Por trás da música: W/Brasil, Collor e o Brasil de 1992

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Como citar este artigo:
MAGALHÃES, Pablo M. C. A. Por trás da música: W/Brasil, Collor e o Brasil de 1992 (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 07 de Maio de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/05/07/por-tras-da-musica-w-brasil-governo-collor/. ISSN: 2317-9929.

Os versos mais desconexos, o ritmo mais dançante, uma música pop deliciosa. W/Brasil é tudo isso, e ainda é uma poderosa crítica social ao Brasil de 1992.

Pode parecer brincadeira, mas a gênese dessa música está na publicidade. Não que Jorge Ben Jor, seu autor, estivesse interessado nesse tipo de comunicação.

W/Brasil, antes de virar um refrão, era o nome da agência de publicidade de Washington Olivetto, responsável por algumas das campanhas publicitárias mais premiadas do país. A agência, inclusive, se tornaria uma das mais premiadas do mundo, com quase mil prêmios, entre Leões no Festival de Cannes, Clio Awards, CCSP e outros. Ganhou mais de 50 leões de Cannes (entre ouro, prata e bronze na categoria FIlme). Na W/Brasil, foi responsável pela criação de vários comerciais memoráveis, entre eles os filmes para a fabricante de sapatos Vulcabras, o cachorro da Cofap, o casal Unibanco, entre outros. Os filmes Hitler (1989), para a Folha de S. Paulo, e do Primeiro Sutiã (1987), para a Valisère, são os únicos comerciais brasileiros a constarem na lista dos 100 maiores comerciais de todos os tempos.

Badalada, a W Brasil promovia festas de confraternização animadas por grandes nomes da MPB. Em 1990, o convidado da vez foi Jorge Ben Jor. Segundo o próprio Washington Olivetto, em entrevista disponível no Youtube, no meio do show e instigando os funcionários da agência a participar do show, Ben Jor criaria o bordão “Alô, alô, W/Brasil”.

Após a confraternização, Washington e Ben Jor sairiam para um jantar, acompanhados de alguns amigos. Nessa conversa informal, debateram diversos assuntos, dentre eles o cenário político sob Collor. Entre os comentários, a sugestão de que só Tim Maia como síndico poderia resolver uma situação dessas foi feita, ao que o próprio Ben Jor teria dito que Tim realmente tinha manifestado interesse em ser o síndico do prédio em que morava.

Esse papo foi o gatilho que faria a música W/Brasil nascer.

Jacarezinho, o tráfico e a repressão policial

Imagem/reprodução:  Léo Lima /Cafuné na Laje/Internet

A música tem uma estrofe inicial que diz o seguinte:

Jacarezinho, avião
Jacarezinho, avião
Cuidado com o disco voador
Tira essa escada daí
Essa escada é pra ficar aqui fora
Eu vou chamar o síndico
Tim Maia!

Jorge faz referência ao bairro Jacarezinho, no Rio de Janeiro, onde há a favela, de mesmo nome. Um bairro periférico da Zona Norte carioca, espaço frequente da ação repressiva da polícia e que sofre com a atuação do tráfico de drogas e das milícias.

O “avião” é uma referência aos distribuidores de drogas, também conhecidos como “avioezinhos”. Em geral, crianças e jovens que levam pequenas quantidades de droga para consumo de clientes, ou repassam informações aos traficantes da localidade.

“Cuidado com o disco voador” é um alerta pra tomar cuidado com as viaturas da polícia, algo que revela a tensão existente entre traficantes e policiais no cotidiano do tráfico nesta comunidade.

Temos também a “escada”, que possivelmente é uma referência ao traficante Escadinha, José Carlos dos Reis Encina, chefe e fundador da Falange Vermelha, hoje conhecida como Comando Vermelho. Conhecido por fugas espetaculares, como em 1986, quando fugiu de helicóptero do presídio da Ilha Grande-RJ, sendo preso no ano seguinte. Jorge Ben Jor parece pedir a liberdade dele, uma vez que “essa escada é pra ficar aqui fora”.

Escadinha, segundo relatos de moradores do Morro do Juramento, simbolizava uma figura de poder e auxílio, mesclando no imaginário local uma ideia de bem e mal em uma única pessoa.

Jorge já havia composto uma outra canção, Charles Anjo 45, em que contava a história de um malandro que, quando não estava no morro, havia confusão e briga, que só cessavam quando ele, Charles, retornava ao morro. Em entrevista ao Roda Viva, Ben Jor fala que sua inspiração era certo malandro que propiciava certa paz à sua comunidade com sua presença.

O pesonagem na realidade, segundo o historiador Flávio Rodrigues (USP), era Avelino Capitani, ex-marinheiro que entrou para a luta armada contra a Ditadura Militar (1964-1985) na Serra do Caparaó-MG, e que, por ocasião de um confronto com a polícia no Rio de Janeiro, acabou subindo o Morro do Juramento, recebendo o acolhimento da comunidade. Usando uma pistola calibre 45, Capitani passou a simbolizar uma espécie de poder tutelar no Morro.

Em ambos os casos, Jorge demonstra aproximação estes indivíduos que tutelam certa paz para sua comunidade.

Fernando, o Belo, e a política nacional

Imagem/reprodução: Jorge Araújo/Folhapress – 14.12.1989

Seguimos adiante:

Deu no New York Times
Fernando, o Belo
Não sabe se vai participar
Do próximo campeonato
De surf ferroviário

“Deu no New York Times”, também conhecido pelo título “Tanga”, foi um filme de Henfil, de 1987. Ele contava a história de uma republica em que o ditador havia acabado com a imprensa local, possuindo acesso exclusivo e único aos exemplares do jornal norte-americano The New York Times, que ele queimava após ler.

A notícia do dia, dentro da canção, era sobre Fernando, o Belo, nome de um monarca português que reinou entre os anos de 1345 e 1383, conhecido como “o inconstante”. No caso, a referência histórica conecta este rei ao presidente Fernando Collor de Mello, que à época estava envolvido em um dos maiores escândalos de corrupção da política brasileira, o caso PC Farias. Sem saber seu futuro, possivelmente não participaria das próximas eleições, metaforizadas na música como o “próximo campeonato de surf ferroviário”.

Lá da rampa mandaram avisar
Que todo dinheiro será devolvido
Quando Setembro chegar
Num envelope azul indigo

Aqui, Jorge Ben faz referência ao plano econômico encabeçado pela ministra Zélia Cardoso, e que propôs o confisco das poupanças de milhares de brasileiros, logo no início do governo Collor. Todas as contas que possuíam acima de 50.000 cruzeiros novos foram alvo do plano, que causou um caos social sem precedentes. A devolução aconteceria em setembro de 1991, como teria sido anunciada “lá da rampa” do Palácio do Planalto.

Resumindo

W/Brasil tornou-se um hit do ano. Dançante e contagiante, era a típica música pop de verão pra animar o povo. Sua letra, muitas vezes cantada de forma desconexa, poderia pouco importar, mas vemos em seus detalhes a genialidade de Jorge Ben, num estilo inconfundível.

Ouça a música completa agora!

Referências

Livro "A tábua de esmeralda - Jorge Ben Jor", de Paulo da Costa e Silva
Link https://amzn.to/3vOwRLx 

Álbum "A Tábua De Esmeralda", de Jorge Ben
Link https://amzn.to/3uvS8JM

Matéria "Jacarezinho: a história da favela mais negra do Rio de Janeiro" de  William Reis, coordenador-executivo do AfroReggae.

Matéria "Pesquisa recupera a trajetória de integrantes da Revolta dos Marinheiros" sobre a tese de Flávio Luís Rodrigues  "Marinheiros contra a ditadura brasileira: AMFNB, prisão, guerrilha – nacionalismo e revolução?"