O Diário de Anne Frank e a polêmica da “erotização”

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A adaptação em quadrinhos do manuscrito da jovem judia foi alvo de críticas de pais de alunos em uma escola brasileira

Durante a invasão nazista nos países baixos, a jovem Anne Frank usou um diário para registrar seus dias em um esconderijo, confinada com outras famílias judias, além da sua. Seus dias, com alegrias e tristezas, medos e esperanças, foram impressos nas páginas deste caderno.

Anne, pouco depois, acabou sendo capturada e transportada até o campo de concentração de Bergen-Belsen, falecendo de febre tifoide pouco antes da libertação do local, em 1945, quando tinha apenas 15 anos.  

Uma vez libertos dos campos de concentração, Otto Frank, pai de Anne, recebeu da ajudante Miep Gies o material da jovem. O teor e o conteúdo mexeram com o coração de um pai saudoso. Segundo o site Anne Frank House, a princípio, Otto não suportou ler os textos escritos pela filha. “Não tenho forças para lê-los”, escreveu em carta para sua mãe em agosto daquele ano.  

Com o tempo, Otto mudou sua opinião sobre o diário, passando a compartilhar com famíliares alguns trechos, ao mesmo tempo em que traduzia para o alemão.

Impulsionado por amigos e familiares que achavam que os relatos eram “um importante documento”, o pai de Anne decidiu procurar uma editora para publicar os escritos da filha.  

Hoje, 76 anos depois, O Diário de Anne Frank já vendeu mais de 35 milhões de cópias em todo mundo, segundo o The New York Times. Traduzido em mais de 70 idiomas e publicado em mais de 40 nações, a obras vendeu 16 milhões de exemplares no Brasil, como aponta o site Público, de Portugal.  

Pelo seu conteúdo, o livro tornou-se um dos principais registros sobre a perseguição nazista e o holocausto do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial. Sua importância é incontestável, principalmente por representar em suas linhas a visão de mundo de uma jovem que tinha uma vida inteira pela frente.

Polêmicas vazias

Quadrinho da novela gráfica ‘O Diário de Anne Frank’, de Ari Folman e David Polonsky

Na quarta-feira, 2 de junho, em matéria publicada pela Folha de São Paulo, pais de estudantes da Escola Móbile, em São Paulo, entraram em contato com a direção do colégio por considerarem que a versão em quadrinhos do “Diário de Anne Frank” estava erotizando a personagem.  

Utilizado nas aulas de inglês do colégio, a versão utilizada em sala era justamente editada nesta língua estrangeira. Em tradução livre, as partes que causaram polêmica são: “toda vez que vejo um nu feminino, vou a êxtase” e “esse buraco é tão pequeno que mal consigo imaginar como um homem entra aqui dentro […] já é difícil enfiar meu dedo indicador dentro”. 

A escola emitiu nota informando que o material era usado no 7o ano do Ensino Fundamental, seguindo indicação etária editorial. “A leitura integra um projeto amplo para o debate e reconhecimento dos horrores do Holocausto, estimulando a reflexão sobre seu contexto histórico”, salientando que o livro é recomendado para crianças da faixa etária entre 8 e 12 anos.  

A nota segue: “A Móbile salienta que todo o conteúdo textual da edição consta no diário original redigido por Anne Frank, inclusive os trechos pontuais que suscitaram a referida discussão. Por fim, a escola tem conversado com alguns pais que levantam dúvidas sobre o conteúdo do livro”

Com a repercussão da reclamação, a Fundação Anne Frank se manifestou oficialmente por meio de uma nota divulgada na Veja São Paulo, onde diz consideram as acusações dos pais dos estudantes como “ultrajantes e ridículas”. 

Quem foi Anne Frank e qual a importância do seu diário?

Original do diário, escrito por Anne Frank em seu esconderijo em Amsterdã. Há pelo menos mais três versões da obra (Foto: Reprodução)

Anne Frank nasceu a 12 de junho de 1929 na cidade alemã de Frankfurt. Tem uma irmã, Margot, de cerca de três anos mais velha. A situação na Alemanha não era a melhor: havia poucos empregos e muita pobreza. E é nesse cenário que Adolf Hitler e o seu partido recebem o apoio de um número crescente de adeptos.

Hitler odiava os judeus, culpando-os pelos problemas do país, e deu voz aos sentimentos anti-semitas que prevaleciam na Alemanha. Por causa desse ódio aos judeus e da má situação do país, os pais de Anne, Otto e Edith Frank, decidem mudar-se para Amesterdão. Aí, Otto fundou uma empresa que comercializava pectina, um agente gelificante para a preparação de geleias. 

A 1 de setembro de 1939, quando Anne tem 10 anos, a Alemanha nazi invade a Polónia: começa a Segunda Guerra Mundial. Passados uns meses, a 10 de maio de 1940, os nazis também invadem a Holanda. Cinco dias depois, o exército holandês rendeu-se.

Aos poucos, mas inexoravelmente, os ocupantes introduziram leis e regulamentos que tornaram a vida dos judeus mais difícil. Parques, cinemas e lojas não-judaicas, entre outros locais, estavam proibidos aos judeus. Por causa destas regras restritivas, eram cada vez menos os lugares onde Anne podia ir.

O seu pai perde o seu negócio, uma vez que já não é permitido aos judeus terem empresas próprias. Todas as crianças judias, incluindo Anne, tiveram que ir para uma escola judaica separada.

Quadrinho da novela gráfica ‘O Diário de Anne Frank’, de Ari Folman e David Polonsky

Na primavera de 1942, o pai de Anne tinha começado a instalar um esconderijo no anexo secreto da sua empresa, no nº 263 de Prinsengracht. Ele é ajudado pelos seus antigos colegas. Passado pouco tempo, mais quatro pessoas juntam-se a eles no Anexo Secreto. O espaço é muito apertado; Anne tinha de permanecer muito silenciosa e estava frequentemente com medo.

Pelo seu décimo terceiro aniversário, pouco antes de passar a viver no esconderijo, Anne recebe um diário de presente. Durante os dois anos em que permanece escondida, Anne escreve sobre o que se vai passando no Anexo Secreto, mas também sobre o que sente e pensa. Além disso, escreve histórias curtas, começa um romance e anota passagens de livros que lia no seu Livro de Belas Frases.

Escrever ajudou-a a aguentar os dias. Seus relatos são reconhecidos mundialmente como um importante relato de resistência e sobrevivência judia nos tempos do nazismo.

Leia também:

Graphic Novel O diário de Anne Frank em quadrinhos, de Ari Folman e David Polonsky (CLIQUE AQUI)

Livro O diário de Anne Frank (edição capa dura) (CLIQUE AQUI)