“Admirável gado novo” e suas referências históricas

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Ao cantar que o “povo feliz” tinha uma “vida de gado”, Zé Ramalho fez uma crítica épica à Ditadura Militar

Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Como citar este artigo:
MAGALHÃES, Pablo Michel Cândido Alves de. “Admirável gado novo” e suas referências históricas (artigo). IN: O Historiante. Publicado em 23 de novembro de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/11/23/admiravel-gado-novo-e-suas-referencias-historicas/.  ISSN: 2317-9929.

A presença da música “Admirável gado novo” em uma das questões do Enem 2021 causou sensação nas redes. Contrariando a intenção do presidente Jair Bolsonaro, de controlar a formulação do exame e dar a sua “cara” à avaliação, o Inep mostrou mais uma vez que a intertextualidade é uma marca característica do Enem.

Por ocasião deste fato, vamos fazer um passeio sobre as simbologias narrativas nesta excelente música de um dos maiores compositores brasileiros.

O criador do gado

Zé Ramalho no início da carreira / Créditos: letras.mus.br

Em 1979, Zé Ramalho lançou um álbum que seria referência em sua carreira musical, “A peleja do Diabo contra o Dono do Céu”. Num estilo único, as músicas marcaram uma geração, em especial a canção “Admirável gado novo”.

Nesta época, Zé Ramalho era ainda um jovem músico em início de carreira. Nascido na pequena cidade paraibana de Brejo de Cruz, em 3 de outubro de 1949, filho de Estelita Torres Ramalho, uma professora do ensino fundamental, e Antônio de Pádua Pordeus Ramalho, um seresteiro (seresta é um estilo musical boêmio e romântico, muito apreciado na Paraíba e Pernambuco).


Em 1976, ele abandonaria o curso de medicina na Universidade Federal da Paraíba para seguir rumo ao Rio de Janeiro, onde de fato cresceu artisticamente.

Vivendo a transição entre os governos militares de Ernesto Geisel (1974 – 1979) e João Figueiredo (1979 – 1985), Zé compôs uma canção crítica sobre a passividade social que enxergava nos brasileiros, usando a figura de linguagem “gado” como metáfora.

Huxley + Ramalho

Aldous Huxley

É inegável não compreender a conexão entre a canção e a distopia clássica de Aldous Huxley, “Admirável mundo novo”. Neste livro, a sociedade é controlada por meio do uso da droga “soma”, que era injetada nos indivíduos e eliminava os sentimentos de dúvida ou manifestação contra o sistema.

Não possuindo valores éticos ou morais, a sociedade distópica de Huxley garantia que os indivíduos permanecessem controlados com a droga da felicidade, uma espécie de comunidade de seres autômatos, contentes em desempenhar o papel que lhes fora designado.

O rebanho cantado por Zé Ramalho se aproxima dessa sociedade utópica de Huxley. O gado não se revolta, não faz manifestações, apenas seguem a toada do aboiador. Como na literatura, o Regime Militar buscava produzir tal efeito, mantendo suas estruturas de controle.

Analisando a canção “Admirável gado novo”

No trecho “Vocês que fazem parte dessa massa / Que passa nos projetos do futuro”, Zé Ramalho reforça a relação com a distopia de Huxley, ao mesmo tempo em que critica “os projetos do futuro”, alusão à propaganda desenvolvimentista da Ditadura como “pra frente Brasil”.

Há ecos da crítica marxista ao capital em “É duro tanto ter que caminhar e dar muito mais do que receber”. No conceito de mais-valia, compreendemos que a riqueza produzida pela mão-de-obra é muito maior do que o salário recebido.

Zé Ramalho também vislumbra o fim do Regime Militar quando canta “E ver que toda essa engrenagem, já sente a ferrugem lhe comer”. É necessário lembrar que a “abertura lenta, gradual e segura” havia sido iniciada, e desde críticos a apoiadores do regime já identificariam o princípio do fim da ditadura no Brasil.


Podemos ver outra referência à alienação no trecho “O povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela. E sonham com / melhores tempos idos, contemplam essa vida numa cela”.

A ignorância, nesse caso, é programada. A propaganda oficial alimenta a desinformação, e o Regime Militar investe em narrativas fantasiosas no rádio e na TV para criar uma tranquilidade inexistente. Os que “contemplam essa vida numa cela” podem ser tanto a população em geral, numa espécie de cela metafórica, ou mesmo os perseguidos pela ditadura, trancafiados nos porões da tortura.

Mas, sem dúvida, seu refrão é o ponto alto: “Eh, oô, vida de gado, povo marcado, eh, povo feliz”. O compositor observa que, tal como o gado nos pastos, o povo é marcado (pela dureza da vida, pelo trabalho cansativo, pela falta de perspectivas).

Contudo, mesmo assim, permanece feliz. Talvez, porque encontramos a felicidade em coisas simples, cotidianas, uma cultura brasileira alegre; ou talvez (e nisso concordo mais), os meios utilizados pelo sistema estariam alienando as pessoas da realidade, fazendo-as seguir adiante, sem questionar, sem pensar, como no livro de Aldous Huxley.