Qual o legado de Marília Mendonça?

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Ela abriu um debate já posto na sociedade, mas camuflado pelos intelectuais e os detentores do saber comportamental: o feminejo e a sofrência nossa de cada dia.


Teresa Leonel
Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas (UFPB)
Professora no curso de Jornalismo em Multimeios (UNEB/Juazeiro-BA)


Quando a dor de uma mulher é compartilhada com outras mulheres ganha uma dimensão não mensurada. O status chama atenção porque faz parte da realidade de muitas mulheres que estão ou ficaram caladas por questões sociais, preconceituosas ou sexistas. No entanto, a cantora, compositora e instrumentista, Marília Mendonça, narrou com alma, sapiência e harmonia esse sentimento.

A amante, a outra, traição, ciúmes, egoísmo, desprezo e negação são temáticas que sempre fizeram parte do cenário musical brasileiro, mas quando abordados em versos e músicas do gênero sertanejo pela voz de Marília, ganhou lugar de destaque no coração do público feminino e até mesmo do masculino.


Com a sua morte, no dia 05 de novembro de 2021[1], se abriu um debate já posto na sociedade, mas camuflado pelos intelectuais e os detentores do saber comportamental: o feminejo e a sofrência nossa de cada dia.

Nem bem a moça de 26 anos foi dada como morta, depois do trágico acidente que vitimou não apenas ela, mas, o tio, o produtor, o piloto e copiloto, as especulações midiáticas sobre Marília, sua música, sua vida, seu estilo nada convencional e o seu jeito de ser mulher foram escancaradas nas redes sociais, portais e conglomerados comunicacionais.

A personagem Marília Mendonça foi (está sendo) explorada, midiaticamente, visando conquistar audiência com a sua morte. Afinal, a cantora é um case de sucesso. Alcançou, em 2020, algo em torno de 3,31 milhões de webespectadores simultâneos. A maior audiência em live no mundo[2]. Mendonça tem mais seguidores no Spotify que os Beatles e Michael Jackson. Mas, é preciso ter um olhar atento e fora da euforia da mídia para pensar o legado que a cantora deixa, especialmente, para nós, mulheres.

Marília ecoou sua voz rouca e afinada em praça pública, num projeto musical arrojado e singular com o título Todos os Cantos. Um roteiro de shows gravados em todas as capitais do Brasil durante os anos de 2018 e 2019. Cantou de graça para os fãs, a maioria mulher, representando todas as classes sociais de A a Z. Fez corpo a corpo, junto ao povo, circulando nos centros das cidades, mostrando a intimidade que as suas canções sempre apresentaram e que as redes sociais ratificavam.

A “Rainha da sofrência”, como já está intitulada, assume um lugar de fala no cenário musical, quebrando uma hegemonia masculina no gênero sertanejo e trazendo o neologismo feminejo para o centro do debate. Isso deve ganhar mais força, ainda, agora que o termo já está carimbado com a cara dela e a própria mídia já se rendeu ao feito.

Deve mudar também o próprio conceito na Wikipédia. Embora traga em sua definição a cantora como uma das maiores representantes do gênero, a inferioridade está marcada no conceito. Assim, a enciclopédia livre diz que “o feminejo é um subgênero da música sertaneja que enfatiza as mulheres, seja pelas temáticas femininas ou pela atuação de cantoras e compositoras[3]“.  Subgênero? Que horror!!


Na realidade o “feminejo” é um movimento que promove o empoderamento feminino por meio de músicas sertanejas[4]. Já tá na hora das mulheres mexerem os algoritmos da Wikipédia para alterar o conceito que fora definido, quiçá, pelos homens.

Mas, qual é mesmo o legado que Marília Mendonça deixa pra gente? Pode ser o empoderamento da mulher em todos os espaços. A escolha do estilo que cada uma se propõe a ser. A singularidade no falar, escrever e cantar. A quebra dos estereótipos definidos por uma estética de beleza midiática. A afirmação de um gênero musical feminejo que vai além da música e cria tendências culturais. Pode ser tudo isso misturado e mais coisas que a gente não conhece ainda.

No entanto, existem alguns elementos importantes que devem ser destacados nesse legado. Mendonça fala da paixão, do sentimento e da sofrência das mulheres em geral, mas, sobretudo, para aquelas que nunca tiveram voz, coragem e ousadia de colocar pra fora a dor de uma traição. A mulher que é a outra e, portanto, nunca será escolhida. Que é usada na cama e nas madrugadas, mas jamais apresentada em público.  

É uma ciumeira atrás da outra
Ter que dividir seu corpo e a sua boca
Tá bom que eu aceitei por um instante
A verdade é que amante não quer ser amante[5].

Ela retrata o machismo estrutural que penetra nas entranhas da sociedade e é apoiado por muitos homens como algo da natureza. A mulher é propriedade e  por isso usada como objeto de domínio masculino.

Pra você isso é amor
Mas pra ele isso não passa de um plano B
Se não pegar ninguém da lista, liga pra você
Te usa e joga fora.


Ele tá fazendo de tapete o seu coração
Promete pra mim que dessa vez você vai falar não
De mulher pra mulher, supera
De mulher pra mulher, supera[6]

A traição é outro tema forte em suas músicas. Ela mostra a quebra da fidelidade prometida. Da relação construída entre duas pessoas que se permitem amar e que quando isso não mais acontece o outro, nesse caso o homem, faz da infidelidade o seu passaporte do desrespeito. O resultado é a dor na mulher.

Iê, infiel
Eu quero ver você morar num motel
Estou te expulsando do meu coração
Assuma as consequências dessa traição


Iê, iê, iê, infiel
Agora ela vai fazer o meu papel
Daqui um tempo, você vai se acostumar
E aí vai ser a ela a quem vai enganar
Você não vai mudar.[7]

No legado dessa mulher, muitas outras mulheres estão representadas, sobretudo, aquelas cujas vozes estavam trancadas em algum quarto solitário, chorando suas perdas e traições, vivendo uma sofrência sem limites. Pegando os cacos do coração destruído e colando os pedaços da esperança para superar a dor. A voz rouca, forte e segura de Marília vai ecoar por muito tempo na vida de muitas mulheres. Ela está na memória.  Ela está na história.

Sobre a colunista

Teresa Leonel é doutoranda em Comunicação no PPGCOM da UFPE. Mestra em Comunicação e Culturas Midiáticas pela UFPB. Jornalista, radialista e cientista social. Professora no curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro. Autora do livro Blog do Noblat: estilo e autoria em jornalismo (Appris: 2015). Área de pesquisa: jornalismo, mídias sociais, narrativas noticiosas em WhatsApp, Teoria Ator-Rede


Notas

[1] https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2021/11/05/marilia-mendonca-morre-apos-queda-de-aviao-em-minas-gerais.ghtml

[2] https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2020/12/4896958-marilia-mendonca-tem-live-mais-vista-do-mundo-menos-e-mais-o-2-video.html

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Feminejo

[4] https://educacao.uol.com.br/noticias/2021/11/07/jornalista-enfrentou-preconceito-ao-estudar-feminejo-de-marilia-mendonca.htm?cmpid=copiaecola

[5] Estrofe da música Ciumeira. Composição de Ray Antonio / Guilherme Ferraz / Sando Neto / Everton Matos / Diego Ferrari / Paulo Pires

[6] Estrofe da música Supera.ComposiçãodeClayton Follmann / Fernando De Moura / Hugo Del Vecchio Breiner / Renan De Moura

[7] Estrofe da música Infiel. Composição de Marília Mendonça