O Pedro da novela e o Pedro histórico

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Entre a ficção e a factualidade, personagens históricos são apropriados e reconstruídos para o grande público

Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - AVM/UCAM

Como citar este artigo:

MAGALHÃES, Pablo Michel Cândido Alves de. O Pedro da novela e o Pedro histórico (artigo). IN: O Historiante. Publicado em 25 de agosto de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/08/25/o-pedro-da-novela-e-o-pedro-historico/.  ISSN: 2317-9929.

As novelas representam, de fato, um caractere especial na cultura brasileira. Ao longo de décadas, dos folhetins romanescos aos novelões da TV, esse estilo de narrativa alcançou um prestígio grande no entretenimento produzido e consumido em nosso país.

Não raro, assistimos a produções de época que marcam o imaginário popular em torno do passado. No momento, é a novela Nos tempos do Imperador que chama a atenção para o segundo monarca do Império do Brasil no século XIX. Pedro II, alçado ao poder ainda criança, e imperador de fato a partir dos seus 15 anos (o conhecido golpe da maioridade), é o personagem principal da trama.

Por mais que essas adaptações históricas possuam erros incontornáveis, acreditamos que estas produções possuam importantes potencialidades de aprendizado para o grande público. Neste breve texto, tomaremos como ponto central o personagem Pedro II e os eventos em torno do 1o episódio da novela.

Dom Pedro II (Selton Mello) (Imagem/reprodução: TV Globo)

Entre a ficção e a realidade

As narrativas novelísticas trazem para o espectador uma versão, uma narrativa, uma ótica, sobre este ou aquele personagem histórico. É preciso lembrar que, como produto comercial, a novela produz aquilo que o espectador gosta de ver. De amores proibidos a cenas de ação e aventura, passando pela redenção dos personagens principais, o objetivo é manter os olhos da audiência sempre atentos aquilo que a estória conta.

Em se tratando de personagens, o autor do folhetim pode, inclusive, florear certas caraterísticas, aumentar um ponto ou inventar (isso mesmo!) eventos que jamais existiram. É a licença poética que a literatura tem.

Cabe aqui dar voz a Thereza Falcão, autora que assina o roteiro da novela Nos tempos do Imperador. Perguntada sobre o imperador, ela diria o seguinte:

“Ele era muito querido, foi eleito o maior brasileiro de todos os tempos com toda razão. A gente escolheu destacar a relação dele com ensino, cultura, patrocínio à ciência. Estamos carentes de um líder que pense no Brasil”.

Entrevista concedida a Splash Uol

É uma fala que ressalta um ponto principal: o D. Pedro II da novela é um personagem construído para representar um “líder que pense no Brasil”. Para a autora, ressaltar isso supre a “carência” em que estamos desse tipo de pessoa. Ou seja: o personagem da novela, por mais que represente o real Pedro, imperador do Brasil no século XIX, é fruto de um contexto atual de ausência dessa figura de liderança, em que temos à frente da presidência uma pessoa inapta, inculta, egoísta e preconceituosa.

Isso não quer dizer que o Pedro histórico não tenha sido um líder com qualidades. Dentre elas (algo que é ressaltado na novela) está usa curiosidade pela educação. Dedicado desde muito cedo às artes, o monarca de fato foi entusiasta da produção cultural do país.

Em seu diário escreveria d. Pedro II: “Se não fosse imperador do Brasil quisera ser mestre-escola”, uma opção que condizia, ao menos, com a representação que mais e mais se divulgava.

Trecho do livro As barbas do Imperador (1998), de Lilia Schwarcz

Pedro era um mecenas. Patrocinava e investia em literatura, música, arte, medicina. Ainda segundo Lilia Schwarcz, o imperador “abria os salões literários no Palácio de São Cristóvão, dirigia as reuniões do Instituto Histórico, ia à ópera, acompanhava exames no Colégio Pedro II e inaugurava as exposições anuais da Academia de Belas-Artes”. Porém, seu apoio não se dava em âmbito nacional, nem havia qualquer política pública de investimento na cultura.

Seu mecenato era dedicado a um grupo restrito que passou a ser conhecido como “os artistas do imperador”.

Pedro II e Isabel (Wikimedia commons)

Em relação à oferta de educação, temos um panorama bastante parecido. Fora da corte, que (dizia-se) possuía 50% de sua população alfabetizada ao fim do Império (SCHWARCZ, 1998), os investimentos em educação primária eram parcos, e as províncias não demonstravam sinais de melhoria na instrução da população.

Há ainda outros pontos que destoam ficção e realidade, mas vamos tratar disso a partir de algumas cenas do episódio de estreia da novela, para que o texto fique mais propositivo.

O Pedro da novela X o Pedro histórico

Acompanhando o primeiro episódio, podemos ter uma amostra de algumas características do personagem Pedro. Um Selton Melo de meia idade dá vida ao imperador, que já aparece no início da trama como um homem fascinado pela natureza e pela ciência.

Utilizaremos duas passagens como base para analisar os signos construídos na novela para representar o monarca.

Na primeira delas, temos um encontro bombástico: Pedro e Solano Lopez, que ainda era apenas o filho do então presidente do Paraguai. Dois líderes nacionais que entrariam em combate na Guerra do Paraguai (1864-1870).

Roberto Birindelli caracterizado como o General Solano López em Nos Tempos do Imperador (Foto: Paulo Belote/Globo)

Pedro é construído, nesta cena, como um líder que ama o Brasil, defensor da liberdade contra ditadores. Solano rasga um mapa da América Latina e promete represálias ao monarca, que lhe negara a mão da princesa Isabel em casamento.

Há dois problemas aí: o único encontro entre Pedro e Solano se deu no Rio de Janeiro, no Palácio de São Cristóvão (e não em uma expedição pelo interior do Brasil). Voltando de viagem pela Europa, Solano decidiu visitar a capital imperial para esclarecer os motivos de Pedro ter enviado uma Missão Diplomática à capital paraguaia. Com 30 navios de guerra e cerca de 2 a 3 mil soldados, a missão não parecia ser amistosa. O imperador, conversando em espanhol, tranquilizou o paraguaio, que saiu da visita desconfiado das intenções do monarca (sobre isso, Fabiano Barcellos Teixeira escreve em seu livro A Primeira Guerra do Paraguai: a expedição naval do império do Brasil a Assunção [1854-5], de 2012).

Pintura de D. Pedro II e gravura de Solano Lopez, veiculada entre os britânicos

O segundo problema: Solano teria pedido a mão de Isabel em casamento? Se houve, esse pedido não foi documentado em carta ou documento que o valha. Há uma narrativa popular de que, desejando ser imperador paraguaio, ele queria fazer uma aliança com a casa de Bragança. Mas não há sustentação.

Ainda nesta primeira cena, é possível ouvir o discurso de Pedro para Solano. Cheio de paixão, o imperador diz que “os filhos da nação jamais se curvariam a um ditador” e que mesmo após sua morte, ele, Pedro, permaneceria com os brasileiros.

O discurso é apaixonado e, de fato, o imperador era apaixonado pelo Brasil. Possivelmente, a única característica que o aproximava de seu pai, Pedro I. Para José Murilo de Carvalho em sua biografia de Pedro II já citada acima, o imperador deu diversas mostras deste amor, seja em cartas, discursos e ações práticas ao longo de seu reinado.

Vamos à segunda cena: Pedro conversa com sua esposa, a imperatriz Teresa Cristina. Emocionado após reler a carta que seu pai havia deixado para si, ele chora ao falar sobre a escravidão, que ele chama de pesadelo. A imperatriz o consola, e podemos sentir a cumplicidade do casal neste momento de fraqueza de Pedro. De órfão em quem a coroa não cabia de tão pequeno que ele era, ao então imperador de uma nação por quem morria de amores.

Trecho da novela (Imagem/reprodução: TV Globo)

Para entender o posicionamento do imperador em torno desta questão, vamos a uma problematização.

A monarquia brasileira dos Bragança construiu um império assentado no trabalho escravizado de negros africanos. Pedro II tinha completa noção disso. Apesar de nutrir um ideário abolicionista (bem como sua filha, Isabel), o monarca foi extremamente pragmático neste quesito, equilibrando de um lado os latifundiários escravagistas e do outro intelectuais abolicionistas. Isso se refletiu no lento processo de abolição que só se concluiu em 1888 com a lei Áurea.

Mas é preciso ressaltar que, sim, Pedro II era favorável à abolição, e tanto ele quanto Isabel trabalharam nesse sentido. A partir da lei Bill Aberdeen, que autorizava a Marinha britânica apreender navios suspeitos de tráfico, mesmo em águas brasileiras, em 1845, o imperador começou a tomar posição sobre a questão.

Em 1850, ele apoiou a decisão do ministério, liderado por Eusébio de Queirós, que dava fim ao tráfico no Brasil. Diante das notícias da Guerra de Secessão norte-americana, em 1864, Pedro enviaria orientações para o início do processo de abolição através de uma lei de libertação do ventre das mulheres negras escravizadas, permitindo que nascessem filhos já libertos.

Em correspondência à condessa de Barral, anunciando a ida à guerra de 260 ex-escravizados alforriados, Pedro escreveria:

“Tomara que já se possam libertar todos os escravos da nação, e providenciar a respeito da emancipação dos outros. Há de se lá chegar e grande será minha satisfação”

Trecho da carta de Pedro à Barral, presente no livro Perfis brasileiros: Pedro II (2007), de José Murilo de Carvalho.

O imperador adotaria a prática de alforriar e remunerar os negros e negras libertos, assim como boa parte dos chamados “escravos da nação”, a serviço do Império. Contudo, como ressalta  a pesquisadora Ilana Peliciari Rocha no livro Escravos da nação: O Público e o Privado na Escravidão Brasileira, 1760-1876, alguns destes trabalhadores viviam em péssimas condições, alimentavam-se mal, andavam “quase nus” e moravam aglomerados.

Em média, ainda segundo Rocha, havia 3.000 escravos da nação durante o Segundo Reinado, atuando em diversos estabelecimentos, como fazendas, fábricas, instituições militares e estabelecimentos administrativos.

É preciso lembrar que, durante o período da Guerra do Paraguai, este mesmo Pedro atuou na compra de escravizados para envio para o front de batalha, engrossando as fileiras do exército brasileiro.

“O próprio imperador incentivava a compra de escravos: ‘Forças e mais forças a Caxias’, escrevia ele em dezembro de 1866, ‘— apresse a medida de compra de escravos e todos os que possam aumentar o nosso exército’. Com efeito, a Casa Imperial não só libertava, nesse contexto, alguns cativos particulares, como ajudava na compra e indenização, revelando o caráter emergencial de empresa”

Trecho do livro As barbas do Imperador (1998), de Lilia Schwarcz

Em resumo

Há um risco grande na construção de narrativas para o grande público. Ao simplificar o discurso e apresentar personagens históricos, podemos incorrer numa romantização desnecessária.

Fruto de seu período, como já mencionamos anteriormente, a novela Nos tempos do Imperador constrói um Pedro II inspirador, abolicionista, apaixonado pelo Brasil. Sem dúvida, ele possuiu diversas qualidades mas que, em determinado momento histórico, tiveram suas limitações e contradições.

Entre o seu pragmatismo em relação à escravidão, ainda que apoiador do abolicionismo, e o seu amor pelo Brasil, que, embora seja factível, também tinha seus limites, possivelmente o Pedro real seria ainda mais interessante que sua versão romanceada.

Leia também (obras disponíveis na amazon)

Livro As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, de Lilia Schwarcz (CLIQUE AQUI)

Livro D. Pedro II, de José Murilo de Carvalho (CLIQUE AQUI)