A queima da escultura de Borba Gato: memória e cidadania

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Defender a memória do Borba Gato pela história do bandeirismo é o mesmo que manter a noção de escravo como identidade de uma etnia.

Luiz Severino da Silva Jr
Mestre em História
Professor do Curso de Artes Visuais
da Universidade Federal do Vale do
São Francisco – UNIVASF, Juazeiro, BA.

Como citar este artigo:
SILVA JR., Luiz Severino da. A queima da escultura de Borba Gato: memória e cidadania (artigo). IN: O Historiante. Publicado em 26 de julho de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/07/26/a-queima-da-escultura-de-borba-gato-memoria-e-cidadania/.  ISSN: 2317-9929.

No mundo ocidental, do qual fazemos parte, a prática de erguer monumentos origina-se na antiguidade. Na Roma Antiga e mesmo no Egito Antigo, as batalhas vitoriosas representavam não só a destruição do inimigo, mas, a conquista de terras, servos, escravos e riquezas. Mais especificamente, na Roma antiga, aos generais conquistadores era dado o direito ao ‘triunfo’, uma festa pública que percorria as ruas como se fosse um desfile carnavalescos. Já aos grandes generais que eram políticos de famílias nobres, também era legado de erigir um monumento, em geral, um Arco Triunfante. Outra prática era a de erguer colunas e algumas esculturas (figuras equestres, esculturas de corpo completo, ou, bustos) a serem colocadas em espaços públicos privilegiados.  Portanto, os monumentos europeus já nascem com a marca do sangue dos derrotados. Como diria Júlio César: “AI DOS VENCIDOS!”.

Após o século XV, as nações europeias, deixam de bordejar o entorno do Mar Mediterrâneo para se expandir pelo mundo através das navegações oceânicas. Em nome das conquistas e do vil metal, os reinos europeus tornaram-se impérios destruidores dos impérios do Novo Mundo. Assim, passo a passo, Arawak/Tainos, Astecas/Méxicas, Tlacotecas, Incas, Quechuas, etc., foram caindo. É bem verdade que esses impérios e nações do Novo Mundo, também faziam as suas conquistas e erguiam monumentos para comemorar. Essa deve ser uma das características mais tristes dos reinos que se tornam impérios. Mas, essa é uma outra discussão. O fato é que, com a chegada dos europeus, a Terra dos Papagaios, também foi conquista pela ação e bandeira de um Império. A Pindorama, foi paulatinamente transformada em Colônia do Brasil (1530-1822). Primeiro, tivemos uma conquista bordejante, pelo litoral. Depois, o jogo de estica e recua dos tratados europeus (Tratado de Tordesilhas, Tratado de Madrid e Tratado de Santo Ildefonso) foram delineando os contornos do que viria a ser a nossa nação nos trópicos. Desta forma, vemos um pouco do contexto da vida de Manuel da Borba Gato, personagem que teve a sua estátua queimada em São Paulo.

Mas, foi no Brasil Império (1822-1889), que as terras dos colonos finalmente buscaram uma identidade, a de ‘súditos de um Império’. Foi nesse momento de nossa história, que a língua colonial foi definitivamente eliminada e combatida. A chamada ‘língua geral’, ou ‘tupi’, foi proibida. Ela havia sido criada pelos padres em seus aldeamentos, como forma de agregar o maior número e diversidade de povos originários. Os nativos a chamavam de ‘língua boa’, pois juntava as variantes do tupi antigo, ou, nheengatu. Inclusive, muitos dos bandeirantes eram falantes da língua geral e deficientes no português. Mas, voltando ao foco da questão, foi na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1862, quando vigorava o segundo reinado, que surgiu o que seria o nosso primeiro monumento público: ‘Monumento a Pedro I’.  Uma figura equestre a lá europeia, feita em bronze e granito, pelo também europeu, Loius Rochet, 1856-62[5]. Coisa de pai pra filho, ou melhor, do filho para o pai. E que Deus tenha piedade da arrogância de nossas elites imperiais e de seus herdeiros de memorias.  Devemos lembrar que, esse é o primeiro monumento público com o objetivo memorial, ou seja, de enaltecer e guardar a memória pública de um povo. No caso, buscava-se transformar o pai do dirigente da nação em um “herói” brasílico.

Micheles (Fotógrafo); Rochet, Louis, 1813-1878; Mafra, João Maximiniano. Estátua equestre de Dom Pedro I, 1861. Paris, França / Acervo FBN

Assim, os demais “monumentos coloniais”, anteriores ao Monumento a Pedro I, possuem esse status devido aos atestados e estudos efetuados pelas distintas esferas de nosso patrimônio histórico nacional. Pois, não foram erguidos para serem monumentos guardiães de nossa memória. Foram edificados para serem prédios administrativos e religiosos da Colônia do Brasil. Só passaram a categoria de monumentos nacionais, devido aos desejos e noções republicanas de criar as “raízes do Brasil”, e, todos eles, só foram reconhecidos ao longo do século XX. São monumentos acautelados pelos interesses das elites doutas, que ainda têm parte de suas identidades intencionalmente correlacionadas a arquitetura e a arte religiosa transposta pelos europeus para os trópicos. É o que podemos chamar de monumentos da “pedra e cal”! São monumentos reconhecidos devido ao fato de terem sobrevivido ao tempo e por terem preservado os estilos de suas épocas.

Não que isso seja errado, pois, ainda temos um longo caminho para a construção de nossa identidade de nação mestiça de apenas 199 anos. Por isso, já não se pode mais almejar o sonho de ser uma nação de descentes de europeus. Para compreender nossa formação de nação mestiça, com maioria de pardos e pretos, basta uma breve leitura do nosso último Censo Demográfico, realizado no ano de 2010, e esquecido no ano de 2020, por interesses escusos. Dizem que foi falta de verba da nona maior economia do mundo, ou seja, de nossa economia brasileira[6]. Realmente, o Brasil não é para amadores.

Findo o Império, perpetuou-se a prática de erguer monumentos a personagens sem que houvesse uma discussão sobre os reais valores que nortearam a vida da personagem a ser esculpida. O problema não é a escultura, mas, o fato de estar em via pública como sendo monumento representante da coletividade.  Aqui na Brasilândia, o que parece ter sido valorizado acima de qualquer questão, foi a identidade europeu. Que se tornou quase um sinônimo de status. Porém, o tempo não perdoa, as mudanças de valores passam a ser latentes e os feitos enaltecidos passam a ser contraditórios e incômodos. Já que, cada época guarda os seus valores sociais, e a escultura do Manuel da Borba Gato vem sofrendo de decadência moral pelo decorrer do tempo. Não deveríamos mais almejar o status de europeu, hoje, esse desejo, soa como coisa de elite vira-lata, submissa a colônia. Mesmo que, na atualidade, nossa metrópole já não esteja no velho continente. Assim, nossa ‘res publica’, não foi se consolidando como “coisa do povo”, muito pelo contrário, é coisa das elites, principalmente no tocante ao lucro e uso fruto[7].

Por isso, para sermos um povo cidadão, uma nação democrática, necessitamos de continuados exercícios de atualizações. Devemos discutir nossas memórias formadoras das identidades que são oficialmente coletivizadas. Nossa cidadania não podemos mais ser tratada apenas como um direito ao voto. Nossa cidadania não pode ter esse único e exclusivo papel. A prática ativista, a de formar grupos e associações para discutir a sociedade faz parte da noção de cidadania. Por isso, no Brasil, ainda temos que lutar pela construção e defesa de nossa memória e do que deve ser entendido como patrimônio público. de nosso Brasil, um país que só vai fazer duzentos anos, no próximo ano.

Assim, visto que, nossas elites herdaram o gosto por monumentos públicos com perfil artístico europeu, onde, quase sempre, objetiva-se a construção da memória de heróis. Podemos entender como as práticas delimitaram os hábitos. Ainda temos inúmeras dívidas com a História, com a interpretação dos atos de guerra e de perseguições. Não é possível, que a sociedade brasileira, tão cristã e dita tão cordial, não consiga entender a diferença entre progresso social e progresso exploratório.

O uso de esculturas como arte pública memorial, não pode mais homenagear atos que o tempo demonstrou serem desumanos. Como vimos, em nosso país, o uso da arte pública, na acepção que hoje conhecemos, é fruto de processo histórico recente, e, facilmente passível de análises e revisões. Devemos continuar a buscar a construção de um novo perfil para a memória nacional. Um perfil, mais abrangente, mais inclusiva e cidadão. Um perfil que reconheça os erros do nosso passado coletivo. Nascer em um lugar que enaltece tradições de um passado que hoje é julgado como espúrio, não é uma condição de enraizamento, ou seja, de defesa do lugar nato a qualquer custo. A placidez e a generosidade consistem na capacidade de aprender com os erros do passado. Ser magnânimo é perceber as contradições existentes no presente, e entender como devem ser tratadas com empatia em relação a diversidade social atuais.

Para compreender as incoerências surgidas ao longo do tempo, busquemos entender o autor da obra, o artista Júlio Guerra (1912-2001), que executou a encomenda da escultura no ano de 1963.  Procuremos pensar, como um paulista nato teria a figura de um bandeirante como sendo a de um herói?

Nascido no município de Santo Amaro, hoje, distrito sul da capital paulista, Júlio Guerra foi um homem de sua época. Inclusive, o antigo brasão do município de Santo Amaro, possui a figura de um bandeirante e um militar português em sua composição[8]. Como estudante da Escola de Belas Artes de São Paulo (1930), certamente conheceu as obras do artista italiano Nicolla Rolo (1889-1970), que chegou no Brasil no ano de 1913, e, em 1919, participou do Concurso para o Monumento Comemorativo ao Io Centenário da Independência do Brasil. Segundo artigo de jornal da época, O Correio Paulistano, o projeto do monumento de Nicolla Rolo, era de uma figura equestre de D. Pedro I. Parece que, a república sentia saudades do Império. Tanto, que nesse mesmo momento, a Lei de Expurgo da família Bragança foi cancelada.

Assim, o descritivo feito pelo jornal, elucida muitos aspectos da identidade do artista e da sociedade, naquele momento. No pedestal da figura equestre figuras alegóricas “resumia as melhores aspirações do povo brasileiro”; (…) entendia que, a sociedade brasileira era fruto da evolução; que “o trabalho e a defesa armada, que garante a ordem, e a paz, sob cuja proteção se desenvolvem as lavouras e as indústrias”; e, “unia teoria vigorosa de figuras que estendem as suas lanças contra a ameaça de invasão da terra pelo estrangeiro”. Para Rollo, sua obra entendia a “evolução do conceito de Pátria” (…) em um grupo que simboliza “o holocausto recíproco da terra e do homem; aquela oferecendo a vida a este e este sacrificando-a em sua defesa[9].  Além disto, Nicolla Rolo é o autor de duas esculturas, em bronze, que se encontram no Museu do Ipiranga, São Paulo. Uma delas é do Borba Gato e a outra do também bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva[10].

Outro ícone que deve ter influenciado Júlio Guerra, são as representações da memória da Revolução Constitucionalista de 1932 (que visa a manutenção do poder da política do Café com Leite, da chamada Velha República). Nesta revolução, um dos cartazes tinha a figura de um grande e bandeirante, a lá Borba Gato, capturando um pequenino Getúlio Vargas[11].

(Crédito da imagem: CPDOC/FGV)

Ainda hoje, se visitarmos um site sobre o bairro de Santo Amaro, intitulado “Santo Amaro: Cultura. História, Gente, Arte, Urbanismo, Educação. Idéias.[12], veremos que as críticas a escultura do Borba Gato, são defendidas da seguinte forma:

“Os que desdenham da estátua de Borba Gato, de Júlio Guerra, apenas revelam seu espírito desinformado, inculto, medíocre, sectário e persecutório, com algo de inquisitorial extemporâneo. O Borba Gato é a grandiosa marca de Santo Amaro. O Borba Gato é o guardião e inspirador da Cidade-Bairro de Santo Amaro.”

Portanto, não havia como o artista Júlio Guerra pensar diferentes das narrativas locais. Ele, como alguns moradores do Bairro de Santo Amaro, parece manter os discursos políticos da República do Café com Leite e do extinto Partido Republicano Paulista. Em uma de suas melhores esculturas, Escultura “Mãe Preta”[13], instalada no Largo do Paiçandu, São Paulo, temos a perpetuação da noção de democracia racial, surgida no pós-abolição e perpetuadas por obras como a de Gilberto Freire e Sergio Buarque de Holanda.  

Mas, nem tudo está perdido, ainda somos uma nação democrática com direito a eleger seus representantes, e, ainda podemos transformar nossas rixas regionais em identidades educadas e proveitosas socialmente. É bem verdade que não conhecemos boa parte de nossos direitos constitucionais, pelo menos os que ainda restam. Nossa educação escolar não tem a Constituição Federal de 1988 como conteúdo nas disciplinas. Por favor, alguém faça como os gringos dos EUA, criem a disciplinar escolar DIREITO CONSTITUCIONAL.    

Diante desta trajetória, hoje, a mídia discute a validade ou a criminalização do ato de queimar a escultura. Para a sucursal do jornal estrangeiro, El Pais[14] o ato foi fruto de “ativismo político”. Nada mais nobre do que buscar o sentido de ação cidadã ativa! Mas, esse deve ser um sentimento só para europeus, hahahaha, é rir para não chorar. Para alguns jornais brasileiros, trata-se de ato de vandalismo.

Para mim, defender a memória do Borba Gato pela história do bandeirismo é o mesmo que manter a noção de escravo como identidade de uma etnia, ou seja, não mais existe a noção de escravo, o que temos hoje é a percepção de humanos escravizados. Outro exemplo é acreditar que, em nome do progresso e da riqueza, as causas ambientais, que visam o desenvolvimento sustentável de nossos recursos naturais, não devam ser defendidas.

Portanto, hoje, não se podemos manter viva as mesmas noções das tradições coloniais. Borba Gato já não representava o povo em seu tempo, quiçá hoje, em nossa jovem república. Preservar a simplória escultura, é o mesmo que manter um museu dos horrores, onde os valores são os das tradições escravocratas, elitistas e do modelo de sociedade anti-povo e anti-Brasil cidadão. As necessidades de revisão são latentes, ainda chamamos os povos originários de “índios”, mesmo sabendo de suas incoerências e objetivos escusos. Para entender melhor essa questão, basta dialogar com quaisquer membros um povo falante de sua língua e descobrir que esses povos não se autodenominam “índios”. São os povos originários, são nações nativas.

Por fim, devemos procurar analisar o ato de queimar a estátua do Manuel da Borba Gato, não como um ataque ao artista, ou, a sua obra. Foi um ataque a memória que a obra alude. Pois, tudo o que pode haver de bom na figura de Júlio Guerra não existe na memória dos feitos de Borba Gato. A memória desta personagem deve ser preservada nos anais da história, mas, como uma memória do exemplo das práticas que não podem ser associadas a civilidade e ao progresso.


Notas

[1] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/07/02/estatuas-da-rainha-vitoria-e-rainha-elizabeth-sao-derrubadas-no-canada

[2] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/06/07/manifestantes-derrubam-estatua-de-traficante-de-escravos-na-inglaterra.htm

[3] https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/galeria_de_imagens/2020/06/742625-estatua-de-churchill-e-limpa-apos-ser-pichada-durante-manifestacoes.html

[4] https://br.rbth.com/historia/80804-ascensao-tombo-monumentos-stalin-sumiram-mapa-europeu

[5] https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=7629

[6] https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/economia/audio/2021-04/censo-demografico-nao-sera-realizado-em-2021

[7] http://periodicos.pucminas.br/index.php/cadernoshistoria/article/view/1641

[8] https://santoamarocultural.wordpress.com/julio-guerra/

[9] https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicola_Rollo

[10] https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicola_Rollo#/media/Ficheiro:Museu_do_Ipiranga_2018_199.jpg

[11] https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/Revolucao1932

[12] https://santoamarocultural.wordpress.com/julio-guerra/

[13] https://santoamarocultural.wordpress.com/julio-guerra/

[14] https://brasil.elpais.com/brasil/2021-07-24/estatua-do-borba-gato-simbolo-da-escravidao-em-sao-paulo-e-incendiada-por-ativistas.html