fabricação de consenso e dominação ideológica ocorria no seio da sociedade americana e, a partir dela, exportado para o mundo por meio da diplomacia.

O ponto de reflexão hoje é o livro “A guerra contra o Brasil”, do sociólogo Jessé Souza, que propõe um olhar sobre a construção de um imperialismo indireto ou informal e como este agiu e age sobre a sociedade brasileira, utilizando-se dos membros das classes altas e médias como sujeitos de execução do plano estadunidense de dominação do país.

Tivemos a honra de receber Jessé Souza como nosso convidado em duas ocasiões no podcast Historiante. Confira abaixo os dois episódios:

Dominação simbólica

Quem, como eu, nasceu em fins dos anos 1980 e passou a infância nos anos 1990, pode ter se acostumado a acompanhar, na TV (Globo, em especial), diversas produções cinematográficas hollywoodianas. Na Sessão da Tarde, icônico programa cinematográfico global, assisti a “O grande Dragão Branco”, “Rambo”, “Rocky” e um sem número de comédias românticas que marcaram minha geração.

Afora minhas lembranças saudosistas, todos esses filmes exerciam em mim suas respectivas influências culturais, que compartilhavam de uma em especial: a ideologia norte-americana, em maior ou menor grau, expressas nos símbolos, diálogos, cenas, personagens… chamamos a isso de soft power, um poder que é exercido no campo ideológico, cultural. Sua tradução literal é “poder leve”. Que de leve, não tem nada.

Cinema, música, arte, cultura, ciência… São várias áreas que impulsionam o soft power.

Na segunda metade do século XX, em especial na Guerra Fria, as classes dominantes norte-americanas passaram a visar a internacionalização do culturalismo estadunidense, visando torná-lo hegemônico em todo o mundo. Não somente uma dominação econômica ou política, mas também cultural. E nisso, as universidades passaram a ser o espaço desejado por essas elites. Dominar a produção científica, suas pesquisas e produção de conhecimento, significaria também uma dominação intelectual no próprio país, bem como no mundo.

A elite funcional não apenas nutre do conhecimento científico já existente como também incentiva indiretamente ou cria com as próprias mãos uma produção científica a partir de sua vivência prática. Como opera com questões e desafios concretos em nome de grandes empresas ou de governos, ela adapta o conhecimento existente a seus fins, ao mesmo tempo que direciona e orienta o sentido do conhecimento científico hegemônico futuro.

SOUZA, Jessé. A guerra contra o Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2020, p. 51.

Fortalecida no pós-Segunda Guerra Mundial, essa dominação simbólica foi exportada como modelo de política externa norte-americana. Diante do “perigo vermelho” dos soviéticos, os EUA propunham um pacto social-democrata com países aliados, do ponto e vista econômico e político. Lógico que, saídos vencedores do conflito bélico de 1939-1945, os norte-americanos se apresentavam como a nação modelo do capitalismo ocidental.

Cena clássica do filme hollywoodiano Casablanca (1942)

Os campeões da democracia e do moralismo

No imaginário coletivo, há a justificativa do senso comum da superioridade norte-americana em relação ao “atraso” brasileiro: protestantes, sabiam dar valor ao trabalho e fizeram suas fortunas do nada (o mito do self-made man); sendo uma colônia de povoamento, para lá teriam ido famílias de pioneiros dispostas a dar duro e suar pelo seu desenvolvimento.

A oposição disso seria o Brasil: colônia de exploração, teria recebido ordas de bandidos, degregados e toda a espécie de pessoas indesejadas em Portugal; preguiçosos e corruptos, não dariam a mínima para as bases religiosas cristãs e seriam dados à vadiagem.

Segundo Jessé Souza, é nesse espelho da relação entre estadunidenses e brasileiros que nasce o “vira-latismo” das elites locais.

Se o americano é percebido como excepcional e melhor do que os outros, o brasileiro é percebido como o pior, mais burro, mais preguiçoso e, joia da coroa, mais corrupto de todos. Isso reflete […] o interesse de uma elite que funciona como mediadora do saque de sua população através da dominação internacional e, para isso, precisa minar a autoestima do próprio povo para melhor manipulá-lo, criminalizá-lo e sabotá-lo.

SOUZA, Jessé. A guerra contra o Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2020, p. 30.

Considerando-se o “sal da terra” e o “povo eleito” (algo que remete ao destino manifesto), os norte-americanos constroem uma narrativa baseada na ideia de que os demais países sub-desenvolvidos (latino-americanos, africanos e asiáticos) são incapazes de estabelecer democracias sólidas, pois são corruptos, sendo esta corrupção um traço característico de sua cultura.

Um dos principais formuladores desse pensamento foi Paul Reinsch, diplomata nomeado pelo presidente Woodrow WIlson para a embaixada dos EUA na China. Com a premissa de que, para a expansão da raça humana, era preciso proporcionar condições de expansão do próprio capitalismo, ele lançaria a base da ideologia imperialista norte-americana de décadas posteriores.

Trocando em miúdos: “precisamos levar a democracia para essas nações atrasadas, corruptas e incapazes de se auto-gerir”.

Fabricando consenso, dominando as massas

A opinião pública, em especial das classes trabalhadoras, era uma meta a ser atingida dentro dos próprios Estados Unidos. As classes dirigentes industriais, comerciais e latifundiárias precisavam de uma mão de obra pacata, que não fizesse greves e que, de certo modo, concordasse com eles.

Num primeiro momento, repressões violentas tingiram de sangue as cidades industriais estadunidenses. Até o fim do século XIX, existia uma forte classe trabalhadora unida, sindicalizada e grevista nos EUA, extremamente combativa. Contudo, a ação dos sindicatos patronais, compostos pelos empresários, em parceria com o poder público, usou de seu aparato policial para destruir essas forças populares.

Já num segundo momento, será uma dominação simbólica (a partir de universidades, think tanks e centros de pesquisa) que irá conduzir a opinião pública para um consenso.

Nessa perspectiva, podemos citar dois indivíduos, responsáveis por isso:

Walter Lippmann, escritor e jornalista, que acreditava que só uma casta de pessoas “educadas e responsáveis” poderia controlar a sociedade, produziu um livro, The Public Opinion (A opinião pública, 1922), em que afirmava a necessidade de uma elite “esclarecida” que guiasse a maioria das pessoas.

O “rebanho popular”, segundo ele, poderia ser conduzido através da propaganda, algo que Lippmann aconselhou o presidente Woodrow Wilson a fazer. Em seis meses, essa ação conseguiu mobilizar os americanos para a luta na Segunda Guerra Mundial. Manipulando o ódio e o medo, com o uso de estrelas de Hollywood, a população trabalhadora comprou a ideia do esforço de guerra.

O segundo nome é o de Edward Bernays, sobrinho de Sigmund Freud e considerado hoje o “pai das relações públicas”. Seu livro, Crystallizing Public Opinion (A cristalização da opinião pública, 1923), traz a ideia de que o pensamento das massas é primitivo, permeado de ilusões e mesmo ilógico, baseado em uma tradição da Psicologia Social apreciada pela elite ocidental.

É Bernays quem vai formular a tradição da indústria da propaganda norte-americana de vender não um produto, mas um desejo, um sonho, um estilo de vida e mesmo uma esperança. Sua manipulação será fundamental, por exemplo, na indústria do Bacon (quando ele consegue que 4 mil médicos indiquem um café da manhã vigoroso, com ovos e bacon, impulsionando o consumo do produto) e na indústria do tabaco (induzindo o consumo feminino do cigarro ao associá-lo à luta feminista, inclusive ludibriando proeminentes feministas a usar o cigarro como forma de protesto).

A atuação de Bernays mostra a todos que a propaganda pode conduzir a opinião pública por meio de símbolos e ideias do mesmo modo que um comandante militar comanda seus soldados fisicamente por meio de ordens. Precisamente como Walter Lippmann havia imaginado, a propaganda bem construída pode criar novos “estereótipos de comportamento” que guiam de forma inconsciente […] o comportamento do grande público.

SOUZA, Jessé. A guerra contra o Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2020, p. 75.

Bernays, Lippmann e seus seguidores venderam também outros ideais:
1. a ideia de que grandes fortunas são necessárias, porque geram riqueza para os demais;
2. o consumo como realização de desejos, associado ao aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores
3. a boa relação entre classes sociais, defendendo a harmonia do sistema capitalista

Uma vez vitoriosos dentro dos EUA, essa estratégia passou a ser utilizada como ferramenta de dominação e construção de um consentimento global em torno dos valores norte-americanos.

A sugestão de leitura é do livro base para esta análise.
A guerra contra o Brasil, de Jessé Souza.
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Um agradecimento especial à Editora Sextante, que gentilmente nos enviou um exemplar desta obra fantástica. Conheçam mais obras do selo Estação Brasil no link https://sextante.com.br/selos/estacao-brasil/