A glória esperada de uma guerra rápida e a ponta do iceberg em Sarajevo

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Texto 1 – Série Primeira Guerra Mundial

Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciado em História - UPE
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM
Mestre em História - UEFS

Tiros em Sarajevo. No automóvel, o arquiduque Francisco Ferdinando e a duquesa Sofia foram atingidos e, dentro de não muitos minutos, o casal estaria morto em função do atentado. Gravilo Princip fora imediatamente preso, logo após disparar com sua pistola semi-automática 9×17 mm, e em seu julgamento declarou: “sou um nacionalista iugoslavo, e acredito na unificação de todos os eslavos do Sul sob qualquer forma de estado que seja livre da Áustria”.

A partir desse evento, uma série de acontecimentos em cadeia compuseram aquilo que conhecemos hoje como a Grande Guerra ou Primeira Guerra Mundial. Há, porém, um engano muito comum: o assassinato do arquiduque do Império Austro-Húngaro não foi, sozinho, o motivo para desencadear a guerra, que devastou a Europa entre 1914 e 1918. Obviamente, a morte de um líder político europeu em um atentado foi algo bombástico e sacudiu a sociedade no velho continente, mas, por trás disso, uma série de outros elementos faziam parte da vida política nos países europeus, contribuindo para que, um mês após o assassinato de Francisco Ferdinando, a guerra fosse deflagrada.

DAR UM PASSO ATRÁS, PARA ANDAR DOIS PASSOS À FRENTE.

Bom, pra entender isso, vamos ter de regressar um pouco no tempo, lá para a década de 1870. Uma outra guerra, a Franco-prussiana, havia manchado de sangue o continente europeu. Nela, a França e o reino da Prússia se enfrentaram por quase um ano. Os motivos para os enfrentamentos estavam relacionados com as disputas e o equilíbrio de poderes entre as nações europeias. A Alemanha, enquanto país, não existia, e os vários ducados e principados que existiam na região passaram por um processo de unificação, tendo como principal líder o reino da Prússia e seus dirigentes, em especial o senhor Otto Von Bismarck, militar hábil e famoso em sua época. Na França, Napoleão III vivia um período de instabilidade política, e via (bem como demais dirigentes do país) na unificação alemã um perigo ao equilíbrio de forças entre nações na Europa.

A Espanha, com o trono vago em virtude da abdicação de Isabel II, ofereceu a coroa a Leopoldo, primo do rei Guilherme I da Prússia. Isso enfureceu os franceses, que viam o aumento de poder da família Hohenzollern ao integrar dois reinos sob a mesma casa real. Após várias protestos de Napoleão III, Leopoldo desistiu da coroa espanhola; não satisfeito, o imperador francês exigiu que Guilherme I desse garantias de que os prussianos da família Hohenzollern jamais pretenderiam concorrer ao trono espanhol. Ainda sem conseguir se satisfazer, Napoleão exigiu que novas garantias fossem negociadas, agora com o embaixador Benedetti da França. A isso, o rei prussiano se recusou.

Aí entra a astúcia de Bismarck. Tendo em vista a conquista da Alsácia-Lorena (região pertencente à França, porém, com população de maioria alemã) para completar o processo de unificação alemã, ele interceptou e adulterou o telegrama de Ems, enviado por seu rei para Napoleão III. Após as alterações e resumos que fez, juntamente com seus colaboradores, Bismarck transformou um comunicado diplomático, onde há uma recusa de Guilherme I em receber o embaixador francês para mais um dos vários encontros que propunha, em um carta ofensiva aos franceses. Logo a resposta veio, e a guerra entre as duas nações teve início.

A Prússia sairia vitoriosa desta batalha, e Otto Von Bismarck alcançaria o que queria: a anexação do último território pretendido para a unificação alemã, a Alsácia-Lorena. Em uma solenidade no Palácio de Versalhes, Guilherme I foi declarado imperador, e Bismarck anunciaria o início daquilo que seria conhecido como o segundo Reich, o Império alemão. O tratado de guerra assinado por França e, agora, Alemanha, deixava o país derrotado em uma posição humilhante, ocupado pelos exércitos prussianos e obrigado a pagar uma indenização de cinco bilhões de francos aos alemães.

Não preciso dizer que a França ficaria com um sentimento de revanchismo por muito tempo, e logo passou a tecer alianças com outros países europeus. O Império alemão também não ficou atrás, e estabeleceu uma série de tratados com demais nações europeias.

AS ALIANÇAS DEPOIS DA GUERRA

Por meio da diplomacia de Bismarck, os alemães montaram a Liga dos Três Imperadores (Alemanha, Áustria-Hungria e Rússia). O chanceler alemão ainda reestruturou a aliança defensiva com a Áustria em 1889, à qual a Itália também aderiu, em 1892. Com o Tratado de Ressegurança, Rússia e Alemanha prometiam permanecer neutras  em caso de guerra com um terceiro país, a não ser que a Alemanha atacasse a França, ou a Rússia atacasse a Áustria (ao assumir o trono, Guilherme II se desentendeu com Bismarck e o demitiu da chancelaria. Este novo imperador se revelaria um péssimo estrategista. Ele acabou não renovando o tratado com a Rússia, um erro que, futuramente, seria crucial).

A França trabalhou longamente no campo da diplomacia. Assinou o Tratado de Aliança Franco-Russo, em 1892-1893, seguido pelo acordo firmado com a Grã-bretanha, após resolver as disputas em relação às colônias na África. Em 1894, celebraram a chamada Entente Cordiale. Em 1907, com a união de Grã-Bretanha e Rússia em um tratado, construiu-se a Tríplice Entente.

A Alemanha, sob a liderança de um Guilherme II sedento por glórias, mas sem vocação para a batalha, se aliou ao agonizante Império Austro-Húngaro, enfraquecido pela questão dos Bálcãs e que administrava muito mal sua diversidade étnica. A população eslava do Sul do território imperial manifestava-se contra a soberania dos austríacos, dando origem ao movimento pan-eslavista, que, por sua vez, fomentou a formação de grupos nacionalistas para libertação dos sérvios, como a sociedade Mão Negra, que praticava o terrorismo como forma de luta contra a dominação do Império Austro-Húngaro (era dessa sociedade secreta que o Gravilo Princip fazia parte, e num ataque coordenado por ela é que o estudante assassinou a tiros o herdeiro do trono do império, Francisco Ferdinando!).

Além deste, o fraco Império Otomano e o Reino da Itália aliaram-se à Alemanha. Os italianos, em segredo, também assinaram um acordo com a França, poucos anos depois (e durante a guerra mudaram de lado! Aliados suspeitos, esses italianos). Isso mostra como essa rede de alianças era muito complicada e enrolada.

Outro fator muito significativo foi a política imperialista dos países europeus. Disputas coloniais na África, corrida armamentista, a ideia de consolidar vastos territórios aos seus países, são alguns exemplos da constante disputa que movimentava alianças, acordos e desavenças. Não é exagero falar que as nações esperavam por um conflito de grandes proporções, e seus líderes ansiavam por isso. Uma batalha curta e gloriosa, que servisse para mostrar a soberania e o gênio de guerra de cada um.

O EFEITO DOMINÓ

Dominós enfileirados, em pé. Com apenas um toque, um após o outro, em uma reação em cadeia, caem. Na imagem acima, bastou um dedo. Em relação à Primeira Guerra Mundial, foi mais ou menos isso, só que o dedo estava no gatilho de uma arma.

Em Sarajevo, Francisco Ferdinando estava fazendo uma visita diplomática. Organizados desde muito tempo, os membros da Mão Negra orquestraram um atentado contra o herdeiro do Império Austro-Húngaro. Eles não estavam lá para deflagrar uma guerra mundial, sequer imaginavam isso. Os terroristas faziam parte de um movimento que exigia a independência dos eslavos que viviam no império, e utilizaram-se de uma atentado em Sarajevo para buscar isso. O que aconteceu, naquele dia fatídico, acabou desencadeando algo muito maior.

O Império Austro-Húngaro, após o assassinato do arquiduque, enviou um ultimato à Servia, acusada de financiar o grupo terrorista, com 10 exigências. Ao saber que os sérvios aceitariam apenas 8, os austríacos declararam guerra ao país. Em proteção aos sérvios, a Rússia mobilizou suas tropas; A Alemanha, por sua vez, voltou-se contra a França, pondo em prática a tática de invasão rápida e massiva sobre este país, para depois ir com força total contra os russos. Após titubear muito, a França declarou guerra à Alemanha, após esta invadir a Bélgica e atacar soldados franceses. No mesmo dia, foi a vez dos russos receberem a declaração de guerra dos alemães. A Grã-Bretanha, recebendo uma resposta insatisfatória ao seu ultimato para que a Alemanha deixasse a Bélgica como território neutro, declarou guerra ao país de Guilherme II.

Assim, um após outro, os países foram declarando guerra uns  aos outros, dando início aos conflitos da Primeira Guerra Mundial.

REVISANDO…

O atentado contra Francisco Ferdinando não foi o causador da guerra. Foi, pelo contrário, o fósforo aceso que faltava ser jogado nos barris de pólvora já montados. Ou seja, Gravilo Princip, naquele dia, ao usar sua arma, disparou mais que apenas duas balas. Ele derrubou o primeiro dominó da fila, e o efeito em cadeia começou.

As disputas políticas e econômicas, a corrida armamentista, o ímpeto conquistador sobre as colônias na África, a busca pela supremacia mundial: todos esses elementos estavam em jogo, ainda que, nas relações diplomáticas e na vida social, isso ficasse escondido sob a linda máscara da belle époque, período da deslumbrante cultura cosmopolita na história da Europa. As pompas desse período deram lugar ao desencanto e a crueldade da guerra que se avizinhava.

Clique abaixo e confira o texto 2: Entre tambores e cavalarias, a Grande Guerra e o choque das mentalidades de combate.