O que Odorico Paraguaçu tem a ver com o Brasil de hoje?

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O mais importante, relevante, extraordinário e impressionantemente atual de O Bem-Amado é o enredo.


Teresa Leonel
Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas (UFPB)
Professora no curso de Jornalismo em Multimeios (UNEB/Juazeiro-BA)


Tudo. Esta é a resposta do questionamento dessa coluna. Quase 50 anos depois da exibição da telenovela O Bem-Amado (Dias Gomes, 1973, TV Globo)[1], parece ser extremamente importante ver e conhecer uma obra tão significativa do ponto de vista cultural, social e político. Assim, qualquer assinante de uma conta Globoplay[2] pode acompanhar na plataforma streaming os 178 capítulos originais da primeira novela brasileira colorida.

Desconsiderando o som, um pouco sofrível para os ouvidos acostumados com o acústico do digital, o mais importante, relevante, extraordinário e impressionantemente atual de O Bem-Amado é o enredo. Numa narrativa bem contemporânea, maquiavélica e extravagante a novela traz o personagem Odorico Paraguaçu, vivido pelo ator Paulo Gracindo (1911-1995), como prefeito de Sucupira, uma cidade fictícia ambientada no litoral da Bahia.

O executivo tem um perfil de um político ambicioso e doente pelo poder, manipulador, corrupto, demagogo e psicótico. Além disso, ele representa a figura dos coronéis: “políticos e fazendeiros que exerciam autoridade sobre a população local e agiam com força, falta de escrúpulos e demagogia para se perpetuar no poder” (Memória Globo, 2021)[3].

No enredo, Odorico tem como plataforma de campanha e de governo a construção e inauguração de um cemitério na cidade. E para realizar esse objetivo, o prefeito usa de todas as estratégias inconsequentes, ardilosas e maquiavélicas. Trapaceia, mente, cria conflitos entre famílias, estimula pessoas ao suicídio, posa de baluarte da moral e bons costumes e se diz ser o melhor exemplo de político para a cidade, quiçá para o país.

É preciso registrar ainda que boa parte da população está enganada, iludida (assim parece), mas consegue endeusar a figura patética do prefeito de modo a contribuir para a perpetuação da sua performance política.

A gravidade das artimanhas criadas e executadas por Odorico pode ser vista pelos telespectadores/internautas com um toque de leveza em função da interpretação primorosa do ator Paulo Gracindo, um ícone da dramaturgia brasileira, e o fato dele contracenar com outros atores como Lima Duarte, 91 anos e Jardel Filho (1928-1983).

No entanto, o pano de fundo da trama, uma crítica com humor à ditadura militar na época, traz alguns elementos vivenciados pela população brasileira nos tempos atuais.

  1. O comportamento controlador e de superioridade do prefeito são alguns deles. Considerando o seu propósito de se manter no poder, faz uso de toda e qualquer narrativa que desqualifique as pessoas que pensam diferente dele.
  2. A construção de um ambiente conflituoso entre os poderes, as instituições e a sociedade. A imprensa é um dos alvos. Além disso, a imposição de se colocar acima da Lei.
  3. A manipulação de pessoas que estão no seu entorno e que são usadas para alcançar os seus propósitos.
  4. Machismo, racismo, misoginia, egoísmo, exibição e perseguição.
  5. Construção de narrativa pacificadora inverossímil para provocar resultados conflitantes.
  6. Pregação de uma fé religiosa e uso dela para convencer pessoas, e a própria instituição religiosa, das suas boas “intenções”.
  7. Estratégias de planos mirabolantes que levam pessoas a conflitos, desarmonia e até a morte.

“Mas, vamos botar de lado os ora veja e o virgem santíssima e vamos direto pro negócio é o seguinte” (texto da novela). A construção do personagem Odorico Paraguaçu está calçada na ideia de uma figura psicopata, com transtorno mental e que interpreta e realiza os seus objetivos em detrimento de qualquer que seja a situação.

Posa de figura com boas intenções e quer justificar o seu modus operante como um feito necessário para alcançar um bem maior para coletividade, quando na realidade esse resultado diz respeito apenas em atender o seu próprio desejo. O pensamento fixo e obstinado em algo estimula qualquer que seja a estratégia para alcançar o alvo, ainda que esse caminho passe pelo aniquilamento de qualquer pessoa.

“E é com a alma lavada e enxaguada” (texto da novela) de tristeza que se pode entender que os Odoricos da nossa época são tão semelhantes ou piores que o Odorico Paraguaçu de Dias Gomes. O assustador disso tudo é imaginar que a autor da obra queria tanto fazer uma ficção brasileira, mas, no entanto, retratou, para nós todos, uma realidade trágica que se tornou verdadeira e só começou a ser percebida (apenas) em 2018 e que se arrasta (esperamos) até 2022.

Como citar este artigo:
LEONEL, Teresa. O que Odorico Paraguaçu tem a ver com o Brasil de hoje? (Coluna). IN: O Historiante. Publicado em 02 de Setembro de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/09/02/o-que-odorico-paraguacu-tem-a-ver-com-o-brasil-de-hoje/. ISSN: 2317-9929.

Sobre a colunista

Teresa Leonel é doutoranda em Comunicação no PPGCOM da UFPE. Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas pela UFPB. Jornalista, radialista e cientista social. Professora no curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro. Autora do livro Blog do Noblat: estilo e autoria em jornalismo (Appris: 2015). Área de pesquisa: jornalismo, mídias sociais, narrativas noticiosas em WhatsApp, Teoria Ator-Rede


Notas

[1] Autoria: Dias Gomes | Supervisão: Daniel Filho | Direção: Régis Cardoso | Período de exibição: 22/01/1973 – 03/10/1973 | Horário: 22h | Nº de capítulos: 178. Fonte: https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/novelas/o-bem-amado/

[2] https://globoplay.globo.com/

[3] https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/novelas/o-bem-amado/trama-principal/