O MARTELO DAS HERESIAS: Santo Antônio e a defesa da Bahia

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Joyce Oliveira Pereira
Mestre em História - UEMA

Como citar este artigo:
PEREIRA, Joyce Oliveira. O martelo das heresias: Santo Antônio e a defesa da Bahia (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 14 de Junho de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/06/14/o-martelo-das-heresias1-santo-antonio-e-a-defesa-da-bahia/. ISSN: 2317-9929.

Os neerlandeses[2], mais conhecidos como holandeses, tiveram uma presença forte no ‘Brasil’ durante o século XVII. Interessados no comércio do açúcar fundaram da Companhia das Índias Ocidentais (WIC[3]) para invadir possessões portuguesas em ultramar, no caso abordado nesse texto, o que conhecemos hoje como o Nordeste. Uma das cidades mais visadas foi Salvador, nesse contexto capital do Brasil, por ser um ponto estratégico nas relações entre Oriente e Ocidente e possuir um status de metrópole no mundo comercial.

Ocorrem duas tentativas de tomada da cidade, uma em 1623 em que foi montada uma expedição composta de 26 navios, 3.300 homens e 450 bocas-de-fogo sob o comando de Jacob Willekens (1571-1633), tendo como vice-almirante Piet Pieterszoon Heyn (1557-1629) e Johan van Dorth (1586-1624) ficou encarregado das tropas terrestres quando conseguissem adentrar em Salvador. Esse grupo não logrou êxito no seu objetivo devido à resistência dos iberos-portugueses, de conflitos internos entre as tropas da WIC, por isso em 30 de abril de 1625 eles entregaram a cidade de Salvador.

Após a ocupação de Recife e da capitania de Pernambuco em 1630,  a organização da Nova Holanda sob o governo de Maurício de Nassau (1604-1679) a WIC deliberou que para possuir a segurança de posse desse território era necessário garantir o controle da sede administrativa da colônia: Salvador. Devido a isso, em 1638 Nassau reuniu uma frota de 36 navios e 3.600 europeus e índios no Recife e zarpou em 8 de abril de 1638. Chegaram à Bahia no dia 16 de abril devido àscorrentezas favoráveis e aportaram sem nenhuma resistência ibero-portuguesa no porto de São Brás.[4]

Entretanto, esse conflito foi além da questão econômica, pois, os ‘holandeses’ eram protestantes, em sua maioria calvinistas, o que levou esse ataque e essa defesa para o campo da fé. Não custa lembra que no século XVII ocorreu a Contrarreforma Católica e muitas guerras de religião, assim, os neerlandeses foram vistos como um dos Cavaleiros do Apocalipse, em que o vermelho dos seus cabelos foi associado ao fogo do inferno[5] (PEREIRA, 2012, p. 73).

Dessa forma, além das batalhas corpo a corpo existiu um conjunto de práticas religiosas que objetivavam resguardar a fé dos ibero-portugueses e, ao mesmo tempo ‘inflamar’ essa mesma fé na defesa de Salvador. Padre Antônio Vieira (1608-1697), através do Sermão de Santo Antônio proferido em 1638, acionou Santo Antônio, o martelo das heresias, pois, no século XVII ele estava associado ao militarismo.

Santo Antônio com insígnias dos capitães de infantaria (Fonte: salvador.blog.arautos.org)

Santo Antônio (1191-1195?), chamado também de Santo Antônio de Pádua, foi contemporâneo das Cruzadas e da instalação do Tribunal da Santa Inquisição. Compreendia-se que este santo defendeu o combate do inimigo maligno, que o seu tempo era visualizado nos hereges e nos infiéis.[6]

Encontramos nos escritos de Antônio Vieira, especificamente na Carta Ânua (1626) e no Sermão de Santo Antônio (1638), várias menções sobre Santo Antônio. Na Carta Ânua, ele está associado ao momento certo para atacar os neerlandeses. Segundo Antônio Vieira, “E parece que se punha o céu parte, porque no mesmo tempo viu Sua Senhoria no ar uma bandeira de Cristo crucificado de uma parte, e da outra Santo Antônio, cuja festa naquele dia celebrava a igreja”.[7]

Para o jesuíta, no Sermão de Santo Antônio, o santo foi um dos principais defensores da Bahia de Todos os Santos porque era um santo só, possuía todas as jerarquias[8] em si mesmo. Todos os santos investiram as suas jerarquias em Santo Antônio para que este pudesse fazer a defesa da Bahia de Todos os Santos:

Todos os santos do céu se dividem em seis jerarquias: patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, confessores, virgens, e em tôdas estas jerarquias tem eminente lugar Santo António. Primeiramente é patriarca, sendo filho de S. Francisco, porque muitos dos filhos do mesmo santo tomaram ele por pai, e se chamam religiosos de Santo António, quais são os de toda esta província. Assim se chamaram filhos de Israel os descendentes de Abraão, tomando o nome e reconhecendo por seu imediato patriarca a Jacó, não só filho, mas neto do primeiro e universal Pai de todos. Foi Santo António profeta, como consta de tantas coisas futuras, que anteviu e predisse, não só pertencentes a essa vida, senão também à eterna, revelando-lhe Deus até os segredos ocultíssimos da predestinação das almas. Nem se confirma pouco a verdade dêste espírito profético com a necessária suposição de que Deus o haver arrancado da terra onde nascera, porque nemo propheta in patria sua. Foi apóstolo de duas províncias tão dilatadas, como Itália e França, não só pregando nelas depois de cristãs a fé do Evangelho, e confirmando-a com infinitos e portentosos milagres; mas confutando e convencendo os erros, alumiando a cegueira e quebrantando o orgulho, a dureza e contumácia dos herejes, por onde foi chamado martelo das heresias: Perpetus haereticorum malleus. Foi mártir, porque foi buscar o martírio na áfrica, e posto que não derramou o sangue, tão mártir foi como se o derramara, porque se Deus disse a Abraão que não perdoara a vida de seu filho pela vontade e deliberação que tivera de o sacrificar: Non pepercisti unigênito filio tuo propter me, não menos suspendeu Deus o braço  e espada de Abraão, para que não executasse o golpe, do que teve mão nos alfanges e cimitarras dos turcos, para que na garganta e peito aberto de António não empregassem a sua fúria. Que fôsse confessor, não há mister prova. Mas a de ser perpètuamente virgem, é tão milagrosamente e sem igual, que sendo necessárias a S. Bento os espinhos, e a S. Francisco os lagos enregelados para se livrarem das tentações próprias, a túnica que vestia António, só por tocar ou ser tocada na carne virginal aquele corpo angélico, bastava para que dela fugisse tôdas as tentações contrárias à pureza, e aos pecadores, mais forte, e obstinadamente tentados, não só apagasse o fogo infernal, mas gerasse perpétua castidade. E como Santo António em todas a jerarquias dos Santos, com os patriarcas é patriarca, com os profetas profeta, com os apóstolos apóstolo, com os mártires mártir, com os confessores confessor, e com virgens virgem; pertecendo a todos os Santos a defesa da Baía de Todos os Santos, e tendo Deus prometido que a glória desta vitoriosa protecção não a havia de repartir com todos os seus servos, nem com muitos, senão um só: Propter me et propter Davi, servum meu; êste um, não podia ser outro, senão Santo António, aquele Santo universal, que sendo um só na pessoa, nos graus e jerarquias da santidade era todos os Santos.[9]

No Sermão de Santo Antônio, pronunciado em 1638, encontramos várias analogias feitas por Antônio Vieira para explicar o fracasso neerlandês: o sítio de 1638 é equivalente ao Dilúvio; os escolhidos de Deus estavam rodeados pelos ímpios que sofriam o castigo celeste, mas estavam protegidos. O jesuíta afirma que, quando os assírios ameaçaram invadir Jerusalém, o Salvador não permitiu, protegendo-a e salvando-a. Da mesma forma, o Salvador protegeu a cidade de Salvador porque esta era Sua. A alegoria do local onde está erguida a Igreja de Santo Antônio da Barra com o Monte Sião demonstra a força da fé católica que foi assegurada na figura de Santo Antônio, que se transformou em David ou vice-versa.[10] Essa associação reforça a figura militar que Santo Antônio tinha no século XVII, já que David foi o rei guerreiro dos hebreus. O Monte Sião, que era o mais forte de todos em Jerusalém, se tornou a Cidade de David, assim, o Morro de Santo Antônio se tornou a casa deste Santo e da mesma forma que Deus protegeu David seu servo, também protegeu Santo Antônio.

Utilizando a Bíblia,no mesmo sermão, Antônio Vieira refere-se aos combates noturnos entre a Arca do Testamento e Dagon, deus dos filisteus, para reforçar a sobreposição da Aliança entre Deus e os homens à frente do culto de ídolos pagãos. No primeiro dia, Dagon foi derrubado e ao amanhecer foi restituído pelos seus. Na segunda noite, a Arca cortou a cabeça e as mãos do ídolo e os jogou à frente do templo.

Assim como em 1624, quando os neerlandeses atacaram e invadiram a cidade de Salvador, os neerlandeses foram expulsos e mesmo assim retornaram, novamente foram combatidos e pelo medo fugiram, deixando todos os seus paramentos de guerra e acampamento montado. Para o jesuíta, avitória conseguida não foi feita pelas mãos dos homens, mas pelas mãos do Salvador: “Ao Salvador pertencia salvar a sua cidade. É verdade que nós fomos salvos nela, pelo que devemos infinitas graças ao mesmo Salvador; mas êle, como dizia não salvou a nós tanto por amor de nós, quanto por amor de si”.[11]

A fuga dos neerlandeses, mediante a impossibilidade de tomar a cidade de Salvador em 1638, deixando tudo mais que tinha montado, foi,segundo Antônio Vieira, no Sermão de Santo Antônio, o castigo celeste para que, mediante seus inimigos, fossem afrontados:

Porque o morrer em guerra sempre é honra; mas o fugir é sempre afronta. Pois para que o soberbo infiel leve da cidade de Deus o merecido castigo de seu atrevimento, escape com vida, mas fugindo. Por isso não quis Deus que acometêssemos o inimigo nos seus quartéis, como tanto desejavam os soldados, nem que acabássemos de o sitiar a neles, como tinham determinados os generais; mas que vencido do temor e convencido da própria desesperação, sem nova violência fugisse, e com uma fugida tão precipitada e torpe, deixando artelharia, munições, armas, bastimentos e até o pão cozendo nos fornos, e nos ranchos a comida dos soldados ao fogo, para que os negros da Baía tivessem com que banquetear a vitória.[12]

Na compreensão de Antônio Vieira, Deus protegeu a cidade, fechou as portas, mesmo estando abertas, pois são as palavras do Criador que formam as portas onde não se podem vê-las. A artilharia inimiga não afetou a ninguém, porque Deus foi o escudo que fazia as balas inimigas subirem e caírem como chuva.[13] Proveu a todos de alimentos, não faltando a ninguém carnes e hortaliças.[14]

Para o jesuíta, as vitórias e a paz colhidas nesses novos tempos vinham nos braços de Santo Antônio onde estava Jesus Cristo, o Senhor dos Exércitos, e foi reconhecida por todos que lhe lançaram coroas para que sempre fossem eternas.[15] A retórica empregada pelo jesuíta aponta para os conflitos do século XVII que envolviam a acumulação primitiva de capital através do domínio colonial, além de lidar com a diferença (alteridade) dentro do seu próprio território: o ‘outro’ não é um ameríndio, mas um europeu que possui outra forma de conceber o que era sagrado.

Insígnias militares de Santo Antônio

Leia também

Livro Arrancados da terra: Perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica, refugiaram-se na Holanda, ocuparam o Brasil e fizeram Nova York, de Lira Neto (CLIQUE AQUI)

Livro Viagem ao Brasil: 1644-1654, de  Peter Hansen, Lucia Furquim Werneck Xavier e Bruno Romero Ferreira Miranda (CLIQUE AQUI)

Livro História da Bahia – 12ª edição, de Luís Henrique Dias Tavares (CLIQUE AQUI)

Notas


[1] Heresia é uma doutrina, prática religiosa considerado falso pela Igreja Católica, um desvio do Cristianismo.

[2] Refere-se aos habitantes dos Países Baixos, mas na historiografia são mais conhecidos como ‘holandeses’ quando se refere ao século XVII.

[3] West Indische Compangnie, abreviatura WIC.

[4]  LOPEZ, Adriana. Guerra, açúcar e religião no Brasil dos Holandeses. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2002, p. 189.

[5] PEREIRA, Joyce Oliveira. Em nome do Deus dos Exércitos: a teologia política de Antônio Vieira no contexto das invasões neerlandesas na Bahia (1624-1641). Monografia (Graduação em História Licenciatura). Universidade Federal do Maranhão, São Luís (MA), 2012, p. 73.

[6]  MOTT, Luiz. Santo Antônio, o divino capitão-do-mato. In: REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 110-138.

[7] VIEIRA, Carta Ânua. In: PÉCORA, Alcir.  Escritos históricos e políticos. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 165.

[8] Refere-se à hierarquia eclesiástica.

[9] VIEIRA, Sermão de Santo Antônio. In: CIDADE, Hernani. Padre Antônio Vieira. Vol. II. Portugal: Agência Geral das Colônias, 1940, pp. 11-12.

[10] Cf. ibid., p. 10.

[11] VIEIRA, Sermão de Santo Antônio. In: CIDADE, op. cit., p. 9.

[12] Cf. ibid., p. 33.

[13] Cf. ibid.,pp. 17-18.

[14] Cf. ibid., p. 20.

[15] Cf. ibid., pp. 35-37.