O que é fonte histórica?

                                                                                                                                                  

  

 

26/10/2013

O que é fonte histórica?

 

Prof. Neto Almeida

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Recentemente a exumação do corpo de D. Pedro I e de suas mulheres devido a um trabalho da pesquisadora em Arqueologia e História, Valdirene do Carmo Ambiel, trouxe à tona a discussão daquilo que é ou não fonte histórica.

 

 

Detalhe do rosto de dona Amélia; os corpos de três membros da família imperial brasileira --d. Pedro 1º, sua primeira mulher, d. Leopoldina, e a segunda, d. Amélia-- foram exumados e submetidos a análises físicas, químicas e a exames de imagem na Faculdade de Medicina da USP

 

 

A pergunta não é nova, mas as questões geradas por ela têm sido costumeiramente partilhadas por estudantes, principalmente aqueles dos ensinos fundamental e médio. Ora, quando um objeto da minha casa, comum a todas as casas, deixa de ser um simples objeto de uso comum e torna-se uma aclamada fonte histórica? A resposta é simples: quando o tempo presente requer alguma resposta sobre o passado. Imagine uma cama, objeto comum em todas as casas do Brasil, tornando-se alvo de uma pesquisa histórica. Ela poderia mostrar diversos rastros do homem, não apenas daqueles indivíduos que a utilizam diretamente, mas nos contar sobre a humanidade. Então, vejamos, uma cama, que não necessariamente foi utilizada por alguém famoso, pode responder questões como: o modo como os homens lidam com o momento do repouso ao longo de sua história ou como os estilos diferentes de cama podem revelar diferentes níveis sociais.

 

Perceba - a fonte histórica não precisa necessariamente ser um documento escrito, como privilegiavam os historiadores do século XIX; muito menos precisa ser um documento oficial, expedido pelo Presidente, digitado pelo chefe de polícia ou datilografado pelo escrivão. Estes podem e devem ser utilizados como fontes, resquícios, rastros do passado, porém não única e exclusivamente, pois como recusar as múltiplas respostas que o diário íntimo de uma pessoa revelaria sobre o cotidiano ou suas experiências com o mundo.

 

Ora, então pensamos: se a fonte histórica não se resume ao papel escrito e oficial, qualquer objeto poderá ser fonte histórica? Talvez se torne complexo demais perceber uma historicidade em casa ‘coisa’ que utilizamos durante o dia, contudo a resposta para a última questão é exatamente afirmativa, pois tudo aquilo que é produzido pelo homem conta a história dele. Com uma ressalva: uma caneta, um computador, uma bolsa ou um celular por si sós não remetem a nada. O próprio momento de transformar estes objetos em fonte histórica é característico da ação humana. É preciso que o homem no sentido de humanidade perceba como estes artefatos ajudam a contar mais sobre ele mesmo (o homem). São as inquietações, perguntas, dúvidas, angústias desse sujeito que transformam estes objetos de senso comum em uma dada fonte da História.

 

Mas nem sempre foi assim, como dito anteriormente, no século XIX e início do século XX havia um privilégio da cultura letrada por documentos escritos. Foi justamente com os historiadores da famosa Escola dos Annales que se iniciou o processo de alargamento ou conceituação de fonte histórica. Não significa que somente a escola francesa proporcionou essa abertura à utilização de outros objetos, mas foram suas contribuições que alertaram os historiadores procedentes para novos meios de obter respostas para suas perguntas.

 

Em síntese, a fonte histórica está ligada mais aos interesses do presente do que do passado, pois as perguntas lançadas aos artefatos são inquietações contemporâneas. Apesar de haver uma ampla apropriação dos objetos como fonte, não significa que não existam critérios nas escolhas de uma ou outra fonte. Por exemplo, dependendo da abordagem, as atas de reuniões podem revelar mais sobre uma instituição do que suas tabelas financeiras.

 

A fonte escrita ainda prevalece na perspectiva de doar ‘valor de verdade’, mas já superamos a desconfiança sobre outras tipologias. É o caso das imagens como: fotografias, pinturas, fachadas, etc., que podem servir como instrumentos na transformação de rastros do passado em fatos, sendo muito mais do que identificação das características das escolas artísticas, esse material pode interagir com pesquisadores que intentam historicizar as formas de pensar ou de representar de muitos artistas no contexto de produção de suas obras, sendo estes, meios para entender a sociedade e o homem. O que é capaz de revelar uma fotografia, suporte de uma imagem estática, em detrimento de um texto descritivo sobre o mesmo alvo fotografado?

 

As fontes históricas podem, ao mesmo tempo, ser alvo de questionamento e, como em uma via de mão dupla, retornar questões ao interrogador. Por exemplo, pode ser estudada a história dos jornais, ou de um jornal específico, utilizando diretamente o jornal como objeto e simultaneamente este ser a fonte histórica.

 

 

Lembrar, esquecer, manter vivo na memória são termos identificados. Seria então a memória uma tipologia de fonte? Os historiadores que se debruçam a estudar a história a partir da memória pensam ser essa fonte uma possibilidade de entender como emoções, traumas, sensações puderam chegar até o presente, dentro de uma dimensão seletiva que constrói, modela e reconta na memória o passado. Ciente que esta fonte tem o mesmo caráter das outras tipologias, não é necessário, um estudo comparativo para doar ‘valor de verdade’ ao que se diz ou é lembrado. Não importa a veracidade do que é lembrado, mas o que a memória guardou e construiu ao longo do tempo.

 

Foto manipulada de Stálin

 

Por fim, queria nesse rápido percurso alertar para o cuidado da fonte alterada. Não é de hoje que controlar aquilo que se diz sobre o passado interessa. Inúmeros exemplos de indivíduos que forjaram suas fontes já são bem conhecidos. A famosa fotografia de Stálin que mandou apagar das fotos aliados políticos que foram se tornando inimigos do governante russo;  o túmulo de faraó que tinham nas placas inscrições rasuradas e por cima colocadas novos nomes de construtores e proprietários; ou o diário falso de Hitler dos anos 80; são bons exemplos para manter sobre sob alerta a criticidade sobre o material que se quer estudar.

 

(Texto do Prof. Neto Almeida, da redação d'O Historiante)

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