O que é ser evangélico? Entre a pluralidade e o fundamentalismo de um fenômeno que se alastra pelo Brasil

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Fé e poder são duas realidades tão simbióticas que se naturalizam como parte uma da outra de forma quase subliminar em determinados eixos do que estabelecemos como discursos e práticas.

Rímilla Queiroz de Araújo
- Graduada em História -  UFMA
- Mestranda em História - UEMA
- Pesquisadora de História da 
Religião com ênfase nas discussões sobre 
protestantismo, pensamento 
decolonial e direitos humanos

Como citar este artigo:
ARAÚJO, Rímilla Queiroz de. O que é ser evangélico? Entre a pluralidade e o fundamentalismo de um fenômeno que se alastra pelo Brasil (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 15 de Julho de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/07/15/o-que-e-ser-evangelico-entre-a-pluralidade-e-o-fundamentalismo-de-um-fenomeno-que-se-alastra-pelo-brasil/. ISSN: 2317-9929.

O que o pastor norte americano William Seymour filho de ex-escravos, conhecido pelo marco da Azuza Sreet,o teólogo carioca e ativista de Direitos Humanos Ronilso Pacheco, representante de um cristianismo progressista e engajado nas causas sociais, e o pastor bolsonarista Silas Malafaia  líder da igreja Vitória em Cristo dissidência da Assembleia de Deus tem em comum? Exato! Todos eles são evangélicos. No entanto pensar em suas peculiaridades seja a tendência teórica mais a direita, seja a vinculação pentecostal, histórico, de missão, nos induz a um questionamento que paira sobre os estudos do campo da religião e intriga do mais leigo ao mais intelectualizado:  O que então configura afinal ser evangélico, há uma identidade? E quais os elementos que caracterizam de fato ser Cristão e protestante?

Evangélicos em cena desde sempre na história

Para o sociólogo e pai dos estudos sobre pentecostalismo Paul Freston em sua tese de 1993 onde faz um cuidadoso trabalho de levantamento das tipologias do protestantismo no Brasil, é urgente conectar o crescimento acelerado dos chamados “crentes” com o fenômeno da  política e compreender os estereótipos e categorizações  em torno seja do hermetismo de algumas igrejas ainda apolíticas e a concepção de um crescimento da presença evangélica em número e protagonismo na espaços de poder  e estratégicos da sociedade de modo irrevogável.

Em seu livro intitulado “Ocupar, Resistir e Subverter” Igreja e Teologia Em Tempos de Violência, Racismo e Opressão, Ronilso Pacheco afirma citando Karl Barth  que: Porque a igreja cristã existe no céu, mas na terra, e está sujeita ao tempo. E ainda que seja um dom de Deus, Ele mesmo a tem posto em circunstâncias terrenas e humanas. Esta vive na terra e na história”. Sem sombra de dúvidas essa é uma discussão milenar que permeou desde a antiguidade o imaginário e as práticas de homem que ora se entregavam ao terreno ora negavam a vida aqui pela busca de uma vida redimida num paraíso escatológico vindouro. Essa dicotomia segundo Gustavo Alencar trata da ética do domínio, a constante batalha espiritual, do salvo em Cristo que está aqui para defender um Reino vindouro.

O historiador francês Herve Martin e Guy Bourdé em seu célebre livro as Escolas Históricas sustenta o cenário no período medieval em que a Igreja dominava não somente os aparelhos de produção simbólica como postula Pierre Bourdieu num sentido de sistema dominante vigente, mas também controlava a mentalidade de pessoas que viam a passagem nessa terra como uma cruz em nome da salvação futura. É interessante constatar que nos referimos a Idade Média como um passado muito distante, porém essa narrativa permanece vigorando em sermões e falas religiosas de modo bastante regular e inflamado nos nossos dias. A negação do mundo é uma das veias pulsantes da pragmática protestante historicamente: “Não ameis o mundo nem o que no mundo há (João 2. 15)”. Embora a tônica do anti-mundanismo se coadune com as bases de uma suposta identidade evangélica nos últimos anos com ainda mais ênfase A Teologia da Prosperidade, fundante entre os neopentecostais se volta para um evangelho que se preocupa com os frutos desta terra segundo o que atesta o profeta Isaías “Se estiverem dispostos e me ouvirem vocês comerão o melhor desta terra” (Isaías, 1-19)

Fé e poder são duas realidades que nunca estiveram cindidas, mas que pelo contrário são tão simbióticas que se naturalizam como parte uma da outra de forma quase subliminar em determinados eixos do que estabelecemos como discursos e práticas.

Multiforma sobre o ser evangélico

O historiador maranhense Moab César em artigo sobre o pentecostalismo aponta categoricamente que não há uma forma de ser protestante ou mesmo pentecostal, mas que nesse percurso as apropriações e usos do exercício  da condição de evangélico se reformulam e remodelam continuamente, hipótese também defendida por Leonildo Campos Junior ao dizer que no Brasil o fenômeno do protestantismo responde a um contexto marcado pelas singularidades de um lugar que convive com o catolicismo e as africanidades de tal modo que o produto desse encontro não poderia deixar de resvalar sobre a doutrina e atuação entre os evangélicos seja na sua cultura, proselitismo ou abordagem quanto aos sentidos que defendem.

A ideia da ascese, ou seja, estar no mundo, mas não ser do mundo constitui um dos ideários mais fortes do que representa a identidade do evangélico. A partir da Reforma Protestante com a busca do ex-monge Martinho Lutero por uma comunhão direta entre o homem e Deus, o termo protestante foi cunhado na direção da liberdade para ligar o que há na terra ao próprio céu sem mediação seja da poderosa Igreja Católica ou de qualquer outra divindade ou santo. Um Deus único a quem se concentram todos os esforços por meio do texto bíblico e sua interpretação para alcançar. Em cerca de 500 anos da Reforma Protestante o crescimento protestante além de gigantesco numericamente falando salta aos olhos dentro da política e da voz de comando na sociedade, a bancada evangélica no Congresso Nacional e figuras como Damares Alves reforçam essa tônica.

O estereotipo de sectários e isolados culturalmente em grande medida é uma indumentária que já não veste mais o que tipifica, melhor dizendo as muitas tipologias e categorizações que compõem a gama complexa desse lugar ocupado pelos sujeitos que durante muito tempo eram taxados de santarrões retrógrados e hoje protagonizam um nicho de produção cultural, seja na mídia, nunca se brigou tanto por conta de religião e ideologia nas redes sociais, quem é arminiano? Quem é calvinista? Figuras pops evangélicas tem povoado o imaginário e chamado a atenção por seu estilo e irreverência. Novas conotações de um fenômeno que como declara Weber rotinizou o carisma e com tamanha força trouxe a fé evangélica antes particular e sectária para o centro do debate , definitivamente de domínio público e forte candidata a nova religião majoritária brasileira segundo as projeções dos últimos  Censos do IBGE. Estamos diante de um novo Status Quo?

REFERÊNCIAS:

ALENCAR. Gustavo. Grupos Protestantes e Engajamento Social: Uma Análise dos Discursos e Ações de Coletivo Evangélicos Progressistas. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 39(3): 173-196, 2019

BOURDIEU, Pierre. A Economia das  Trocas Simbólicas. São Paulo:  Perspectiva, 2007

BOURDÉ, Guy; MARTIN, Herve. As Escolas Históricas. Portugal: Publicações Europa América, 1983.

Bíblia de Jerusalém, Paulus: São, Paulo, 2019

CAMPOS, L. As Origens norte americanas do pentecostalismo brasileiro: observações sobre uma relação ainda pouco avaliada. REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 100-115, setembro/novembro 2005

FRESTON, Paul Protestantes e Política no Brasil: Da Constituinte ao Impeachment. Tese de Doutorado. UNICAMP, São Paulo, 1993.

COSTA, M; PANTOJA, V. Faces do Pentecostalismo Brasileiro: A Assembleia de Deus no Norte e Nordeste. Debates do NER, Porto Alegre, ano 14, n. 24, p. 245-271, jul./dez. 2013)”

PACHECO, Ronilso. Ocupar, Resistir, Subverter: Igreja e Teologia Em Tempos de Violência, Racismo e Opressão.