João Saldanha: o técnico demitido pela Ditadura

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Em um período de repressão, João Sem Medo peitou o presidente, mas perdeu o cargo pela coragem

João Saldanha foi jogador, diretor de futebol e treinador do Botafogo antes de ingressar na imprensa esportiva. Como comentarista, Saldanha se destacou e ganhou popularidade entre os torcedores.

Ele era filiado ao Partido Comunista desde a década de 1930.

Em fevereiro de 1969, Antônio de Passo, então diretor de futebol da Confederação Brasileira de Desportos, bateu à porta dele e lhe fez o convite para treinar a seleção brasileira.

Em mente, Saldanha já tinha os nomes dos jogadores que seriam convocados.

Após Médici assumir o poder, em outubro de 1969, o AI-5 já havia sido instaurado no Brasil e o país vivia o que ficou conhecido como “anos de chumbo”. Saldanha não se calou. Conhecido como “João Sem Medo”, o treinador passou a questionar as torturas e mortes que ocorriam no Brasil durante a ditadura.

Apesar do sucesso e da popularidade como treinador, Saldanha não deixou de atacar a ditadura, principalmente após a ascensão do general Emílio Garrastazu Médici ao poder.

O regime militar endureceu a repressão a integrantes do Partido Comunista. No fim de 1969, o assassinato de Carlos Marighella, um amigo de longa data, despertou de vez a ira do treinador da seleção.

João montou um dossiê, em que citava mais de 3.000 presos políticos e centenas de mortos e torturados pela ditadura brasileira, e o distribuiu a autoridades internacionais em sua passagem pelo México na ocasião do sorteio dos grupos da Copa, em janeiro de 1970.

Pela coragem, ficou eternamente marcado como “João Sem-Medo”.

Desde então, o governo de Médici iniciaria um esforço velado nos bastidores para derrubar João Saldanha do cargo. 

Dos episódios que ganharam destaque na imprensa, o que ficou eternizado foi a resposta do treinador à insistência do presidente pela convocação do atacante Dadá Maravilha. Saldanha disse: “Nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala o time”.

Dita a frase, após duas semanas, o treinador foi demitido. Faltavam menos de três meses para a estreia do Brasil na Copa do Mundo.

Com informações de Carta Capital e El País