Galileu Galilei e seu processo na Inquisição

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A vida e a obra de Galileu constituem elementos de importância central para a compreensão da revolução científica que mudou o pensamento ocidental no período pós-Reforma.

Da redação

A recente CPI que trata sobre a gestão da pandemia de Covid-19 no Brasil, vez ou outra, proporciona algumas referências históricas importantes, mas pouco conhecidas pelo público em geral.

No dia 25 de maio, o Tribunal de Nuremberg foi citado pelo relator, senador Renan Calheiros, como referência para eventos históricos em que agentes de um mal terrível receberam sentenças por seus crimes e pela cumplicidade com atrocidades cometidas por um governo ou partido.

Hoje, 22 de junho, novamente Calheiros usa o caso de Galileu Galilei como exemplo de um mártir da ciência que, um dia, ousou desafiar o obscurantismo em nome dos avanços em torno do heliocentrismo, teoria que comprovou que o sol é o centro do universo, contra o geocentrismo aristotélico.

Mas, quem foi Galileu e qual a história do seu processo?

A vida de Galileu

Galileu utilizando seu telescópio (Imagem ilustrativa / Getty Images)

Em 8 de janeiro de 1642, morreu o polímata Galileu Galilei, aos 78 anos. Seus estudos e contribuições ajudaram a influenciar e aprimorar a Matemática, a Física e Astronomia, entre outras áreas. Considerado revolucionário à época, chegou a ser perseguido e julgado pela Igreja Católica, que considerava suas teorias controversas e polêmicas.

Galileu começou suas observações telescópicas na parte final de 1609, e por março de 1610 escreveu um pequeno livro, Mensageiro Sideral (Sidereus Nuncius), descrevendo algumas de suas descobertas: montanhas na Lua, algumas luas na órbita de Júpiter, e a resolução do que se pensava que eram massas com muitas nuvens no céu (nebulosas) em coleções de estrelas também difusas para ver individualmente sem um telescópio. Outras observações seguiram, incluindo as fases de Vênus e a existência de manchas solares.

As contribuições de Galileu causaram dificuldades para teólogos e filósofos naturais da época, pois contradiziam ideias científicas e filosóficas baseadas naquelas de Aristóteles e Ptolomeu e intimamente associadas à Igreja Católica. Em particular, as observações de Galileu das fases de Vênus, que a mostravam circundando o sol, e a observação das luas em órbita de Júpiter, contradiziam o modelo geocêntrico de Ptolomeu, apoiado e aceito pela Igreja Católica Romana, e defendiam o modelo copernicano avançado por Galileu.

Astrônomos jesuítas foram primeiramente céticos e hostis às novas ideias. Contudo, em 1611, Galileu visitou o Collegium Romanum em Roma, onde os astrônomos jesuítas por essa época repetirar suas observações, o que despertou simpatia à teoria de Galileu, mas também provocou inimizades com opositores.

Em uma carta a Johannes Kepler de agosto de 1610, Galileu queixou-se de que alguns dos filósofos que se opunham às suas descobertas se recusaram até a olhar através de um telescópio:

Meu prezado Kepler, desejo que possamos rir da estupidez notável do rebanho comum. O que você tem a dizer sobre os principais filósofos desta academia que estão cheios da teimosia de uma víbora e não querem olhar os planetas, a lua ou o telescópio, apesar de eu ter oferecido livre e deliberadamente a oportunidade mil vezes? Verdadeiramente, assim como a víbora fecha seus ouvidos, esses filósofos fecham os olhos à luz da verdade.

O estilo franco e às vezes sarcástico de Galileu, embora não extraordinário nos debates acadêmicos da época, provocou desavenças com opositores em outros assuntos.

Com Christoph Scheiner, um jesuíta, ele travou uma disputa sobre prioridade na descoberta de manchas solares. Galileu também se ocupou de uma disputa sobre os motivos pelos quais os objetos flutuam ou afundam na água, acompanhando Arquimedes contra Aristóteles.

O pintor Lodovico Cigoli, informou-o que um grupo de opositores maliciosos estava planejando causar-lhe problemas sobre o movimento da Terra, ou qualquer outra coisa que sirva o propósito. Um dos conspiradores pediu a um sacerdote que denunciasse os pontos de vista de Galileu do púlpito, mas este recusou.

Mas, três anos depois, isso aconteceu, e um ressentimento de parte dos sacerdotes opositores provocou seu processo na Inquisição.

Tommaso Caccini, um frade dominicano, fez o primeiro ataque contra Galileu. Pregando um sermão em Florença no final de 1614, denunciou o matemático, seus associados e matemáticos em geral (uma categoria que incluía astrônomos). O texto bíblico para o sermão naquele dia foi Josué 10, em que Josué faz o Sol ficar quieto. É dito, embora não seja verificável, que Caccini também usou a passagem de Atos 1:11, “homens da Galiléia, por que vocês estão olhando para o céu?”.

Um ano antes, uma das primeiras sugestões de heresia contra Galileu ocorreu, em 1613. Foi o professor de filosofia, poeta e especialista em literatura grega, Cosimo Boscaglia, quem plantou a semente da discórdia na família patrona de Galileu, os Médici.

Em conversas com Cosme II de Médici e sua mãe Cristina de Lorena, Boscaglia disse que as descobertas telescópicas eram válidas, mas que o movimento da Terra era obviamente contrário às Escrituras. A intenção, claramente, era de compicar Galileu. Seu antigo aluno Benedetto Castelli, então professor de matemática e abade beneditino, foi quem o defendeu na ocasião.

E é aqui que temos um fato fundamental para o julgameno de Galileu: em agradecimento, envia uma carta ao ex-aluno, expondo suas opiniões sobre o que ele considerava a maneira mais adequada de tratar passagens bíblicas que faziam afirmações sobre fenômenos naturais.

A carta foi copiada pelos opositores de Galileu, e serviu de base para a denúncia contra o pesquisador, em 16 de fevereiro de 1615, pelo dominicano Niccolò Lorini ao Secretário da Inquisição, o cardeal Paolo Emilio Sfondrati.

Primeiro julgamento

O cardeal Roberto Belarmino, um dos mais respeitados teólogos católicos da época, foi convocado para julgar a disputa entre Galileu e seus oponentes. Foi este religioso que, anteriormente, aconselharia Galileu a se limitar a tratar o heliocentrismo como um fenômeno meramente hipotético e não fisicamente real. 

Em 5 dias de deliberação, a comissão de teólogos da Inquisição analisou as proposições sobre a carta e as proposições de Galileu.

Em 24 de fevereiro os qualificadores entregaram seu relatório unânime: a proposição de que o Sol está parado no centro do universo é “tola e absurda na filosofia e formalmente herética, pois contradiz explicitamente em muitos lugares o sentido da Sagrada Escritura”; a proposição de que a Terra se move e não está no centro do universo “recebe o mesmo julgamento na filosofia, e … em relação à verdade teológica é pelo menos errônea na fé”.

A ordenação da inquisição foi a seguinte:

Abster-se completamente de ensinar ou defender essa doutrina e opinião ou de discutir … abandonar completamente … a opinião de que o Sol ainda está no centro do mundo e a Terra se move e, doravante, não manter, ensinar ou defendê-lo de qualquer maneira, seja oralmente, seja por escrito.

A injunção da Inquisição contra Galileu, 1616.

Galileu aceitou as ordens entregues.

Mas sua relação com a inquisição não acabaria aqui.

Segundo julgamento

O segundo julgamento de Galileu em quadro de Joseph Nicholas Robert-Fleury

O Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo de Galileu, que foi publicado em 1632 para grande popularidade, é um relato de conversas entre um cientista copernicano, Salviati, um estudioso imparcial e espirituoso chamado Sagredo e um ponderado aristotélico chamado Simplicio, que empregou argumentos conservativos em apoio da geocentridade, e foi retratado no livro como um idiota intelectualmente inepto.

O personagem Simplicio é um ponto importante nesta obra. Alguns pesquisadores levantam a hipótese de ser ele uma sátira de um personagem real.

Embora os autores Langford e Stillman Drake afirmem que Simplicio foi modelado nos filósofos aristotélicos Lodovico delle Colombe e Cesare Cremonini, é possível que Galileu tenha colocado na boca de Simplicio proposições feitas pelo papa Urbano VIII.

Por que isso? O papa havia solicitado que Galileu inserisse seus próprios argumentos no livro. Como uma crítica (e mesmo um deboche), o cientista teria pregado essa peça.

Diálogo foi publicado em Florença sob uma licença formal da Inquisição. Alguns meses após a publicação do livro, o Papa Urbano VIII proibiu sua venda e fez o seu texto ser submetido para exame por uma comissão especial.

Em 1633, Galileu foi considerado “veementemente suspeito de heresia” com base no livro, que foi então colocado no Índice de Livros Proibidos.

Frontispício da obra

Galileu foi considerado culpado, e a sentença da Inquisição, emitida em 22 de junho de 1633, foi expressa em três partes essenciais:

  • Galileu foi encontrado “veementemente suspeito de heresia”, ou seja, ter mantido as opiniões de que o Sol está imóvel no centro do universo, que a Terra não está em seu centro e se move, e que alguém pode manter e defender uma opinião como provável depois de ter sido declarado contrário à Sagrada Escritura. Ele foi obrigado a “abjurar, curar e detestar” essas opiniões.
  • Foi sentenciado à prisão formal pela disposição da Inquisição. No dia seguinte isso foi comutado para prisão domiciliar, onde ele permaneceu pelo resto de sua vida.
  • Seu ofensivo Diálogo foi banido; e em uma ação não anunciada no julgamento, a publicação de qualquer de suas obras foi proibida, inclusive qualquer que ele possa escrever no futuro.

Para evitar que fosse queimado vivo, Galileu Galilei se viu obrigado a renegar suas ideias através de uma confissão, lida em voz alta perante o Santo Conselho da Igreja.

“Eu, Galileu, filho do falecido Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de idade, intimado pessoalmente à presença deste tribunal e ajoelhado diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais Inquisidores-Gerais contra a gravidade herética em toda a comunidade cristã, tendo diante dos olhos e tocando com as mãos os Santos Evangelhos, juro que sempre acreditei que acredito, e, mercê de Deus, acreditarei no futuro, em tudo quanto é defendido, pregado e ensinado pela Santa Igreja Católica e Apostólica. Mas, considerando que (…) escrevi e imprimi um livro no qual discuto a nova doutrina (o heliocentrismo) já condenada e aduzo argumentos de grande força em seu favor, sem apresentar nenhuma solução para eles, fui pelo Santo Oficio acusado de veementemente suspeito de heresia, isto é, de haver sustentado e acreditado que o Sol está no centro do mundo e imóvel, e que a Terra não está no centro, mas se move; desejando eliminar do espírito de Vossas Eminências e de todos os cristãos fiéis essa veemente suspeita concebida mui justamente contra mim, com sinceridade e fé verdadeira, abjuro, amaldiçoo e detesto os citados erros e heresias, e em geral qualquer outro erro, heresia e seita contrários à Santa Igreja, e juro que no futuro nunca mais direi nem afirmarei, verbalmente nem por escrito, nada que proporcione motivo para tal suspeita a meu respeito.”

Ainda assim, ele foi condenado e obrigado a permanecer em prisão domiciliar pelo resto de sua vida.

Na cultura popular, sem qualquer comprovação documental, conta-se a estória de que, após o veredicto, Galileu proferiu a seguinte frase: “eppur se muove” – “e, no entanto, ela se move”.

Leia também (obras disponíveis na Amazon):

Livro Galileu e os negadores da ciência, de Mario Livio (CLIQUE AQUI)

Livro Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano, tradução da obra original de Galileu Galilei (CLIQUE AQUI)

Livro Galileu Galilei: Um revolucionário e seu tempo, de Atle Naess (CLIQUE AQUI)