A escravidão na Roma Antiga

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Estima-se que mais de 30% da população da Roma Antiga era formada por escravizados.

Da Redação
Com informações de El País

A escravidão na Roma Antiga implicava uma quase absoluta redução nos direitos daqueles que ostentavam essa condição, convertidos em simples propriedades dos seus donos. Com o passar do tempo, os direitos dos escravos aumentaram. Contudo, mesmo depois da alforria (manumissio), um escravo liberto não possuía muitos dos direitos e privilégios dos cidadãos romanos.

Para o historiador Moses Finley, a Antiguidade era “uma sociedade de escravos”, na qual milhões de pessoas não possuíam absolutamente nada, não eram donas de sua vida nem de sua vontade.


As estimativas em relação à proporção de escravos na população do Império Romano são variáveis. A porcentagem da população da Itália que vivia como escrava varia de 30 a 40 por cento no século I a.C., totalizando de dois a três milhões de escravos até o final do século I a.C., entre 35%-40% da população italiana da época (dados da Enciclopedia Britânica)

Segundo as leis romanas, estas pessoas escravizadas podiam ser assassinadas, violadas, obrigadas a trabalhar até a exaustão, frequentemente sendo separadas de suas famílias. Viviam submetidas ao medo constante de serem vendidas ou maltratadas, mas acima de tudo eram consumidas pelo desejo de liberdade.

Tipos de escravidão

Mosaico romano de Duga, Tunísia (século II): os dois escravos carregando jarras de vinho usam vestimenta típica de escravos e amuleto contra mau-olhado no pescoço. O jovem escravo à esquerda carrega água e toalhas, e o da direita carrega um cesto de flores

Um escravo era um bem que era possuído, despojado de todo direito. O dono possuía o direito sobre a sua vida e a sua morte. O termo “manus” simbolizava o domínio do dono sobre o escravo, do mesmo modo que o domínio do marido sobre a sua esposa.

Convertia-se em escravo por dívida, como prisioneiro de guerra, por atos de pirataria ou por mau comportamento cívico. Uma criança nascida de escrava tornava-se também escrava.

A condição real dos escravizados era variável, segundo a proximidade do amo: os escravos agrícolas dos villae ou das minas eram muito mal-tratados; os escravos domésticos (ancillae) que viviam com a família eram mais favorecidos e muito com frequência libertos após um certo período.


Os romanos consideravam a escravidão como infame, e um soldado romano preferia suicidar-se antes de cair escravo de um povo bárbaro, ou seja, não romano.

Embora quase sempre realizassem os trabalhos mais duros e perigosos, nem todas as pessoas escravizadas viviam nas mesmas condições —não era a mesma coisa ser professor do que trabalhador em uma mina de sal ou uma escrava sexual— mas todos eram submetidos ao martírio, não apenas físico, mas também psicológico: eram obrigados a fazer o que seus senhores lhes ordenavam na hora em que o pediam.

Podemos ter uma dimensão disso a partir de registros materiais recém descobertos em Pompéia, e que datam do primeiro século da Era Comum.

Vestígios materiais

Quarto para escravos descoberto no sábado passado em Pompeia.
PARQUE ARQUEOLÓGICO DE POMPEYA / EFE

A equipe arqueológica de Pompeia anunciou no sábado, 6 de novembro, a descoberta de um quarto que certamente era ocupado por escravizados. É um espaço de 16 metros quadrados com três camas e alguns objetos, na vila de Civita Giuliana, que ainda está em escavação, na cidade soterrada pela erupção do Vesúvio no ano 79 da nossa era.

O cômodo, que tinha apenas uma pequena janela na parte superior e carecia de decoração nas paredes, devia ser quarto e despensa ao mesmo tempo. Os objetos que contém, quando forem estudados, permitirão conhecer melhor a vida cotidiana de seres humanos que representavam grande parcela da população, cuja contribuição para a economia era essencial.

“Embora saibamos que os escravos foram explorados na maioria das sociedades, houve apenas cinco genuínas sociedades escravistas, duas delas na Antiguidade: Grécia e Roma”.

Moses Finlay

Vestígios escritos

A presença de pessoas escravizadas é uma constante na literatura latina, desde Satíricon, de Petrônio, a O asno de ouro, de Apuleio.

Uma história que resume a brutalidade com que Roma tratava seus servos é a do assassinato das 400 pessoas escravizadas por Lúcio Pedânio Segundo, que Tácito aborda no livro XIV de seus Anais.

Pedânio Segundo foi um prefeito de Roma que foi assassinado por um de seus servos na época de Nero, no século I de nossa era. “Segundo o antigo costume, era usual que todos os escravos que tivessem vivido sob o mesmo teto fossem levados ao suplício”, escreve o historiador Tácito (55-120) nos Anais.


A ordem provocou grandes tumultos em Roma, certamente devido à grande presença de libertos na população. Aconteceu uma discussão pública a favor e contra o massacre, durante o qual Caio Cássio Longino pronunciou um discurso que reflete perfeitamente a mentalidade de muitos romanos em relação às suas posses humanas.

“Nossos antepassados desconfiavam da maneira de ser dos escravos, apesar de estes nascerem nos mesmos campos e casas que eles e receberem imediatamente o carinho dos seus senhores. Pois bem, uma vez que temos em nossas famílias de escravos nações com diferentes ritos, com religiões estrangeiras ou carentes delas, toda essa bagunça não pode ser reprimida a não ser com medo. É verdade que alguns inocentes morrerão. Mas quando um em cada dez de um exército que fugiu é espancado até a morte, os corajosos também entram na loteria. Todo grande castigo tem algo de injusto, mas o que vai contra cada um em particular é compensado pelo interesse geral”.

Crônica de Tácito nos Anais

A execução foi confirmada, mas não podia ser realizada porque a multidão impedia a passagem das vítimas até o patíbulo. O imperador Nero, indignado, mobilizou suas tropas para permitir que o massacre fosse levado a cabo.

A Revolta de Espártaco foi uma das mais importantes insurreições servis na Roma Antiga.
(Cena do filme “Spartacus”, de Stanley Kubrick).