Antigo X Moderno na Primeira Guerra Mundial

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Cleber Roberto Silva de Carvalho
Especialista em História do Brasil - Faculdade Montenegro

Como citar este artigo:
CARVALHO, Cleber Roberto Silva de. Antigo X Moderno na Primeira Guerra Mundial (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 12 de julho de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/07/12/antigo-x-moderno-na-primeira-guerra-mundial. ISSN: 2317-9929. 

A Primeira Guerra Mundial é muito lembrada pelo seu momento “estático”, no período da chamada guerra de trincheiras. Com os soldados imobilizados pelas extensas trincheiras, que retalhavam a zona de confronto no front ocidental. Neste momento foram utilizados os gases venenosos, as longas proteções de arame farpado, os ninhos de metralhadoras, surgiram os tanques de batalha, lança-chamas. São elementos que sempre vem em mente ao se falar da guerra de trincheiras.

Mas a Primeira Guerra Mundial foi um momento em que ocorreu um verdadeiro choque, mas não somente entre as potências, mas entre as mentalidades. Foi um choque entre o antigo e moderno, dentro dos campos de batalha.

E isso ocorreu desde os primeiros momentos da Grande Guerra…

Os comandantes militares da França, nação que estava desejosa de se vingar pela derrota na Guerra Franco-prussiana, tinham em mente táticas de combate com ofensivas a todo custo (já que acreditavam que a guerra defensiva tinha sido o principal fator da derrota na guerra contra a Prússia).

E os soldados franceses, que não tinham fardas camufladas, os uniformes tinham camisas azuis e calças vermelhas, foram mandados para luta contra os alemães, nos combates que ficaram conhecidos como Batalha das Fronteiras, ainda no início da guerra. O resultado é que seus berrantes uniformes, somados as antiquadas táticas de avanço frontais resultaram em terríveis baixas nos exércitos franceses.

Ataque frontal francês usando baioneta

No início da Primeira Guerra Mundial ainda ocorrem as cargas de cavalaria contra posições inimigas, mas logo as mesmas caíram em desuso no front ocidental, devido o poder de fogo das metralhadoras e dos fuzis de ferrolho, que poderiam desbaratar as cargas de cavalaria rapidamente. Mas a cavalaria, e os cavalos, continuaram nos campos de batalha, como forças de reconhecimento ou de apoio, como logístico.

Os avanços de tropas pela Terra de Ninguém, na zona que ficava entre as trincheiras, contavam com ataques que tentavam utilizar novas táticas de infiltração, mas, também, com avanços que lembravam os ataques das guerras napoleônicas de cem anos antes, como na Batalha de Loos.

Quando os britânicos avançaram pela Terra de Ninguém com dez colunas, com mil soldados cada, como se estivessem fazendo um exercício para uma parada militar. Os defensores alemães ficaram pasmos com aquela manobra do inimigo, avançando em campo aberto, mas não demoraram e abriram fogo contra a massa de soldados britânicos. O resultado foi devastador para as tropas que avançavam em campo aberto, centenas caiam, enquanto outros tentavam avançar, em ordem, até serem parados pelo arame farpado e recuarem com mais da metade dos soldados perdidos.

Até o uso de um novo, e importante instrumento, foi contestado: o avião

No início da guerra, haviam algumas contestações sobre a utilidade do avião no campo de batalha, e muitos oficiais continuavam céticos com o uso daquela “nova arma” (lembrando que o avião foi utilizado como arma pela primeira vez na Guerra Ítalo-turca de 1911). No início o avião era utilizado apenas para o reconhecimento das posições inimigas, mas gradativamente armas passaram a ser incorporadas as aeronaves de combate.

Os bombardeios aéreos começaram a ocorrer cedo na Guerra, mas sem muitos resultados. Porém, em 1917, os alemães haviam desenvolvido muitos tipos de bombardeiros, como o Gotha-G, que, juntamente com os zepelins, realizavam ataques aéreos contra Londres. A Força Aérea Independente Britânica, equipada com os Hanley Page 0/400, respondeu com ataques em zonas industriais alemãs. Entretanto, os verdadeiros pioneiros em bombardeios estratégicos foram os russos. Seu avião Sikorski 1M determinou o padrão que todas as outras forças aéreas iriam utilizar.

Bombardeiro russo Sikorski 1M

O choque entre o antigo e moderno também ocorria no front oriental, onde o Império Russo lutava contra as Potências Centrais.

Um destes exemplos era que em 1914, início da Guerra, os soldados russos mantinham as baionetas caladas o tempo todo nos fuzis, o que prejudicavam muito a precisão dos disparos, mas o exército russo valorizava mais a ação do choque do que a superioridade do fogo, que mesmo sendo fuzis com ação de ferrolho, teriam um poderio alto de fogo, que se somavam as metralhadoras.

Tropas russas avançando por uma ferrovia em 1914

Estes choques entre o antigo e moderno tão visíveis no início da Guerra foram “desaparecendo” com o decorrer do conflito, com as táticas assumindo este caráter moderno. Mas algumas ideias antigas não sumiram e ainda puderam ser vistas na Segunda Guerra Mundial.

Referências Bibliográficas:

Keegan, John. História Ilustrada da Primeira Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

Magnoli, Demétrio (Org.). História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2006.