Os Fulas: nômades e pastores de África Ocidental

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Vamos conhecer um pouco do grupo social ao qual pertence o provérbio “Até que os leões contem suas próprias histórias, os caçadores sempre serão os heróis das narrativas”.

Joyce Oliveira Pereira
Mestre em História - UEMA

Como citar este artigo:
PEREIRA, Joyce Oliveira. Os fulas: nômades e pastores de África Ocidental (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 21 de Junho de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/06/21/os-fulas-nomades-e-pastores-de-africa-ocidental/. ISSN: 2317-9929.

O conhecimento sobre a África que temos no Ocidente é mediado pelo eurocentrismo e pelo colonialismo, assim, as diferentes formas que os povos não-europeus possuíam de preservar sua história foram classificados como ‘mitos’, ou sentenças que não possuem um contexto sócio histórico. Entretanto, nas sociedades africanas a oralidade era a maneira mais comum de resguardar a memória dos grupos e garantir a sua transmissão entre as gerações, dessa forma, os provérbios e os contos são indícios de sistemas de pensamento racional muito elaborado que surgiu através da apreensão do mundo material e a reflexão para o mundo das ideias.

Com a colonização e o imperialismo muitas dessas elocuções verbais foram traduzidas de suas línguas originais e transcritas para a língua dos colonizadores. Nesse movimento a autoria dos grupos foi sendo ‘apagada’ e, por isso nos chegam muitas vezes como imemoriais, mas em um exercício apurado de pesquisa através dos indícios presentes nesses textos, é possível encontrar a autoria coletiva.

 Esse é um dos grandes desafios do ensino de história da África: complexificar o olhar e deixar de ver uma unidade onde existe uma imensa pluralidade dos sujeitos na maneira de existir, narrar e resguardar suas histórias. Dessa forma, vamos conhecer um pouco do grupo social ao qual pertence o provérbio “Até que os leões contem suas próprias histórias, os caçadores sempre serão os heróis das narrativas”.

Nômades e pastores

A denominação de fulas[1] refere-se ao conjunto de povos que habitam vários países do oeste africano e geralmente são caracterizados pelos viajantes por sua pele mais clara em relação aos outros povos africanos. Segundo SILVA (2011, p. 50) teriam vindo do Saara, pois seus penteados de crista são semelhantes aos encontrados em pinturas rupestres existentes no deserto: 

Geralmente, os fulas […] são de cor castanho-amarelada, com feições delicadas e cabelos suaves e sedosos. Depois dos mandingas, são, sem dúvida, a mais importante das nações desta parte da África. Diz-se que seu país de origem é Fuladu, que significa “a terra dos fulas”, mas atualmente eles são senhores de muitos outros reinos, A grande distância uns dos outros. A aparência deles não é, aliás, a mesma em diferentes regiões: em Bondu e outros reinos que estão situados na vizinhança dos territórios mouros, são mais amarelos do que nos estados mais ao sul.

(SILVA, 2011, p. 188)

Ao longo dos séculos eles estiveram sob o julgo de diferentes estados maiores: entre os séculos XIV e XV estavam sob domínio do Império Mali[2], no XV era o Império Songhai[3], no XVI dos pachás[4] marroquinos de Tombuctu[5] e no século XVII eram os bambaras[6] de Segu[7].

Eles se destacavam no contexto de África Ocidental pelo seu comportamento nômade e domínio da técnica do pastoreio em que ocuparam uma grande região do Macina[8] (SILVA, 2015. p. 15), mas é importante frisar que eles não se constituíam em grupo homogêneo, havendo vários etnômios advindos de condições subjetivas de cada grupo: “ fulas-djiábê (ou fulas-djin ou fulas-pretos), fulas-ribê (ou fulas-foro, ou fula di baca, ou fula di Gabu), futa-fulas (ou fulas do Futa Jalon)” (ABRANTES, 2018, p. 33).

Devido a sua condição histórica de submissão ao longo dos séculos XVIII e XIX, estiveram presentes em revoluções islâmicas na região do Futa Toro[9] e do Futa Djalon[10] que foram essenciais na configuração da região oeste da África:

No Futa Jalon, as montanhas onde nascem os rios, pastores fulas e muçulmanos iniciam pequenas jiades contra seus vizinhos mandingas a partir de 1700. Nas décadas seguintes a população fula aumenta com gente vinda do norte, das teocracias do Bundu e do Futa Toro. Em 1750 os fulas muçulmanos triunfam e por volta de 1850 os fulas que viviam no Kaabu e pagavam tributo aos mandingas organizam-se e revoltam-se contra seus senhores. Aliados aos fulas do Futa Jalon derrotam os mandingas do Kaabu numa famosa batalha que se deu em Cansala, a capital do império, por volta de 1865. O interior torna-se progressivamente muçulmano.

(ABRANTES, 2018, p. 11)

Essa mudança foi importante na perspectiva do comércio internacional pelas migrações e na miscigenação dos grupos entre o norte e o Sul do Deserto do Saara, mas, isso não manteve uma sensação de estabilidade na região devido a recorrência de ondas violentas:

Esta região deve a sua importância histórica, a sua prosperidade e a sua estabilidade para a manutenção de um frágil equilíbrio entre o habitat, o homem e o animal; entre os agricultores sedentários e os pastores nômades; entre os habitantes das cidades e as populações rurais; entre os homens livres e aqueles de condição servil; igualmente, entre os muçulmanos e as populações ainda fiéis às suas crenças tradicionais.

(BATRAN, 2010, p. 619)

Essa orientação islâmica estava presente na sociedade ditando regras em relação educação e o comportamento, reforçando uma austeridade em relação a presença de viajantes, mas que não interferiu nas crenças anteriores ao islã, sendo mais comum entre os estratos sociais mais altos:

Os fulas de Bondu são por natureza suaves e gentis, mas as inclementes disposições do Alcorão os tornaram menos hospitaleiros e mais reservados no comportamento do que os mandingas. Consideram claramente todos os nativos negros como seus inferiores e, quando se referem a diferentes nações, sempre se incluem entre os brancos. A sua maneira de governar difere da dos mandingas principalmente porque são mais constrangidos pela influência das leis muçulmanas, pois todos os chefes (excetuado o rei) e a grande maioria dos habitantes de Bondu são islamitas e têm a autoridade e as leis do Profeta como sagradas e definitivas. No exercício da fé, no entanto, não são muito intolerantes em relação aos seus conterrâneos que conservam as antigas superstições.

(SILVA, 2013, p. 188)

A atividade de pastoril de bovinos caracteriza os fulas ao longo de sua trajetória histórica e isso era/é reconhecido pelos viajantes como por outros grupos africanos. Eles estabeleciam uma forma de associação sazonal, a exemplo que ocorria no Norte da atual Nigéria em que esses levavam os rebanhos para se alimentar do que sobrava das colheitas feitas pelos haúças, bem como alguns agricultores senufos de posses que possuíam pequenos rebanhos delegavam aqueles as suas criações (SILVA, 2011, p. 50):

O modo como os fulas exercem o pastoreio e a agricultura é por toda a parte notável. Até mesmo nos bancos do Gâmbia, a maioria dos cereais é cultivada por eles, e seus rebanhos são mais numerosos e melhores do que os dos mandingas. Em Bondu, os fulas são muito ricos e desfrutam amplamente de tudo o que lhes pode dar a vida. Extremamente hábeis no manejo dos bois, fazem com carinho e familiaridade com que sejam muito mansos. Ao aproximar-se a noite, eles os recolhem do mato e os abrigam em cercados, chamados korrees, que são construídos na vizinhança das aldeias. No meio de cada korree erguem uma cabana, na qual um ou dois pastores vigiam o gado durante a noite, a fim de evitar que seja roubado, e mantêm acesas as fogueiras dispostas ao redor do curral para afugentar os animais selvagens.

(SILVA, 2011, p. 189)

O consumo de leite era cotidiano entre eles, além de produzirem outros derivados como a manteiga que era utilizada em diversos fins, fossem alimentícios ou estéticos, o que aponta para o grau de conhecimento obtido através das gerações desse tipo de criação animal e também o desempenho de técnicas para melhor tirar proveito do que o gado pudesse oferecer:

Os fulas usam o leite principalmente como bebida, quando já está azedo. Obtêm dele um creme muito espesso e o convertem em manteiga, batendo-o violentamente numa grande cabaça. A manteiga, ao ser derretida em fogo brando liberta as impurezas, é guardada em pequenos potes de argila, e entra na maioria de suas comidas. Serve também para untar os cabelos e é aplicada largamente nos rostos e braços.

(SILVA, 2012, p. 189)

A criação de gado era considerada como a maior riqueza que eles possuíam já que sua rotina era baseada no trato diurno do rebanho que se configurou em parte da vida material, simbólica e afetiva dos fulas. Essa afinidade também se manifestava durante a perca de algum membro do rebanho: “A relação entre pastor e boi é de estreita intimidade. Não só na África Índica, mas também entre povos pastores de outras regiões. Como os fulas, que raspam a cabeça, choram e se desesperam quando uma rês morre (SILVA, 2011, p. 51).

É importante destacar que isso pode fazer menção a origem saariana dos fulas já que entre os cuxitas[11] e os nilóticos[12] da região da África Índica havia o culto ao gado (SILVA, 2011, p. 51). Estes realizam o Festival do Mondé (sal, em fula): durantes três vezes na época de chuva em que eles reúnem o gado que estava disperso pelas matas para pastar nos campos expressando seu orgulho em serem pastores:

Tudo começa na tarde anterior a festa propriamente dita. É todo um ambiente que se cria a volta do mondé e do gado da família. A tarde, os homens carregam três grandes cabaças e vão ao mato extrair a casca de uma árvore a que os Fulas chamam lalloi, cujo aroma é muito apreciado pelas vacas. O regresso a casa acontece depois do pôr do sol. É o momento das mulheres se juntarem a volta de três pilões para moerem o conteúdo das cabaças e assim facilitar a sua ingestão pelas vacas. O som dos pilões é acompanhado alternadamente de cânticos em coro e palmas que inevitavelmente convidam à dança. As letras exprimem alegria e orgulho:

“Mondeya ehehehDjango ko mondeya/Alah ya faróóó!!!”

(Amanhã é dia de mondé/ Não vamos à bolanha / Porque temos a festa de mondé).

São cânticos próprios do evento, que raras vezes se ouvem fora daquele ambiente, elogiando as vacas pelo seu leite, os seus donos e aqueles que cuidam do gado.

(BALDÉ, 2016)

Os fulas são habitantes de boa parte do território da África Ocidental e, isso pode ter sido um dos fatores que levaram à difusão de parte de seu repertório de conhecimento através da oralidade, por isso ao trabalharmos questões em torno da história da África é preciso de antemão estar atento aos fluxos migratórios na formação da identidades e das práticas sociais, pois a fluidez faz parte do ‘ser’ africano. Portanto, o ensino com base na lei 10.638/03 deve ter como base o conhecimento produzido por africanos e africanistas (pesquisadores da área que não são africanos), pois essa produção está calcada nas epistemologias decoloniais e na literatura especializada do campo, de forma a não reproduzir estereótipos colonialistas, assim, a partir de provérbios e contos é possível conhecer outras falas e visões de mundo que contribuem para a afirmação da democracia no Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

ABRANTES, Manuel Portugal Almeida de Bívar.  Kaabu, história de um império do início ao fim.  Tese (Doutorado em História Social). Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2018.

BALDÉ, Bita. Mondé: uma homenagem fula ao gado. Disponível em: http://vozdaguine.com/monde-homenagem-fula-ao-gado/. Acesso em 19/03/2020 às 17:54

BATRAN, Aziz. As revoluções islâmicas do século XIX na África do Oeste. In: AJAI, J. F. Ade.(Org.). História Geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. 2ª edição. rev. Brasília: UNESCO, 2010. (Coleção História Geral da África, vol. VII).   619-640

PEREIRA, Joyce Oliveira: Quando Leões contam histórias: contos como recuso didático para o ensino de história e cultura africana. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual do Maranhão, São Luís (MA), 2020.

SILVA, Alberto da Costa. A enxada e a lança: A África antes dos portugueses. 5ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

_. Imagens da África: da Antiguidade ao Século XIX. São Paulo:  Companhia das Letras, 2012.

Notas


[1] Também conhecidos como fulânis, peúles, peul (em francês), fulbes (em fula), hall-pular.

[2] Seu domínio foi na região do Manden entre os séculos XIII e XVII nas regiões onde hoje é o Mali, Serra Leoa, Gâmbia, Senegal, Guiné e Sul do Saara Ocidental.

[3] Sua hegemonia política precedeu o Império do Mali entre os séculos XV e XVI na região onde hoje é a região do Mali tendo sua expansão territorial para o oeste nos atuais Nigéria e Níger e a oeste para o Oceano Atlântico. Pode encontrar sua grafia como Império Songhay.

[4] O norte da África foi um dos alvos do processo de expansão do Império Turco Otomano entre os séculos XVI e XVII através dos do Sultanato de Marrocos. Título de pachá é equivalente a governador.

[5] Cidade fundada no século XII, capital do Império do Mali. Servia de ponto estratégico no comércio de sal, ouro e escravos que vinham das caravanas do deserto do Saar ou do Rio Níger.

[6] Também conhecidos como bamana, bamanake, bamanankan, bamani

[7]  É a capital da região administrativa de mesmo nome, sendo a terceira maior cidade do Mali.

[8] Também conhecida como Masina ou Massina é a região de curso intermediária do Rio Níger no Mali entre Segu e Tombuctu.

[9] É uma região semideserta entre as fronteiras do Senegal e da Mauritânia ao redor da faixa intermediária do Rio Senegal.

[10] Região montanhosa localizada no Centro da Guiné.

[11] Referência aos habitantes do Reino de Kush/Cuxe que ficava localizado na Núbia.

[12] Faz alusão aos grupos sociais habitantes da região do sul do vale do Rio Nilo que falam línguas nilóticas.