Entre tambores e cavalarias, a Grande Guerra e o choque das mentalidades de combate

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Texto 2 – Série Primeira Guerra Mundial

Prof. Pablo Michel Magalhães 
Licenciado em História - UPE 
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM 
Mestre em História - UEFS

A GUERRA “ROMÂNTICA”

Talvez tenha sido a guerra com mais inovações tecnológicas até então vista, e onde as táticas e estilos de combate se modificaram com maior intensidade. Ao se prepararem para o conflito, firmando alianças, reforçando seu exército, marinha, e promovendo uma corrida armamentista, os países europeus imaginavam uma guerra curta, gloriosa e, acima de tudo, vitoriosa. Imaginavam, em meses, ver seus soldados de volta, como campeões. Assim, também, o acreditava a sociedade em geral, que, em sua maioria, ansiava por este enfrentamento (imprensa, intelectuais, povos nas ruas, políticos).

O estilo de fazer guerra, até então, em muito se assemelhava com o ideal “romântico” de batalha: em hora e espaço marcados previamente, as divisões se enfrentavam. Com um número de mortos reduzido, mais parecendo um jogo de xadrez, cada general dispunha de suas estratégias no campo, a fim de inutilizar seus oponentes. Em geral, os locais em que as batalhas ocorriam eram afastados das cidades, havendo uma clara distinção do espaço civil e do espaço militar. Ao fim do dia, sentados à mesa, os generais decidiam que rumos tomar (paz em acordo, rendição ou a continuidade dos enfrentamentos).

Soldados franceses marcham com suas baionetas.

Algo muito valorizado pelos exércitos era a marcha triunfal: perfilados, em grupos, os soldados caminhavam no mesmo compasso, seguidos por tambores, que acentuavam o peso dos passos e, acreditava-se, causava temor nos adversários. As infantarias e as cavalarias com lança eram os principais mecanismos de ataque. A baioneta, carinhosamente apelidada de Rosalie pelos soldados franceses, era uma das armas mais utilizadas e que melhor traduziam a ideia de combate corpo a corpo (fuzil encabeçado com uma lâmina afiada).

Cavalaria inglesa (imagem/reprodução: filme Cavalo de Guerra).

Em questão de meses uma batalha estaria finda (lembrem-se da última grande guerra europeia, a Franco-Prussiana, que durou de 19 de julho de 1870 a 10 de maio de 1871, com pouco mais de 180 mil mortos).

Esse método de guerra, que predominou na Idade Moderna até o início de século XX, encontrou seu fim com a Primeira Guerra Mundial e as transformações tecnológicas e de táticas de batalha que surgiriam no período. Muitos generais franceses e alemães em 1914 foram tenentes em 1871, e buscavam, apesar de ter aprendido muito dos seus antecessores, marcar os seus exércitos com seu próprio estilo de guerra. O velho Otto Von Bismarck, provavelmente, não teria espaço nesse novo contexto.

O CHOQUE DAS MENTALIDADES E AS NOVAS TECNOLOGIAS DE GUERRA

Mentalidades são modos de pensar e sentir, característicos de determinada época. No nosso caso, as mentalidades de batalha seriam maneiras de pensar e viver uma guerra. Os países, no início da Primeira Guerra Mundial, ingressaram no conflito com um ideal de batalha ao estilo “romântico”, que prevaleceu em vários combates no século XIX.

Os soldados franceses mais pareciam alvos ambulantes para os soldados alemães. Vestidos com uma calça garance vermelha, capote com abas dobradas, gorro de pano, faixas de lona envolvendo as pernas e mochila pesando 50 kg, estes soldados se locomoviam lentamente, e estavam mais preparados para perfilar e atirar, em campo aberto, do que combater rapidamente; com uniforme chamativo, destoando completamente do ambiente em que se encontravam, as chances de camuflagem eram mínimas.

E por que camuflar? Essa tática não era nada honrosa, na concepção militar que existia até então. A glória da batalha estava em enfrentar seu inimigo, cara a cara, às claras.

Os soldados alemães, entretanto, também usavam fardamentos bastante característicos. Casacos cinza ou azuis escuros (ao modo prussiano), com botas de couro ferradas, capacete de couro com guarnição metálica e uma ponta de lança em cima (utilizado desde 1842 pelos prussianos).

Soldado alemão

Ao longo dos combates, esses uniformes foram se adequando a uma nova lógica de guerra. Com a introdução de novos instrumentos de batalha, como as metralhadoras Hotckiss (francesas) e as Maxim (alemães), armas letais com grande capacidade de tiros e automáticas, bem como a introdução dos carros de combate (tanques de guerra) em 1917, primeiramente pelos ingleses, seguido pelas demais nações em combate, exigia-se que, cada vez mais, os soldados se camuflassem e se escondessem em locais estratégicos (daí a necessidade de se entrincheirar).

A metralhadora francesa Hotckiss

Os soldados franceses passariam, assim, a utilizar um uniforme azul claro, quase cinza, trocando o gorro ou o chapéu de pano por capacetes metálicos. Os alemães passariam a utilizar uma cobertura de lã escurecida sobre a ponta de lança que utilizavam, bem como em todo o capacete, com a intenção de camuflá-lo.

Além destas novidades, o avião e os submarinos, enquanto instrumentos de guerra, transferiram o campo de batalha da terra firme para o mar e o ar. Apesar da desconfiança de muitos generais, que consideravam o avião um ótimo mecanismo para esporte e entretenimento, e não para a guerra, este invento de Santos Dumont revelou-se uma das ferramentas mais eficientes no campo de batalha. Além deste, os zeppelins, dirigíveis lentos, porém eficazes, eram responsáveis pelo bombardeamento aéreo à longa distância.

Em pouco tempo, durante a Grande Guerra, as frotas aéreas aumentaram assombrosamente. A princípio, serviram como transportadores de cargas e mantimentos; logo, com o incremento de uma metralhadora, por parte do holandês Anthony Fokker, trabalhando para a Alemanha, e do pioneirismo do francês Roland Garros (sim, é o mesmo nome de um torneio de tênis, que o Guga ganhou três vezes), o avião passou a instrumento letal, responsável por bombardeios sincronizados a pontos estratégicos.

É o período em que os grandes pilotos se destacam, os chamados azes, e adquirem fama por seus feitos. Um exemplo, talvez o mais conhecido, é o do Barão Vermelho, Manfred Von Richthofen. Tendo abatido 80 inimigos no ar, ele era respeitado e temido pelos oponentes. Quando, finalmente, foi derrotado, na Batalha de Somme, em 1916, foi tratado como herói de guerra pelos ingleses, que o enterraram com todas as honras militares.

No mar, os navios britânicos artilhados e camuflados como velhos cargueiros, os navios Q, eram a principal armadilha dos Aliados contra os submarinos alemães. A Alemanha, por sua vez, investiu pesado na construção de sua Esquadra de Alto-Mar, além dos temíveis submarinos.

REVISANDO: DA LANÇA AO TANQUE DE GUERRA

Como pudemos ver, as transformações ocorridas na Primeira Guerra Mundial foram profundas. Da guerra “romântica” com lanças e cavalarias, passou-se aos bombardeios aéreos e ao uso de metralhadoras que, em instantes, poderiam dar cabo de vários soldados inimigos ao mesmo tempo. Dos uniformes chamativos, mais parecidos com alvos, preferiu-se o uso de tons mais amenos, com maior facilidade de camuflagem com o terreno do combate.

Por fim, houve a destruição dos sonhos daqueles que esperavam um conflito curto, glorioso e heróico. Dos meses esperados vieram os anos, o tempo corria mais e mais, o conflito não acabava, e mais pessoas vinham a morrer no campo de batalha. Era o fim da belle époque, a era de ouro da civilização urbana e burguesa, diante de um dos quadros mais terríveis da história da humanidade, a Grande Guerra.

Clique abaixo e confira o texto 3:

Trincheiras, estratégias e a terra de ninguém: o desenrolar da Grande Guerra.