Fake News ou desinformação? O buraco é mais embaixo

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Teresa Leonel
Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas (UFPB)
Professora no curso de Jornalismo em Multimeios (UNEB/Juazeiro-BA)

Quando Orson Welles[1], no dia 30 de outubro de 1938, transmitiu na emissora Columbia Broadcasting System (CBS), nos Estados Unidos[2], a invasão de marcianos à Terra, por ser uma locução tão convincente, possivelmente, se fosse nos dias atuais, muitos taxariam a narrativa de uma fake news.

A história relata que na época, tão logo se iniciou a transmissão, o locutor informou que se tratava de uma peça de ficção. Mas, as pessoas que ligaram o rádio depois desse aviso, tomaram aquela narrativa como verdadeira. O impacto foi tão grande que os ouvintes entraram em pânico e espalharam a informação quase na mesma velocidade dos voos de marimbondos. Esses insetos sociais que costumam atacar em bando quando se sentem ameaçados.

Uma boa parte da população que acreditou na história “escatológica” partiu para defesa: famílias saíram de casa com os filhos, outros deixaram o carro no meio da rua e correram, alguns enfartaram e tantas outras coisas a mais que o caos de uma informação não verdadeira pode provocar. O programa de Welles se tornou um case da mídia radiofônica do século XX.  

Qualquer semelhança desse fato verídico com a construção textual dos conteúdos que circulam em mídias sociais, tipo whatsapp, por exemplo, não é mera coincidência. Até porque se em 1938 as pessoas acreditavam que os marcianos, extraterrestres poderiam invadir a Terra, em 2020 alguns “filósofos” e, outros tantos seguidores desses tais estudiosos, afirmaram (e ainda afirmam), “piamente”, que a Terra é plana. Então…

Para boa parte da população que chama de fake news toda e qualquer notícia falsa é preciso contextualizar alguns pontos. No campo do jornalismo uma notícia não pode (ou pelo menos não deveria) ser falsa porque é preciso considerar a produção, apuração e checagem dos fatos, o tratamento do texto e o compromisso que o jornalismo tem com a verdade.

No campo do mundo, a notícia é o que está sendo posta, tanto pelos jornalistas (que têm obrigação de seguir os critérios de noticiabilidade tão difundidos na academia), quanto pelos produtores de conteúdos (qualquer pessoa que se propõe a escrever e compartilhar informação).

No entanto, precisamos tirar da cartola a pecha de que toda e qualquer informação falsa é fake News. Em 2017, quando o Dicionário Collins[3] elegeu fake news como palavra do ano, o tema desinformação também ganhou ares de “princesa” na esfera pública. Com a Covid-19, em 2020, entra no ringue do desserviço a “infodemia”, um excesso de informações, algumas precisas e outras não, que tornam difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa[4].  Diante desse cenário, às vezes, é complicado justificar o que levam muitas pessoas a compartilhar uma informação duvidosa, sensacionalista, disfarçada de notícia ‘quente’ e relevante.

Para os pesquisadores Pollyana Ferrari (2018)[5], Claire Wardle e Hossein Derakhshan (2017)[6], as notícias falsas são, na verdade, uma variedade de desinformações que podem alterar entre o emprego correto de dados manipulados, o uso errado de dados verdadeiros, a incorreta utilização de dados falsos e outras combinações possíveis. Podemos dizer, então, que nem toda desinformação é fake News, mas toda fake news é uma desinformação.

Vamos explicar: a fake news é muito mais um termo voltado para o campo político uma vez que a notícia que sai de um político X ou Y, por exemplo, se não for do agrado de cada um deles, fica fácil jogar pra plateia: “isso é fake news”. A desinformação pode ser uma informação verdadeira, mas descontextualizada do momento em que o fato ocorreu ou um jogo de palavras e dados manipulados que vão confundir o leitor/ouvinte/internauta.

Um exemplo é o vídeo do médico Dráuzio Varella veiculado em janeiro/2020 e compartilhado nas mídias sociais em março do mesmo ano[7]. Em janeiro, o médico tinha dito que as pessoas não precisavam ter medo do Coronavírus e podiam agir de forma natural. Em menos de dois meses a situação mudou radicalmente. A Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou em março/2020 que a Covid-19 era uma pandemia (a disseminação mundial de uma doença) e todos os protocolos em termos infectológicos tiveram que ser alterados.

O compartilhamento do vídeo, depois da comunicação da OMS, causou muita desinformação sobre a crise do Coronavírus porque as informações estavam desatualizadas e criou confusão ao misturar recomendações verdadeiras para ocasião com as novas medidas necessárias para o enfretamento à pandemia. Ainda sobre o jogo da desinformação, muitos sites também amplificam o conteúdo e usam títulos falsos para desorientar o leitor/internauta.

Não é um privilegio da sociedade contemporânea o uso da desinformação para desestabilizar governos, sociedades e implantar sistemas de controle. No século XVIII, às vésperas da Revolução Francesa, circulavam rumores maldosos, muitos deles na forma de canções e poemas não mais extensos do que os tuítes de hoje em dia, que levaram à queda do ministério do Conde de Maurepas, secretário de estado, do rei Luís XVI. “A queda do ministério de Maurepas, em 1749, alterou significativamente o panorama político francês, sendo considerada uma das causas da Revolução Francesa de 1789”[8].

Já no século XX, com o a expansão do nazismo, “em 1933, Joseph Goebbels cria o ministério do Esclarecimento Público e da Propaganda para disseminar mensagens incitadoras de ódio contra judeus, usando vários meios, inclusive o teatro e a imprensa”[9].

É grave ou não o estrago que uma desinformação pode causar? Mas, não podemos jogar no colo do jornalismo toda e qualquer informação plantada, criada, produzida e robotizada pelo exército dos autores anônimos ou os que fazem uso de pseudônimos. O buraco é mais embaixo.

É preciso “aliar tecnologia, algoritmos e sociedade da informação” (FERRARI, 2018) com a prática da vigilância, desconfiança. Não aceitar e compartilhar qualquer que seja o conteúdo e de onde ele vier, sem antes checar (seguem abaixo os links de algumas agencias que prestam esse serviço) se aquele material que chegou tão bem feitinho na sua rede de amigos, sobretudo nos grupos de whatsapp, são ou não verídicos.

O acesso das pessoas às mídias sociais como Whatsapp/Telegram, Instagram, Facebook, Twitter e tantas outras é muito bom, mas os cuidados com o conteúdo recebido/compartilhado são extremamente necessários para não se permitir que essas redes fragilizem a produção do jornalismo responsável, a qualidade das informações bem apuradas e balizadas e colaborem para desestabilizar a nossa democracia.

Afinal, esse sistema foi conquistado à duras penas por pessoas que sonharam (e ainda sonham) com uma sociedade menos desigual. Você também é um ator dessa vigilância.

Agencias de checagem

Lupa – A primeira agência de fact-checking do BR: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/

Aos Fatos: https://www.aosfatos.org/

Confere Aí: https://confereai.ne10.uol.com.br/#/consultar

G1 Fato ou Fake: https://g1.globo.com/fato-ou-fake/

Como citar este artigo:
LEONEL, Teresa. Fake News ou desinformação? O buraco é mais embaixo (Coluna). IN: O Historiante. Publicado em 21 de Junho de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/06/21/fake-news-ou-desinformacao-o-buraco-e-mais-embaixo/. ISSN: 2317-9929.

Sobre a colunista

Teresa Leonel é doutoranda em Comunicação no PPGCOM da UFPE. Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas pela UFPB. Jornalista e cientista social. Professora no curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro. Autora do livro Blog do Noblat: estilo e autoria em jornalismo (Appris: 2015). Área de pesquisa: jornalismo, mídias sociais, narrativas noticiosas em WhatsApp, Teoria Ator-Rede.


Notas

[1] Orson Welles (1915-1985) foi diretor, produtor, roteirista e ator de cinema norte-americano. Teve seu nome reconhecido na direção, atuação e roteiro do clássico do cinema “Cidadão Kane”.

[2] A obra A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, foi narrada por Orson Welles e pela companhia teatral Mercury Theatre on the Air em 1938.

[3] https://www.collinsdictionary.com/

[4] ZAROCOSTAS, J. (2020). How to fight an infodemic. The Lancet, 395(10225), 676.

[5] FERRARI, Pollyana. Como sair das bolhas. São Paulo: EDUC-Editora da PUC, 2018.

[6] https://www.manualdacredibilidade.com.br/desinformacao

[7] https://www.aosfatos.org/noticias/bolsonaristas-resgatam-video-antigo-de-drauzio-varella-para-difundir-desinformacao-sobre-covid-19/

[8] A desinformação na história. Disponível em: https://www.manualdacredibilidade.com.br/historia

[9] Ibidem