O nome de Deus em vão

Compartilhe
  • Teresa Leonel
    Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas (UFPB)
    Professora no curso de Jornalismo em Multimeios (UNEB/Juazeiro-BA)

A igreja sempre esteve junto ao Estado desde a sua existência como instituição. Antes disso, o estabelecido era a relação do homem com o divino, o sagrado. Os profetas, poetas, filósofos mantinham essa relação mais próxima da sociedade, sejam por razões políticas, religiosas, domínio e poder sobre as classes sociais ou tudo isso junto.

“De maneira geral, no período anterior aos hebreus, o relacionamento entre a religião e o Estado (rei) consistia numa união estreita das duas forças, o Estado sendo geralmente o parceiro dominante”[1]. Uma vez instituída como igreja e se estabelecendo como organização religiosa, as interferências nos governos e governantes passaram a ser uma constante. A naturalização dessa relação foi absorvida pela sociedade como parte da própria organização societária: esfera religiosa e a esfera política são convergentes.

O cristianismo faz uma ruptura nessa “união”. Na relação tensa entre os judeus e o Império Romano, Jesus estabeleceu o princípio da separação entre os dois reinos quando declarou: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22:21). “No seu nascimento e na sua morte, Jesus experimentou a ira dos poderes constituídos (Mt 2:3,13; 27:2,11,37; Lc 23:2,8-12), porém o seu maior conflito foi com o sistema religioso, não com o sistema político[2]“.

Embora esta coluna não pretenda se debruçar em toda a história e nas relações conflitantes entre igreja/religião/governos, esta abertura se faz necessária para que se possa contextualizar o quanto os governos atuais, especificamente, no Brasil, se apropriam de conceitos e ideias equivocadas sobre a função da igreja na estrutura societária.

O envolvimento da igreja no governo e na política brasileira — e aqui precisamos registrar que não são todas as denominações e nem todas as igrejas – alcança um patamar desconcertante e deslocado da própria pregação do evangelho. Inclusive, se permitir ser “evangélico” na atual conjuntura é ser objeto de chacota e descredito por muitas pessoas que colocam todos aqueles que professam sua fé dentro do mesmo balaio dos “ilusionistas da fé”.

Nesse contexto, o Congresso está recheado de políticos que fazem parte da “bancada da bala”, “bancada evangélica” e os “terrivelmente evangélicos”. Como acreditar nessas referencias que defendem armamento, violência, exclusão de pessoas e divisão de classes?

Há um contrassenso na posição desses ilusionistas da fé que dizem pregar o “evangelho da salvação”. Pousam de baluartes da verdade absoluta, levantam a bandeira dos templos abertos, em plena pandemia da COVID-19, com a justificativa de perseguição da livre expressão da fé.

Usam o nome de Deus em vão. E esse ato é contra o que diz a própria Bíblia: “Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus, pois o Senhor não deixará impune quem tomar o seu nome em vão…” (Êxodo 20:7). Para algumas pessoas inocentes na fé, assujeitadas a um falso discurso de amor e acolhimento aos congregados, essas figuras estão fazendo o melhor para comunidade evangélica.  

Estão defendendo o “evangelho” de outras pessoas que querem fechar a igreja. Ora, a própria Bíblia diz que “somos o templo do Espírito Santo de Deus” (1º Coríntios 6:19). Isso significa que o próprio Deus, na pessoa do Espírito Santo, habita em nós. Portanto, a igreja espiritual não pode estar fechada.

O templo físico é um espaço e que diante desse cenário pandêmico deveria estar funcionando com outras atividades de acolhimento, distribuição de cestas de alimentos e material de higienização. Realizar ações pontuais com grupos menores, mantendo todos os cuidados previstos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A função espiritual e social da igreja não se perde no tempo e nem pode estar vinculada a questões políticas. Envolvimento de pastores no meio político e bandeiras descontextualizadas com o verdadeiro evangelho, que está exposto na referencia maior que é a Bíblia, contribuem para o descrédito de muitos personagens que assumem funções de charlatões, salvadores da pátria e novos inquisidores do século 21.

O debate tem que ser uma constante. Mas, em nenhum momento estamos nos referindo à ausência de fé das pessoas e das suas crenças. O momento não é de aglomeração, e sim de união, compressão e de acolhimento virtual (ainda bem). E é esse acolhimento que está nos ajudando a passar por esse processo. Se for pra falar o nome de Deus, que não seja em vão.

Como citar este artigo:

LEONEL, Teresa. O nome de Deus em vão (Coluna). IN: O Historiante. Publicado em 19 de Maio de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/05/21/o-nome-de-deus-em-vao/. ISSN: 2317-9929.

Sobre a colunista

Teresa Leonel é doutoranda em Comunicação no PPGCOM da UFPE. Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas pela UFPB. Jornalista e cientista social. Professora no curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro. Autora do livro Blog do Noblat: estilo e autoria em jornalismo (Appris: 2015). Área de pesquisa: jornalismo, mídias sociais, narrativas noticiosas em WhatsApp, Teoria Ator-Rede.

NOTAS


[1] Igreja e Estado: Uma Visão Panorâmica. Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. Disponível: https://cpaj.mackenzie.br/historia-da-igreja/igreja-e-estado-uma-visao-panoramica/

[2] Idem