No Maranhão, a Jamaica é ‘benhalí’

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Joyce Oliveira Pereira
Mestre em História - UEMA

Como citar este artigo:
PEREIRA, Joyce Oliveira. No Maranhão, a Jamaica é ‘benhalí’ (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 01 de Julho de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2021/07/01/no-maranhao-a-jamaica-e-benhali/. ISSN: 2317-9929.

Introdução

O ritmo surgiu na Jamaica nos 1960 ligado sobretudo aos rastafarianistas, um movimento cultural que possui características políticas, religiosas, milenarista e revolucionárias ao propor uma nova visão de mundo que tem como marco cronológico a coroação de Haile Sellasie I, como imperador da Etiópia em 02 de novembro de 1930[1].

Os rastafáris eram caracterizados como:

Pessoas de espiritualidade. Tocavam tambores tribais, consumiam “ganja” e viviam na zona rural da Jamaica. Em sua maioria eram líderes espirituais que recusavam contato com a Babilônia. A Babilônia metaforiza, no posicionamento ideológico dos rastafáris, um mundo de crime, injustiça, corrupção e violência, no qual só produz guerra e dor. Na Jamaica, a Babilônia estaria incorporada às figuras da Igreja católica, do governo e da polícia.[2]

As pregações que começaram a tomar Haile Selassie I como divino se iniciaram em 1933 principalmente através de Marcus Mosiah Garvey, que contribuiu para conscientização das desigualdades raciais na América, sendo um dos expoentes do pan-africanismo e foi considerado um profeta[3].

O pan-africanismo como ideologia política foi importante na crítica ao eurocentrismo como filtro de leitura das sociedades e ajudou a construir uma visão positivada do “ser negro” nas populações africanas e afrodiaspórica. No Congresso Pan-africanista realizado em 1935 foi discutido a libertação da África da colonização europeia e no quinto Congresso realizado em 1945 o movimento tornou-se “ideologia de massas, elaboradas pelos africanos e em seu próprio favor”.[4]

Não muito diferente da África, a Jamaica era/é um país com grandes níveis de desigualdade social frutos da escravidão, onde existem três classes principais em que a raça e a classe estão intimamente ligadas: “uma elite branca, uma classe média composta por ‘mulatos’ (near or almost whites) e uma imensa maioria composta de afrodescendentes”[5]. Nos anos de 1950 ocorreu um êxodo rural em massa para a capital, Kingston, em que essa população foi habitar favelas, nas quais haviam vários problemas estruturais: falta de oportunidade de emprego e questões relacionados à violência urbana com gangues e o narcotráfico:

Os outros “outsiders” da Jamaica estavam localizados nas grandes concentrações populacionais urbanas de Kingston e, sem dúvida, situavam-se mais intensamente nos bairros Trench Town e Chanty Town, os bairros de lata. Constituída basicamente de afrodescendentes, a maioria era oriunda do êxodo rural que, em busca de melhores condições de sobrevivência, migrou para as favelas da capital, onde nasceu e se desenvolveu o reggae tal qual se concebe hoje. [6]

O reggae se constituiu através de hibridismos culturais com a mistura de ritmos como o mento, música rural jamaicanaque originou o ska, muito influenciado pelo rhythm and blues dos Estados Unidos. É importante frisar que a maioria dos músicos de ska eram rastafarianistas e ligados ao pan-africano e que os cultos eram realizados nas zonas rurais onde “eram tocados os burru drums, tambores que perfomavam o nyabing[7].  O rock-steady que se desenvolveu posteriormente deu origem ao reggae, no qual a principal característica é o ritmo mais lento e mais pesado e as letras acompanhavam as questões da sociedade jamaicana[8].

 O Reggae no Maranhão

Operando a conexão atlântica é visualizado que havia um contexto parecido no Maranhão dos anos 1970, período em que a expansão do capitalismo foi efeituada pela oligarquia Sarney, a principal gestora e administradora do processo de modernização econômica do espaço regional. Essa inclusão da economia maranhense à nacional só foi possível através de relações sociais autoritárias que aprofundaram as desigualdades sociais já existentes e que intensificaram os conflitos agrários.[9]

Aliado à um discurso que afirmava “tirar o Maranhão do atraso” houve o alinhamento “às políticas desenvolvimentistas direcionadas à Amazônia Legal através da política de industrialização minero-siderúrgica com polo em São Luís, capital do Estado, e, também impulsionado pela realidade violenta do campo, houve um intenso fluxo migratório para a cidade: no decorrer da década de 1970, houve um acréscimo populacional de 59% em relação à década anterior, e de 80% em relação à década de 1950”[10].

Ponte do São Francisco, São Luís (MA)- 1970(?)

Isso levou à uma ocupação espacial da cidade conforme a necessidade e a chegada dos migrantes que ou estavam em busca de empregos na indústria ou foram expulsos de suas propriedades agrícolas. Essas ocupações podem ser definidas como ‘formais’, caso fossem oriundas de instituições de amparo legal à terra ou ‘espontâneas’, que seguiam a lógica de solidariedade familiar, no caso de parentes que chamavam outros para a capital ou da associação de migrantes em mutirões para a construção de barracos. [11]

Esses sujeitos ocuparam as franjas da cidade de São Luís, ou seja, bairros de periferia ao longo dos diferentes setores da capital: aqui se pode citar nominalmente Vila Padre Xavier, Sá Viana, São Bernardo, Ilhinha, Anjo da Guarda, João de Deus, Floresta, Coroadinho, Vera Cruz e Liberdade, locais onde ocorreram muitas ações de despejo ao longo dos anos de 1970 e 1980 a uma população que não tinha muitas opções, pois já provinham de outras regiões do estado.[12]

A ocupação laboral dessas pessoas apontava para o baixo grau de escolarização, assim, geralmente exerciam funções onde a força física era essencial: vigias, empregadas domésticas, trabalhadores da construção civil, eletricistas, carroceiros, carregadores, serventes, marceneiros, feirantes, borracheiro, peão, oleiro, manicure, vendedor ambulante, biscateiro, costureira, quitandeira, soldador, mas também encontrou-se aposentados do INPS, fiscal de peões de construtora, pequenos comerciantes.[13]

Os sujeitos dessas periferias tinham uma predileção nos momentos de lazer por bailes onde se tocavam ritmos caribenhos como bolero e o merengue e regionalmente como o forró, nos quais se dançavam juntos/agarrados e, nesses mesmos espaços foi que o reggae começou a ser tocado:

Nos anos 1970, era tocado em festas onde predominavam ritmos como merengue, lambada e bolero. Assim, nos intervalos de sequências mais agitadas, os discotecários passaram a tocar estilos cadenciados. Desta forma o reggae foi despontando no cenário musical da capital, onde era conhecido, no início, como música ―estrangeira lenta‖ (SILVA, 1995). Aliás, como estes ritmos que dominavam os salões populares da cidade eram dançados a dois e ninguém sabia o modo de se curtir o ―novo ritmo‖, o reggae passou a ser dançado ―agarradinho‖, como se convencionou dizer. ― Em vez dos passos largos para frente e dos braços para o alto, os ludovicenses cadenciaram ainda mais a dança e juntaram-se em par.[14]

A difusão do ritmo aconteceu de forma espontânea principalmente pelas músicas tocadas estarem fora do catalogo da indústria cultural jamaicana, sendo que os LPs das músicas preferidas dos maranhenses eram dificilmente encontrados, e um dos fatores de difusão foi o “comércio paralelo, de gravação de fitas, e aluguel de radiolas”.[15] Os clubes onde haviam as festas se encontravam em locais de passagem entre essas periferias e com fácil acesso por meio de transporte público, assim como existiam clubes em locais mais “burgueses’ conforme o reggae foi sendo reterritorializado e reapropriado pelas camadas sociais ludovicenses:

Com exceção de clubes como Espaço Aberto e Clubão do São Francisco – no bairro do São Francisco (embora seja um bairro predominantemente de classe média, é cercado de comunidades onde moram pessoas com menor poder aquisitivo, como Ilhinha, Conjunto Basa e Morro), os já citados Toca da Praia e Arena – ambos na praia da Ponta D´Areia (que, situada em área hoteleira, é próxima também da Ilhinha), localizado na Jordoa, “Palácio da Seresta (no São Cristóvão), Barraca de Pau (Cidade Operária), Caldeirão do Chopp (Vila Palmeira), União dos Moradores do Bairro de Fátima (Bairro de Fátima), Pop Som II (Coroadinho), Clubão Cidade (Vila Bacanga), CB 450 (Vila Embratel), Jamaica Brasileira (Cohab – Forquilha).[16]

Outra característica importante do reggae maranhense são os melôs, as músicas de reggae que não tinham seus nomes divulgados pelos djs das radiolas devido à concorrência entre elas, o que garantia a exclusividade da canção e cativava um público fiel nas festas de salão: elas geralmente eram dos anos de 1960 e 1970, o que gerava uma busca incessante por esses discos de vinil, outra características importante é que essas canções podem ser nomeadas como ‘pedra’, em uma analogia ao diamante, o que demonstra o seu valor simbólico para os reggueiros:

A competição por essas bolachinhas era tão grande que os donos de radiolas guardavam esse acervo a sete chaves, jogavam fora as capas dos vinis e faziam de tudo para que ninguém soubesse quem era o cantor ou banda. Esse é um dos motivos das canções em São Luís serem apelidadas como melôs: Melô da Toca da Praia, Melô da Chuva, Melô de Antônio José, Melô do Cerrote, de Priscila, da Dançarina, dos Namorados, da Barraca de Pau, do Anil, de Serralheiro etc. A maioria são reggaes jamaicanos cuja autoria é ignorada pelo público. [17].

Se foi o “The Wailers” que lançou o reggae para o mundo com suas letras que falavam sobre o uso da ganja, violência urbana e o rastafarianismo o subgênero do ritmo que fez/faz sucesso no Maranhão é o lovers rock, que em sua maioria são versões de músicas pop dos Estados Unidos e Inglaterra em que predominam temas românticos, assim, o ídolo dos maranhenses é o jamaicano Gregory Isaacs ao lado de John Holt, e Erick Donaldson. [18]

Esses são os artistas mais tocados nas radiolas, grandes aparelhagens com caixas de que podem ser deslocadas de festa em festa, e é o grande número de caixas que garante a vibração que é tão apreciada pelos regueiros, no entanto, ao longo do tempo com as festas e a formação de fã-clubes para as radiola começou a ser formado um capital simbólico ao seus proprietários[19], que para alguns converteu-se em capital político: este é o caso de José Eleonildo Soares, mais conhecido como Pinto da Itamaraty, dono e proprietário da Itamaraty Sonorizações e da Radiola Nova Mega Itamaraty, uma das maiores e mais antigas do estado. Essa projeção o elegeu para mandatos políticos como vereador (2001–2007), deputado federal (2007–2015) e assumiu o mandato de Senador da República em outubro de 2016, após licença do titular Roberto Rocha.

Hoje em 2021 o reggae no Maranhão conseguiu alçar lugares até então inimagináveis quando começou a se capilarizar no Estado: no dia 05 de setembro comemora-se o dia Municipal do Regueiro na capital, São Luís, que é conhecida como Jamaica Brasileira, existe o Museu do Reggae Maranhão, o único fora da Jamaica, também na mesma cidade. Ele foi fundado em 2018 e já no seu primeiro ano recebeu mais de 50 mil visitações. Existe a intenção de transformar a forma de dançar, no Maranhão se dança reggae junto, em patrimônio imaterial do Estado.

 O reggae para além de um ritmo constitui-se no Maranhão como um agregador social que inclui o léxico, a vestimenta, a estética e dança, em que todos eles se constituem como aportes de resistência ao racismo estrutural da população afrodescendente, mas após quase 40 anos de enraizamento se tornou memória coletiva no Estado: não há quem não mecha o pé, a cabeça ou os ombros quando escuta aquela ‘pedra’.

Fotografia: Márcio Vasconcelos – @marcio_vasconcelos_foto

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL, Marcus Ramúsyo de Almeida. O reggae no Caribe Brasileiro. São Luís: Pitomba!, 2014.

FREIRE, Karla Cristina Ferro. Que reggae é esse que jamaicanizou a “Atenas brasileira”? Dissertação (Mestrado em Ciências sociais). Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, São Luís (MA), 2010.

GOMES, Antonio Marcos. Notas sobre o processo de formação do mercado de trabalho no Maranhão: da grande lavoura aos grandes empreendimentos. In: BARROS, A.E.A.; NERIS, C.S.C.; BARROSO JÚNIOR, R.S.; SALES, T.S.; BARBOSA. V.O.; NERIS, W.S. (Org.). Histórias do Maranhão em Tempos de República. 1ª ed. Jundiai- SP: Edufma; Paco Editorial, 2015, v. v1, pp. 415-438.

RABELO, Danilo. Rastafari: identidade e hibridismo cultural na Jamaica (1930-1981). Tese (Doutorado em História). Universidade de Brasília, Programa de Pós-Graduação em História, Brasília (DF), 2006).

PEREIRA, Jesus Marmanillo. Luta por Moradia e Condicionantes Necessários: História, agentes e organização popular ludovicense entre as décadas de 1970 e 1980. In: BARROS, A.E.A.; NERIS, C.S.C.; BARROSO JÚNIOR, R.S.; SALES, T.S.; BARBOSA. V.O.; NERIS, W.S. (Org.). Histórias do Maranhão em Tempos de República. 1ª ed. Jundiai- SP: Edufma; Paco Editorial, 2015, v. v1, pp. 353-377.

SILVA, Carlos Benedito Rodrigues da. Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae, lazer e identidade em São Luís do Maranhão. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais). Universidade Estadual de Campinas, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Campinas (SP), 1992.

SILVÉRIO, Valter Roberto. Síntese da História Geral da África: século XVI ao século XX. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013.


Notas

[1] RABELO, Danilo. Rastafari: identidade e hibridismo cultural na Jamaica (1930-1981). Tese (Doutorado em História). Universidade de Brasília, Programa de Pós-Graduação em História, Brasília (DF), 2006), p. 07.

[2] BRASIL, Marcus Ramúsyo de Almeida. O reggae no Caribe Brasileiro. São Luís: Pitomba!, 2014., p. 101.

[3] BRASIL, op. cit., p. 21.

[4] SILVÉRIO, Valter Roberto. Síntese da História Geral da África: século XVI ao século XX. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013., p. 572.

[5] RABELO, op. cit., p. 46.

[6] BRASIL, op. cit., p. 19.

[7] Ibid., p. 38.

[8] Idem.

[9] GOMES, Antonio Marcos. Notas sobre o processo de formação do mercado de trabalho no Maranhão: da grande lavoura aos grandes empreendimentos. In: BARROS, A.E.A.; NERIS, C.S.C.; BARROSO JÚNIOR, R.S.; SALES, T.S.; BARBOSA. V.O.; NERIS, W.S. (Org.). Histórias do Maranhão em Tempos de República. 1ª ed. Jundiai- SP: Edufma; Paco Editorial, 2015, v. v1, pp. 422-423.

[10] GOMES, op. cit., pp. 420-421.

[11] PEREIRA, Jesus Marmanillo. Luta por Moradia e Condicionantes Necessários: História, agentes e organização popular ludovicense entre as décadas de 1970 e 1980. In: BARROS, A.E.A.; NERIS, C.S.C.; BARROSO JÚNIOR, R.S.; SALES, T.S.; BARBOSA. V.O.; NERIS, W.S. (Org.). Histórias do Maranhão em Tempos de República. 1ª ed. Jundiai- SP: Edufma; Paco Editorial, 2015, v. v1, p. 355.

[12] PEREIRA, op. cit., p. 357.

[13] Ibid., pp. 357-358.

[14] FREIRE, Karla Cristina Ferro. Que reggae é esse que jamaicanizou a “Atenas brasileira”? Dissertação (Mestrado em Ciências sociais). Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, São Luís (MA), 2010., p. 38.

[15] SILVA, Carlos Benedito Rodrigues da. Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae, lazer e identidade em São Luís do Maranhão. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais). Universidade Estadual de Campinas, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Campinas (SP), 1992., p. 55.

[16] FREIRE, op. cit., p. 63.

[17] Ibid., p. 90.

[18] BRASIL, op. cit., p. 40.

[19] Ibid., p. 84.