Em 1936, nas Olimpíadas de Berlim, Hitler quebraria a cara

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Para provar a teoria da ‘raça superior’, os nazistas prepararam seus atletas brancos. Mas, suas pretensões foram frustradas pelo afroamericano Jesse Owens

Da redação

As olimpíadas modernas, uma retomada da tradição clássica greco-romana a partir do século XIX, tiveram como idealizador o barão de Coubertin, Pierre de Frédy. Historiador e pedagogo, o barão era um entusiasta dos esportes e da cultura clássica, a qual defendeu na realização de uma competição a nivel global, com a participação de diversos atletas em várias modalidades.

O que pouca gente deve saber é que ele, como a sociedade europeia branca de seu tempo, era simpático aos ideais de superioridade racial, baseados na eugenia, uma peudo-ciência que justificava, por meio da deturpação de métodos biológicos, históricos e antropológicos, uma hierarquia de raças entre os seres humanos modernos.

Segundo o pesquisador Jules Boykoff, autor do livro Power Games: A Political History of the Olympics, o barão deixaria em seus manuscritos o seguinte pensamento:

“A teoria propondo que todas as raças humanas tenham direitos iguais impediria qualquer progresso. A raça superior tem todo o direito de negar à raça inferior certos privilégios da vida civilizada”

É interessante observar que é o mesmo barão que escreveria a famosa Carta Olímpica, um documento que preconiza o chamado “olimpismo”

“O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina num conjunto harmônico a qualidades do corpo, a vontade e o espírito. Ao associar o esporte com a cultura e a educação, o Olimpismo se propõe a criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo e no respeito pelos princípios éticos universais. O objetivo do Olimpismo é colocar sempre o esporte a serviço do desenvolvimento harmônico do homem com o fim de favorecer o estabelecimento de uma sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana”.

Trecho da introdução da “Carta Olímpica”

Quando, em 1936, Hitler e os nazistas organizaram as Olimpíadas de Berlim, seu objetivo mesclava ambas ideias mencionadas acima: promover o olimpismo e o ideal de superioridade racial.

Aquela edição serviria de amostra de como os arianos eram atleticamente melhores. Ao menos, era esse o desejo de Hitler.

Os Jogos de Berlim

Abertura dos Jogos de 1936 (Fonte: Deutch Welle)

Em Berlim foi introduzido o revezamento que transportou a chama olímpica de Olímpia até ao estádio olímpico de Berlim, sede dos Jogos, por mais de três mil atletas através da Europa. As ruas da cidade estavam repletas de suásticas para promover a ideologia racista e belicosa de Adolf Hitler, que havia três anos tornara-se chanceler da Alemanha, promovendo, desde o início do seu governo, uma perseguição inédita aos já tão perseguidos judeus.

O governo nazista não poupou recursos com a obsessão por disseminar uma suposta superioridade da “raça ariana”. Tornando a Olimpíada nazista a mais grandiosa e bem realizada até então, eles trataram de registrar o momento produzindo o mais impressionante documentário já realizado sobre as Olimpíadas, Os Deuses dos Estádios (Olympia) , dirigido pela cineasta Leni Riefenstahl, famosa no cinema alemão.

As expectativas do Führer eram de que algum Hércules loiro sobressaísse aos olhos do mundo.

Naqueles Jogos, o mundo viu a glória de um super-herói negro, neto de escravos: o americano Jesse Owens – que descobriu sua vocação para a corrida quando ainda trabalhava como engraxate. O atleta foi o primeiro da história a conquistar quatro ouros numa Olimpíada: venceu nos 100 e 200 metros rasos, no salto em distância e no revezamento 4×100. 

Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936 (Foto: Getty Images)

Lutz Long, o campeão alemão, chegou a conversar com Owens durante todas as provas; Long chegou a orientar e encorajar Owens, quando este quase falhou na tentativa de se classificar nas eliminatórias do salto em distância. O alemão morreu em combate lutando com as tropas da Wehrmacht na Sicília, em 1943, e por seu espírito esportivo foi condecorado postumamente pelo COI com a medalha Pierre de Coubertin.

Há uma lenda que diz que Hitler, inconformado com o sucesso de Jesse Owens diante de seus olhos, retirou-se furioso do estádio após a vitória de Owens no salto em comprimento, quando ele quebrou o recorde mundial derrotando o alemão Lutz Long. Na realidade, Hitler não se encontrava no estádio neste dia.

Os conselhos de “Luz” Long ajudaram Jesse Owens a conseguir um de seus ouros olímpicos. (Fonte: BBC)

A reação de Hitler

Mas, como ele teria reagido aos triunfos de Owens? Quem nos dá uma perspectiva é o ministro nazista Albert Speer escreveria em suas memórias:

“Cada vitória germânica – e houve um surpreendente número delas –, deixava o Führer feliz, mas ele ficou muito incomodado com a série de triunfos de Jesse Owens” […] ‘Pessoas cujos antecedentes vêm da floresta são primitivos’, dizia Hitler com desdém. Seu físico é mais forte que o dos ‘brancos civilizados’, portanto eles deveriam ser excluídos das futuras competições.”

Adolf Hitler (2º a partir da esquerda) no Estádio Olímpico de Berlim, em 1936 (Fonte: Deutch Welle)

Não foi possível abafar a vitória norte-americana, visto que o público recebeu as imagens das olimpíadas televisionadas, além da superlotação do estádio.

Apesar de ao fim dos Jogos os alemães terem liderado o quadro de medalhas com 33 de ouro, muito acima do segundo colocado, os Estados Unidos, que ficaram com 24 medalhas de ouro, os alemães foram derrotados nos esportes coletivos para os quais haviam se preparado por anos. 

Mas, principalmente, haviam perdido em provas clássicas do atletismo, algo ainda mais vergonhoso ao regime.

Contudo, mesmo assim, para os nazistas os Jogos Olímpicos tiveram um sabor de vitória e sucesso. No final a Alemanha seria a recordista de medalhas daquelas Olimpíadas. Em reunião do Partido Nazista em Nurembergue, Rudolf Hess afirmou que os jogos foram uma “providência do destino” para o regime.

O destino de Jesse Owens

Anos depois, Owens retrataria um pouco do que foi seu regresso aos Estados Unidos:

“Quando voltei ao meu país, depois de todos aqueles comentários sobre o racismo nazista, eu não pude viajar na parte da frente dos ônibus. Tinha de entrar pela porta traseira. Não podia morar onde quisesse. Não fui convidado para apertar a mão de Hitler, porém tampouco fui convidado à Casa Branca para apertar a mão do presidente de meu país.”

Trecho de entrevista de Owens ao The New York Times

Jesse Owens deixou a Alemanha como estrela.

É notório que Hitler não gostou de ver um negro vencendo embaixo do seu nariz, mas para o próprio atleta, isso não ocorreu.

“Depois de descer do pódio, passei em frente da tribuna de honra para voltar aos vestiários. Ele me viu e me acenou com a mão. Eu, feliz, respondi a sua saudação. Jornalistas e escritores relataram sobre uma hostilidade que nunca existiu”

Trecho de entrevista de Owens em 1970 (UOL)

Na área dos atletas olímpicos em Berlim, misturavam-se nacionalidades em uma tentativa irreal do próprio Comitê Olímpico Internacional da época demonstrar que todos eram tratados como iguais. Mas negros, brancos e outros não eram tratados de formas iguais. A começar pelo próprio país de Owens governado por Franklin Roosevelt, que não parabenizou o multicampeão e apenas recebeu atletas brancos na Casa Branca.

Roosevelt sequer chegou a enviar um telegrama a Owens.

Ao desembarcar nos Estados Unidos após a Olimpíada, Owens foi recebido com carreata a céu aberto em Nova York (na imagem que abre essa reportagem). Mas em um país dominado pela segregação racial, a cor do atleta campeão o fez sofrer racismo.

Chegada de Owens em Nova York (Fonte: Getty Images)

Primeiro, precisou sentar na parte de trás do ônibus que levava outros atletas norte-americanos após o retorno ao país. Depois, em um hotel onde receberia uma homenagem por suas conquistas, foi mandado entrar pelos fundos e utilizar o elevador de serviço.

A realidade não seria de glórias.

Leia também (obras disponíveis na Amazon):

Livro HISTORIOGRAFIA E IDENTIDADE DO NEGRO NO ESPORTE, de ALTEMIR DE OLIVEIRA (CLIQUE AQUI)

Livro Power Games: A Political History of the Olympics, de Jules Boykoff (CLIQUE AQUI)