O Senhor dos Anéis e o Rei Taumaturgo

Compartilhe
Cleber Roberto Silva de Carvalho
Especialista em História do Brasil - Faculdade Montenegro

Como citar este artigo:
CARVALHO, Cleber Roberto Silva de. O Senhor dos Anéis e o Rei Taumaturgo (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 12 de julho de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/08/30/o-senhor-dos-aneis-e-o-rei-taumaturgo. ISSN: 2317-9929. 

“- Rei! Você ouviu isso? Que foi que eu disse? As mãos de um curador, foi isso que eu disse. – E logo da Casa propagou-se a notícia de que o rei verdadeiro estava entre eles, e depois da guerra trouxera a cura, e as novas se espalharam pela Cidade”.

Esse trecho do livro “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, é do capitulo As Casas de Cura, logo após a Batalha dos Campos de Pelennor, quando muitos estavam sendo atendidos, entre eles Faramir e Éowyn.

Contudo é um trecho que pode ser inserido dentro de um dos melhores livros de História do grande historiador Marc Bloch, Os Reis Taumaturgos.

Segundo a tradição, na França e Inglaterra, o toque dos reis taumaturgos tinha o poder de cura sobre as escrófulas, que hoje os médicos designam a adenite tuberculosa, ou seja, as inflamações dos gânglios linfáticos provocadas pelos bacilos da tuberculose.

São nítidas as muitas influências históricas (inclusive religiosas) nas bibliografias da Terra Média, criada por J.R.R. Tolkien, que poderiam ser comentadas em várias postagens. Mas não sei dizer se Tolkien teve a intensão de reproduzir, ou influência, sobre a história dos reis taumaturgos ( o livro os Reis Taumaturgos é de 1924 e O Retorno do Rei é de 1955). Contudo muitos elementos tem muitas similaridades.

Então hoje vamos falar sobre alguns pontos, desse capítulo que é um pouco esquecido, pois não está na trilogia cinematográfica “normal” (digo normal com aspas pois há um pequeno trecho na versão estendida) na entrada de Aragorn nas Casas da Cura.

Após a Batalha nos Campos de Pelennor…

Haviam muitos feridos pela própria batalha, mas haviam feridos pelos feitiços dos aliados e servos de Mordor, como nos casos de Faramir e Éowyn, com vemos no trecho sobre o ferimento de Faramir: “- Ele está quase morto – disse Aragorn voltando-se para Gandalf. – Mas não por causa do ferimento. Veja! Está cicatrizando […] – Cansaço, tristeza pela disposição do pai, um ferimento, e acima de tudo o Hálito Negro – disse Aragorn”.

Os nazgûl exauriam um sopro conhecido como Hálito Negro que causava doenças e até mesmo a morte aqueles que eram expostos a ela.

E para fazer a cura Aragorn pediu uma erva pouco considerada pelo mestre-de-ervas, a athelas, ou folha-do-rei. E após correria para encontra-la uma pessoa, Bergil, conseguiu seis folhas, colhidas há algum tempo. Mas para Aragorn era suficiente.

A Cura Faramir, de Anke Eissmann

Ele amassou e soprou nas folhas e “imediatamente um frescor de vida encheu o quarto, como se o próprio ar tivesse despertado e estremecido, faiscando de alegria” e após isso colocou-as em tigelas com água fervente e “na mesma hora os corações ficaram mais leves” e em seguida “Aragorn se levantou reconfortado, e seus olhos sorriram no momento em que aproximou a tigela do rosto dormente de Faramir”

E não era somente o ar que melhorara: “de repente Faramir se mexeu, e abriu os olhos, fitando Aragorn que se debruçava sobre ele; uma luz de consciência e amor se ascendeu em seu olhar, e ele falou numa voz baixa. – O Senhor me chamou. Estou aqui. Qual é a ordem do meu Rei?”

Podemos lembrar de um trecho de “Rei Taumaturgos”, onde Marc Bloch reproduz um trecho de um texto de Gregório de Tours:

“Entre os fiéis, conta-se que uma mulher cujo filho sofria com uma febre quartã atravessou sub-repticiamente a multidão até o rei, aproximou-se dele por trás e, sem que o soberano percebesse, arrancou algumas franjas do manto real; ela colocou-as em água e fez o filho beber essa água. A febre logo baixou; o doente curou-se. De minha parte, não ponho a coisa em dúvida. De fato, eu mesmo vi, bem frequentemente, demônios que habitavam corpos possuídos gritar o nome desse rei e, denunciados pela virtude que emanava dele, confessar seus crimes”.

Esse trecho se refere ao rei francês Gontrão (século VI), filho de Clotário I, e “sua presença ou talvez a mera invocação do seu nome, bastava para liberar os possuídos”.

A Cura de Éowyn

Mas durante o ritual de cura, no ato taumatúrgico, os reis não ficavam em silêncio, como descrever Marc Bloch “os reis da França habituaram-se a acompanhar com algumas palavras sagradas o duplo gesto tradicional. Geoffroy de Beaulieu relata que S. Luís, ao tocar as partes enfermas, pronunciava determinadas palavras ‘adequadas à circunstância e sancionadas pelo costume, ademais perfeitamente santas e devotas’”.

Este trecho faz lembrar da cura feita por Aragorn à Éowyn, ela tinha um braço quebrado, mas o pior ferimento se encontrava no branco da espada, que ela golpeou o Rei Bruxo de Angmar, mais poderoso dos nazgûl, mas que, além de ser atingida pelo grande poder sombrio do nazgûl, a muito já sofria, sendo envenenada, também, pelas palavras de Língua de Cobra.

Éowyn nas Casas de Cura dos Irmãos Hildebrandt.

E neste trecho Aragorn a beijou na testa e proferiu “- Éowyn, filha de Éomund, desperte! Seu inimigo foi-se embora!”.  Como naquele momento não teve resultado, ele fez outro preparo com athelas com a água, banhou a testa de Éowyn com a infusão, como também o braço esquerdo. Após um breve tempo Aragorn proferiu “- Desperte, Éowyn, Senhora de Rohan! – disse Aragorn de novo, tomando-lhe a mão direita com a sua e sentindo-a quente, voltando à vida”.

Como dito anteriormente, não sei dizer se Tolkien teve influências, ou não, da história dos reis taumaturgos, mas esse trecho, tem suas influências com a História. Vale a pena a leitura dos dois livros.

Referências bibliográficas:

Marc Bloch. Os Reis Taumaturgos. Companhia das Letras, 1993

John Ronald Reuel Tolkien. O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei. Editora Martins Fontes, 2000.